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Qual é sua importância?

Segundo as estatísticas nacionais de 2005, quase 12% das crianças canadenses vivem abaixo do nível de baixa renda. Isto representa 788 mil crianças.1 A situação de baixa renda é particularmente prevalente em famílias uniparentais chefiadas por mulheres. De acordo com os dados de 2005, 33,4% das famílias desse tipo estão abaixo do limiar inferior de baixa renda. Há consenso entre os pesquisadores de que a pobreza agrava o estresse enfrentado por todas as famílias e pode ter um efeito negativo sobre o desenvolvimento das crianças. Os riscos de resultados negativos para a criança e a probabilidade de condições precárias de vida são sensivelmente maiores para crianças que vivem em famílias com renda anual inferior a $30 mil.2 

O que sabemos?

Uma vez que a renda familiar pode mudar ao longo do tempo, os pesquisadores reconhecem dois tipos de situações de baixa renda, um transitório e o outro persistente. A situação de baixa renda persistente, ou simplesmente pobreza de longo prazo, tem-se revelado mais prejudicial do que a pobreza de curto prazo. E quando a situação de pobreza ocorre nos primeiros anos de vida, também parece ser mais prejudicial do que quando ocorre em anos posteriores da infância. 

A situação de baixa renda familiar tem sido consistentemente associada a QI baixo e fracasso escolar precoce. Foi relacionada também a diversos problemas infantis, entre os quais apego inseguro, humor negativo e desatenção, assim como outros problemas comportamentais. Diversos fatores associados à pobreza podem exercer uma influência negativa sobre o desenvolvimento social e emocional da criança: falta de apoio comunitário, uniparentalidade, baixo nível educacional dos pais, depressão materna, nutrição, baixo peso ao nascer e saúde do bebê são apenas algumas dessas variáveis. Na verdade, quando os pesquisadores levam em conta esses fatores associados, a baixa renda familiar, em si mesma, parece ter pouco efeito causal sobre o desenvolvimento social e comportamental nos primeiros anos de vida.

O que pode ser feito?

Dessa forma, embora a melhoria do status econômico das famílias promova resultados mais positivos para o desenvolvimento cognitivo e o desempenho acadêmico das crianças, serviços diretos e intervenções terapêuticas podem ser uma alternativa comparativamente mais promissora para a promoção do desenvolvimento psicossocial das crianças e a redução de problemas comportamentais. A chave parece ser a intervenção precoce. Visitas domiciliares são uma das formas pelas quais diversos serviços podem ser oferecidos a famílias de baixa renda. Estão surgindo evidências de que o impacto de programas de visitas domiciliares de alta qualidade e multidimensionais persiste por mais tempo depois do término da intervenção. As famílias estabelecem uma trajetória de vida diferente, com maior espaçamento entre os partos, menor dependência da assistência social e mais saúde e bem-estar entre as crianças. As visitas domiciliares, particularmente quando combinadas com cuidados oferecidos em um centro de atendimento, têm apresentado bons resultados na redução de problemas comportamentais das crianças. Dois importantes programas baseados em instituições que demonstraram efeitos de longo prazo sobre o comportamento das crianças são Perry Preschool e Head Start. Ainda são necessárias mais pesquisas para determinar quais componentes dos programas são essenciais, e quais produzem maior impacto no longo prazo. Da mesma forma, são necessárias mais pesquisas para descobrir de que maneira o funcionamento dos programas produz seus efeitos de longo prazo – se isso se deve a melhor qualidade do cuidado, aumento dos recursos pessoais da mãe, melhor funcionamento da família, aumento de recursos econômicos, ou todos esses fatores. 

Outros serviços e políticas que tendem a ter efeitos positivos sobre o ambiente e o desenvolvimento das crianças incluem os programas de suplementação alimentar para gestantes e os programas de subsídios habitacionais. Apesar desses resultados de pesquisa promissores, os serviços de intervenção nem sempre estão disponíveis na prática. Por exemplo, não são tão facilmente acessíveis em áreas rurais como em áreas urbanas do Canadá, e também não são tão facilmente acessíveis nas regiões mais ao norte quanto no sul do país. Os pesquisadores afirmam que a promoção da compreensão dos pais ou cuidadores sobre o desenvolvimento normal e o desenvolvimento problemático das crianças, assim como o aumento do que chamam de percepção dos serviços, ou suas crenças e expectativas sobre os serviços sociais são fatores importantes para garantir que os serviços sejam procurados pelas famílias que precisam deles. Sugerem também a redução dos obstáculos relativos à acessibilidade ao serviço por meio do provimento de cuidados infantis, auxílio para custos de transporte, diversificação dos locais e épocas de oferecimento dos programas, programas gratuitos ou de baixo custo, e esforços de ajustamento a diferenças de letramento, idiomáticas e culturais. 

Os pesquisadores reivindicam aumento de financiamento para intervenções que ajudariam crianças de baixa renda cujo desenvolvimento pode ficar comprometido por fatores familiares e ambientais de risco. Além disso, pedem mais avaliações dos serviços de intervenção, especialmente diante do fato de que estes são implementados em contextos de que não correspondem ao contexto ideal do mundo real. A avaliação dos programas deve ter bases teóricas, utilizar métodos rigorosos e focalizar os resultados emocionais, sociais e comportamentais das crianças.

Referências

  1. Statistics Canada. Income in Canada 2005. Catalogue no. 75-202-XIE.
  2. Ross DP, Roberts P. Income and child well-being: A new perspective on the poverty debate. Ottawa: Canadian Council on Social Development; 1999.

Para citar este artigo:

Baixa renda e gravidez: Síntese. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/baixa-renda-e-gravidez/sintese. Atualizada: Fevereiro 2017. Consultado: 25/08/2019.