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O aleitamento materno e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial e emocional da criança: Comentários sobre Woodward e Liberty, Greiner, Pérez-Escamilla e Lawrence

Grace S. Marquis, PhD

Iowa State University, EUA

Outubro 2005

Introdução

O aleitamento materno é o método recomendado em todo o mundo para a alimentação de bebês. Embora as vantagens nutricionais e imunológicas do aleitamento materno já estejam bem documentadas,1 os resultados consistentes de estudos relativos aos benefícios psicossociais são mais ambíguos. As formas pelas quais o aleitamento materno afeta o desenvolvimento psicossocial e emocional são difíceis de deslindar e nem sempre são unidirecionais. Variáveis interferentes – como o nível educacional da mãe – estão estreitamente associadas à prática do aleitamento materno e, no entanto, também são determinantes do desenvolvimento psicossocial.2, 3 Fatores ambientais interagem com determinantes biológicos, modificando o efeito observado sobre o desenvolvimento. Por exemplo, Engle et al. sugerem que os padrões de vocalização da mãe podem modular diferencialmente a influência que o status nutricional da criança tem sobre o funcionamento cognitivo. Além disso, Pollitt postulou que não só fatores ambientais (como a estimulação vocal) têm um efeito direto e transformador sobre o desenvolvimento das crianças, como também o inverso é verdadeiro – uma criança com desenvolvimento mais avançado induz mais estimulação por parte do cuidador.5 

Três dos quatro artigos apresentados aqui discutem os desafios que a identificação dos efeitos do aleitamento materno sobre o desenvolvimento social e emocional de crianças pequenas representa para a pesquisa. Esses artigos focalizam o apego mãe-bebê, o ajustamento social e comportamental e o desenvolvimento cognitivo como indicadores de desenvolvimento psicossocial. O quarto artigo, de Greiner, discute práticas sociais que ajudarão a transformar em norma social comportamentos otimizados de amamentação.

Pesquisas e conclusões

Woodward e Liberty reveem muitos dos desafios da pesquisa sobre desenvolvimento psicossocial. Há uma ampla variedade de desenlaces psicológicos que se estendem do período neonatal (por exemplo, as interações mãe-bebê iniciais) através da infância e da adolescência (por exemplo, ajustamento comportamental). Além disso, é possível fazer diversas comparações entre grupos: bebês amamentados versus bebês alimentados com mamadeira, o que ocorre antes e depois da mamada, ou entre as durações ou padrões de aleitamento materno. Um aspecto importante é a identificação, por Woodward e Liberty, da distinção entre efeitos de curto e de longo prazo e o mecanismo pelo qual o aleitamento materno pode influenciar o desenvolvimento psicossocial como questões-chave de pesquisa. Woodward e Liberty demonstram a complexidade desses mecanismos em seu exemplo sobre a influência do aleitamento materno sobre o humor da mãe e o efeito do feedback do bebê para a mãe. No entanto, os caminhos para diferentes consequências podem ser os mesmos.    

O aleitamento materno é uma opção, e não um comportamento atribuído aleatoriamente às mães. As mulheres que optam por amamentar seus bebês são diferentes daquelas que optam pela mamadeira, e essas outras características da mãe e de seu ambiente são fatores de confusão para a análise. Embora Woodward e Liberty discutam os desafios dessa análise, o que aparentemente está faltando é o reconhecimento de que as características maternas associadas ao aleitamento materno apresentarão variações dependendo da cultura estudada. As características da mãe associadas ao aleitamento materno – tais como nível educacional e econômico mais alto – em países ricos como Canadá e Estados Unidos não são universais. De fato, em países que dispõem de menos recursos, o aleitamento materno é mais comum entre os pobres e aqueles com níveis educacionais mais baixos.6 Para compreender as formas pelas quais o aleitamento materno influencia o desenvolvimento psicossocial, é necessário considerar o contexto cultural em cada caso.

