Voltar às publicações recentes

Baixa renda (pobreza) durante os períodos pré-natal e pós-natal inicial e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial da criança

Greg J. Duncan, PhD Katherine A. Magnuson, PhD

Northwestern University, EUA

Junho 2002 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Muitas gestantes e mães de primeira viagem têm renda familiar baixa. Seus filhos tendem a apresentar mais problemas comportamentais e menos comportamento pró-social do que os filhos de famílias de renda mais alta.1-13  Portanto, alguns aspectos fundamentais de pesquisa e de políticas colocam em questão em que medida as diferenças de renda podem ser a causa dos problemas comportamentais das crianças, e de que maneira o fazem.

Do que se trata

Problemas comportamentais na infância têm custos tanto para as famílias quanto para a sociedade. Uma vez que políticas fiscais e de transferência de renda (por exemplo, subsídios para a infância) oferecem formas efetivas de modificação do rendimento familiar, é importante determinar se a baixa renda familiar é, em si mesma, responsável pelos problemas psicossociais da criança.  

Problemas

Os principais problemas metodológicos da pesquisa sobre este tópico incluem:

  1. Fazer distinção entre renda familiar e outros aspectos do status socioeconômico da família, tais como nível de educação parental.
  2. Determinar até que ponto a associação entre renda familiar e desenlaces psicossociais das crianças pode ser de natureza causal; e
  3. Determinar os mecanismos por meio dos quais a renda afeta desenlaces psicossociais. 

Uma questão-chave para as políticas nesta área de pesquisa é se a redistribuição de renda entre famílias mais ricas e mais pobres tem melhor relação custo-eficácia do que programas de intervenção destinados a prevenção ou tratamento de problemas psicossociais. 

Contexto de pesquisa

As relações entre renda familiar e desenlaces comportamentais das crianças têm sido investigadas com dados transversais e longitudinais.1-13 Uma vez que a renda familiar pode variar de um ano para outro,14 os dados longitudinais que relacionam a renda familiar durante os períodos pré-natal e pós-natal inicial a desenlaces psicossociais posteriores oferecem uma base muito mais sólida para o estabelecimento de inferências causais do que os estudos transversais, que relacionam a renda familiar atual aos desenlaces psicossociais das crianças. Além disso, os estudos que incluem controles estatísticos para condições familiares interferentes (tais como estrutura familiar) oferecem estimativas causais melhores do que os estudos que não o fazem. Por fim, diversos estudos experimentais manipularam as condições econômicas das famílias por meio de atribuição aleatória a várias condições de alteração do bem-estar familiar.15 

Questões-chave de pesquisa

  1. A renda familiar nos períodos pré-natal e pós-natal inicial afeta os desenlaces psicossociais da criança?
  2. Em caso positivo, por quais vias ocorre esse efeito? 

Resultados de pesquisas recentes

Uma definição de pobreza baseada em renda compara a renda familiar total – proveniente do trabalho, de programas de bem-estar social, de parentes ou de quaisquer outras fontes – com um limiar inferior de renda que varia segundo o tamanho da família, a inflação e, em algumas definições, segundo o padrão geral de vida da sociedade. A cada ano, uma substancial parte da minoria de famílias, desloca-se para cima e para baixo do limiar de pobreza. Desemprego, divórcio e outros eventos adversos reduzem a renda e empurram as famílias para a pobreza. A volta ao emprego, o casamento ou outros eventos positivos aumentam os rendimentos familiares, impulsionando a família para um patamar acima do limiar de pobreza.16 A renda é um componente diferenciado do status socioeconômico da família em virtude de sua volatilidade, uma realidade que não é bem representada pelas medidas baseadas em ocupação profissional ou em educação que frequentemente são empregadas em estudos psicológicos. Infelizmente, há muito poucos estudos longitudinais sobre o desenvolvimento inicial de crianças que incluam medidas adequadas dos rendimentos familiares.

a) Estudos correlacionais

Pesquisas com crianças pequenas verificaram que pobreza e baixa renda familiar estão associados a uma diversidade de desenlaces psicológicos.1-13 Até o momento, um número maior de estudos concentrou-se mais nos efeitos da renda sobre comportamentos problemáticos1-3,5-13 do que sobre comportamentos positivos.2,4-5,8 Há, no entanto, alguma evidência de que, em crianças pequenas, a renda está associada aos dois tipos de comportamento.2,4-5

Baixa renda familiar na primeira infância foi relacionada, comparativamente, a apego menos seguro, níveis mais altos de humor negativo e desatenção,5 e níveis mais baixos de comportamento pró-social nas crianças.2 A relação entre baixa renda familiar e problemas 

comportamentais em crianças pequenas foi replicada em diversos conjuntos de dados com diferentes medidas de resultados, entre as quais relatos de pais sobre comportamentos de externalização e internalização,1-3,7-9,11-12 relatos de professores a respeito de problemas de comportamento em pré-escolares,10 e avaliação de crianças com base em entrevistas de diagnóstico clínico.7  

De modo geral, há poucos fundamentos para uma associação entre baixa renda familiar e comportamentos problemáticos na infância. Por exemplo, um dos estudos verificou que uma criança cuja família tinha baixa renda no período entre seu nascimento e os 5 anos de idade tinha probabilidade 30% mais alta de apresentar problemas comportamentais relatados pelos pais do que uma criança cuja família não tinha enfrentado situações de baixa renda.7 Relações um pouco mais sólidas foram encontradas pelas pesquisas quanto à associação entre resultados psicossociais das crianças e pobreza persistente, em comparação com pobreza transitória.3,6  

b) Modelação causal

Diversos estudos sobre desenvolvimento da criança tentaram fazer distinção entre o efeito da renda familiar e os efeitos de outros aspectos da vida familiar – tais como nível educacional dos pais – que podem diferir entre famílias pobres e famílias mais abastadas.2-3,8,11-13 Em conjunto, os controles estatísticos de aspectos relacionados ao status socioeconômico da família produzem associações significativas muito pequenas ou desprezíveis entre renda familiar e problemas comportamentais da criança. O controle estatístico de problemas comportamentais prévios das crianças reduz em aproximadamente 50% os efeitos da baixa renda familiar sobre problemas comportamentais na infância.3-8 

Desenhos experimentais que envolvem a manipulação da renda familiar são mais adequados para o estabelecimento de associações causais entre renda familiar e bem-estar das crianças, porque as diferenças de renda não estão associadas a características dos pais ou das crianças. Experimentos com atribuição aleatória a condições diferentes, realizados na década de 1990, associaram famílias de baixa renda a uma variedade de condições, algumas das quais promoviam o emprego materno, mas não a renda familiar, enquanto outras promoviam ambos os efeitos.15 Em comparação com os sujeitos-controle, as crianças cujas mães foram alocadas nas condições que promoviam apenas o emprego diferiram pouco em termos de problemas comportamentais de externalização e internalização. As crianças cujas mães foram alocadas em condições que promoviam também a renda familiar apresentaram melhora em alguns resultados psicossociais em comparação com os sujeitos-controle. Infelizmente, os estudos focalizaram principalmente crianças em idade escolar e, portanto, suas constatações não tratam da questão de ocorrência ou não de efeitos positivos do aumento de renda nos primeiros anos de vida sobre o desenvolvimento psicossocial da criança.   

Conclusões

Em média, crianças criadas em famílias de baixa renda têm mais problemas psicossociais do que crianças criadas em famílias de alta renda. No entanto, as pesquisas não conseguiram estabelecer relações causais substanciais entre baixa renda familiar e resultados psicossociais das crianças; na verdade, outras características das famílias de baixa renda parecem ser mais importantes. A estrutura familiar – principalmente a uniparentalidade materna – foi identificada em diversos estudos como um correlato importante do ajustamento social e comportamental das crianças.18 Abuso de drogas,19 diferenças genéticas20 e exposição precoce a traumas21 são outros fatores que podem explicar a relação entre baixa renda familiar e problemas comportamentais da criança.

São necessárias muito mais pesquisas para identificar quais correlações da baixa renda familiar são mais suscetíveis a esforços de intervenção. Além disso, uma vez que estudos anteriores focalizaram primariamente se a pobreza afeta os problemas comportamentais em crianças pequenas, também é necessário investigar as relações entre baixa renda familiar e outros resultados psicossociais na infância.

Implicações para políticas e serviços

Aparentemente, as pesquisas atuais não sugerem que a melhoria do status econômico de famílias de baixa renda poderia, por si só, promover o desenvolvimento psicossocial das crianças ou reduzir seus problemas comportamentais; na verdade, o status de renda de uma família parece ter um efeito causal muito mais substancial sobre o desenvolvimento cognitivo e o desempenho acadêmico.2-3,15,17 Consequentemente, embora transferências de renda possam ser eficazes na promoção do desenvolvimento cognitivo das crianças, é improvável que melhorem o ajustamento social e comportamental na infância. Em última instância, ações diretas e intervenções terapêuticas podem ser uma alternativa comparativamente mais promissora.  