O artigo de Pérez-Escamilla aborda o desenvolvimento psicossocial a partir de uma perspectiva diferente da de Woodward e Liberty. Sua revisão enfatiza o efeito que o aleitamento materno exerce sobre três características associadas ao desenvolvimento psicossocial da criança mais velha: desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento motor da criança e obesidade infantil. Pérex-Escamilla demonstra de forma bastante clara o peso das evidências que sustentam o efeito positivo do aleitamento materno sobre o desenvolvimento cognitivo. Há um resultado estatisticamente significativo e consistente entre as pesquisas; uma “resposta à necessidade” (bebês prematuros, que têm necessidades fisiológicas maiores, beneficiam-se mais do que bebês de peso normal); uma sequência temporal lógica (isto é, a causa precede o efeito); e uma relação biologicamente plausível, baseada no papel dos ácidos graxos poli-insaturados (AGPI) no desenvolvimento visual e mental.

Pérez-Escamilla oferece exemplos de estudos nos quais o aleitamento materno está associado a desenvolvimento motor mais avançado nos bebês, demonstrado pela precocidade em certos marcos de desenvolvimento, como o ato de engatinhar. Pollitt sugeriu que o retardo no desenvolvimento de bebês desnutridos pode fazer com que a criança pareça ser “muito nova” e, portanto, induza menos estimulação por parte da mãe e do ambiente doméstico.7 No entanto, evidências de que o desenvolvimento motor inicial está associado ao melhor desenvolvimento psicossocial de crianças bem nutridas não são apresentadas no artigo de Pérez-Escamilla.

O último artigo sobre desenvolvimento psicossocial, de Lawrence, retoma o trabalho observacional pioneiro de Newton.8 Nesses estudos realizados há 40 anos, havia uma discussão permanente dos desafios da realização de pesquisa sobre aleitamento materno. Uma preocupação primária na época (e ainda hoje) é a definição de aleitamento materno. Lawrence observa também que o aleitamento materno ocorre não apenas em resposta à fome, mas também como mecanismo de redução de estresse e desconforto da criança e, portanto, seria de se esperar que desempenhasse um papel importante no desenvolvimento psicossocial da criança, o que é consistente com a descrição de mães peruanas sobre o aleitamento materno como forma de oferecer consolo, amor, segurança e comunicação à criança.9 No entanto, é necessário investigar de que forma o aleitamento materno influencia características humanas mais difíceis de quantificar: autoafirmação, maturidade social, autoconfiança. Lawrence relata algumas medidas dos benefícios do aleitamento materno em relação a essas características – por exemplo, crianças amamentadas são mais cooperativas e têm menor probabilidade de abandonar a escola – em estudos sobre desenvolvimento cognitivo, mas essas medidas ainda são limitadas. São necessários estudos adequadamente planejados que ofereçam a mesma riqueza das pesquisas observacionais de Newton. 

O artigo de Greiner distingue-se dos demais porque examina as condições sociais necessárias para a promoção do aleitamento materno. Embora Greiner acredite que há lugar para uma campanha geral de informação para educar cada nova geração de mães, é necessária uma abordagem equilibrada, que seja informativa quanto aos riscos de uma alimentação inferior ao ideal para os bebês. Não basta informar que o seio é melhor. Para que as práticas de aleitamento materno melhorem, é preciso que haja apoio em todos os níveis – por meio do sistema jurídico (por exemplo, apoio ao Código), por meio de centros de saúde que ensinem boas técnicas de amamentação a mães primíparas, por meio de leis trabalhistas que promovam condições de trabalho consistentes com o aleitamento materno exclusivo durante os primeiros seis meses de vida do bebê, e por meio do apoio social de amigos e familiares. Atividades de intervenção que não trabalham de forma cooperativa para oferecer apoio em todos os níveis têm sucesso limitado.