Referências

  1. McLeod JD, Shanahan MJ. Poverty, parenting, and children’s mental health. American SociologicalReview 1993;58(3):351‑366.
  2. Dearing E, McCartney K, Taylor BA. Change in family income-to-needs matters more for children with less. Child Development 2001;72(6):1779‑1793.
  3. Duncan, GJ, Brooks-Gunn J, Klebanov PK. Economic deprivation and early childhood development. Child Development 1994;65(2):296‑318.
  4. NICHD Early Child Care Research Network. The effects of infant child care on infant-mother attachment security : Results of the NICHD study of early child care. Child Development 1997;68(5):860‑879.
  5. NICHD Early Child Care Research Network. Early child care and self control, compliance, and problem behavior at twenty-four and thirty-six months. Child Development 1998;69(4):1145‑1170.
  6. Velez CN, Johnson J, Cohen P. A longitudinal analysis of selected risk factor for childhood psychopathology. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry 1989;28(6):861‑864.
  7. Bor W, Najman JM, Andersen MJ, O’Callaghan M, Williams GM, Behrens BC. The relationship between low family income and psychological disturbance in young children : An Australian longitudinal study. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry 1997;31(5):664‑675.
  8. Elder GH, Liker JK, Cross CE. Parent-child behavior in the Great Depression : Life course and inter-generational influences. In : Baltes PB, Brim OJ, eds. Life-span development and behavior. Vol 6. New York, NY : Academic Press; 1984:109‑158.
  9. Anderson DR. Prevalence of behavioral and emotional disturbance and specific problem types in a sample of disadvantaged preschool-aged children. Journal of Clinical Child Psychology 1983;12(2):130‑136.
  10. Adams CD, Hillman N, Gaydos GR. Behavioral difficulties in toddlers : Impact of sociocultural and biological risk factors. Journal of Clinical Child Psychology 1994;23(4):373‑381.
  11. Blau, DM. The effect of income on child development. The Review of Economics and Statistics 1999;81(2):261‑276.
  12. Yeung WJ, Linver MR, Brooks-Gunn J. How money matters for young children’s development: Parental investment and family processes. Child Development 2002;73(6):1861-1879.
  13. Mayer SE. Family Income and Children’s Life Chances. Cambridge, MA : Harvard University Press; 1997.
  14. Duncan GJ. The volatility of family income over the life course. In : Baltes PB, Featherman DL, Lerner RM, eds. Life-span Development and Behavior. Vol 8. Hillsdale, NJ : Lawrence Erlbaum; 1988:317‑358.
  15. Morris PA, Huston AC, Duncan GJ, Crosby DA, Bos JM. How welfare and work policies affect children : A synthesis of research. New York, NY : Manpower Research Demonstration Corporation; 2001.
  16. Duncan GJ, Magnuson KA. Off with Hollingshead: Socioeconomic Resources, Parenting, and Child Development. In: Bornstein MH, Bradley RH, eds. Socioeconomic status, parenting, and child development. Mahwah, NJ; Lawrence Erlbaum; 2003:83-106.
  17. Duncan GJ, Brooks-Gunn J, eds. Consequences of growing up Poor. New York, NY : Russell Sage Foundation; 1997.
  18. McLanahan S. Parent absence or poverty : Which matters more ? In : Duncan GJ, Brooks-Gunn J, eds. Consequences of growing up poor. New York, NY : Russell Sage Foundation; 1997:35‑48.
  19. Mayes LC. Substance abuse and parenting. In : Bornstein MH, ed. Handbook of parenting. Vol 2. Mahwah, NJ : Lawrence Erlbaum; 1995:101‑125.
  20. Rowe D, Rodgers JL. Poverty and behavior : Are environmental measures nature and nurture ? Developmental Review 1997;17:358‑375.
  21. Hertzig ME. Mental health and developmental problems of children in poverty. Bulletin of the New York Academy of Medicine 1992;68:25‑31.

Para citar este artigo:

Duncan GJ, Magnuson A. Baixa renda (pobreza) durante os períodos pré-natal e pós-natal inicial e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial da criança. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/baixa-renda-e-gravidez/segundo-especialistas/baixa-renda-pobreza-durante-os-periodos-pre-natal-e-pos. Publicado: Junho 2002 (Inglês). Consultado: 23/04/2019.