Implicações para Serviços, Desenvolvimento e Políticas

Os três primeiros artigos apresentam evidências de que o aleitamento materno está associado a alguns componentes do desenvolvimento psicossocial. Os três autores reconhecem também que há uma escassez de bons estudos e que persistem sérios desafios para a compreensão dos mecanismos pelos quais o aleitamento materno exerce suas influências. Embora Pérez-Escamilla e Lawrence concluam que os benefícios para o desenvolvimento psicossocial existem e devem ser considerados nas decisões políticas, Woodward e Liberty reconhecem que não há evidências consistentes e que a promoção do aleitamento materno deve basear-se apenas nas vantagens nutricionais e cognitivas. Essa conclusão parece excessivamente conservadora. 

Woodward e Liberty apresentam evidências de benefícios no curto prazo para a mãe, que melhorariam sua capacidade de oferecer estimulação e cuidados adequados, bem como benefícios para o bebê (maior vivacidade, autorregulação da motricidade e menos choro). Embora ainda haja poucas evidências de benefícios em longo prazo, os de curto prazo, assim como a inexistência de associações negativas com o aleitamento materno sugerem, aparentemente, que os formuladores de políticas podem incluir o aleitamento materno como uma das muitas intervenções sociais para a promoção de desenvolvimento psicossocial saudável na primeira infância. Em todas as sociedades, há uma grande diversidade de comportamentos e de necessidades. Serviços e políticas devem funcionar de forma a ajudar a sociedade a realizar seu potencial. Portanto, as políticas deveriam ser planejadas não apenas para reduzir o número de casos extremos de doença mental, mas também para ajudar as famílias na promoção do desenvolvimento psicossocial de seus filhos. O aleitamento materno não é uma panaceia, mas a literatura sugere que bebês e crianças obtêm muitos benefícios quando suas mães conseguem amamentá-las da melhor forma possível. A sociedade deve encontrar formas de apoiar as mães para que essa prática se torne universal.    

Referências

  1. Kramer MS, Kakuma R. The optimal duration of exclusive breastfeeding: A systematic review. Advances in Experimental Medicine and Biology 2004;554:63-77.
  2. Newton N. The uniqueness of human milk. Psychological differences between breast and bottle feeding. American Journal of Clinical Nutrition 1971;24(8):993-1004.
  3. Anderson JW, Johnstone BM, Remley DT. Breast-feeding and cognitive development: a meta-analysis. American Journal of Clinical Nutrition 1999;70(4):525-535.
  4. Engle PL, Castle S, Menon P. Child development: vulnerability and resilience.  Social Science and Medicine 1996;43(5):621-635. 
  5. Pollitt E, Gorman KS, Engle PL, Martorell R, Rivera J. Early supplementary feeding and cognition: effects over two decades. Monographs of the Society for Research in Child Development 1993;58(7):1-99.
  6. Grummer-Strawn LM. The effect of changes in population characteristics on breastfeeding trends in fifteen developing countries. International Journal of Epidemiology 1996;25(1):94-102.
  7. Brown JL, Pollitt E. Malnutrition, poverty and intellectual development. Scientific American 1996;274(2):38-43.
  8. Newton NR. The relationship between infant feeding experience and later behavior. Journal of Pediatrics 1951;38(1):28-40.
  9. Marquis GS, Diaz J, Bartolini R, Creed de Kanashiro H, Rasmussen KM. Recognizing the reversible nature of child-feeding decisions: breastfeeding, weaning, and relactation patterns is a shanty town community of Lima, Peru. Social Science and Medicine 1998;47(5):645-656.

Para citar este artigo:

Marquis GS. O aleitamento materno e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial e emocional da criança: Comentários sobre Woodward e Liberty, Greiner, Pérez-Escamilla e Lawrence. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/aleitamento-materno/segundo-especialistas/o-aleitamento-materno-e-seu-impacto-sobre-o. Publicado: Outubro 2005 (Inglês). Consultado: 21/07/2019.