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Cuidados não parentais e seu impacto sobre crianças pequenas (de 2 a 5 anos de idade)

Lieselotte Ahnert, Ph.D., Michael E. Lamb, PhD.

Free University, Alemanha, National Institute of Child Health and Human Development, EUA

Fevereiro 2004 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Através dos tempos e das culturas, a assistência não parental em relação aos cuidados na infância tem sido uma norma duradoura. Em todo o mundo, as crianças tipicamente vivem e são cuidadas primariamente por seus pais, mas também recebem cuidados de membros da família ampliada, de vizinhos, de amigos e de provedores de cuidados remunerados.1,2  Em países industrializados, o aumento da dependência de cuidado remunerado, provido frequentemente por creches subsidiadas pelo governo, promoveu nos últimos 20 anos uma intensificação da pesquisa sobre seus efeitos – positivos e negativos – sobre a saúde, as capacidades cognitivas, o ajustamento e as relações sociais das crianças. Embora seja consensual que os pais continuam a ser a influência mais importante para o ajustamento das crianças, é igualmente evidente que cuidados não parentais também podem ter impacto substancial.

Do que se trata

A natureza e a extensão do apoio público aos serviços de cuidado não parental são variáveis, dependendo de condições tais como:

  1. o provimento de cuidados não parentais ser ou não considerado necessário para promover a participação da mulher na força de trabalho;

  2. o provimento de cuidados não parentais ser considerado responsabilidade pública ou privada;

  3. o provimento de cuidados não parentais ser visto como programa de bem-estar social ou como programa educacional inicial.3

Além disso, em cada cultura, devido à diversidade de circunstâncias familiares, aos múltiplos tipos de cuidado não parental e aos complexos efeitos de diferenças de temperamento entre as crianças, é pouco provável que cuidados não parentais, em si e por si, tenham efeitos universais claros, sejam eles positivos ou negativos. Em decorrência disso, pesquisadores focalizaram a natureza, a extensão, a qualidade e a idade de início do cuidado não parental, bem como a forma pela qual o impacto conjunto desses fatores afeta crianças de diferentes contextos familiares, com diferentes necessidades educacionais, individuais e de desenvolvimento.

Problemas

Normalmente, os pesquisadores do desenvolvimento inicial procuraram explicar o impacto do cuidado parental sobre o desenvolvimento da criança, e só recentemente passaram a tentar considerar o impacto do cuidado não parental. Segundo a teoria do apego, por exemplo, um desenvolvimento socioemocional inicial bem-sucedido depende da construção de relações de confiança (apegos) com algumas poucas figuras de referência, tais como os pais. Os teóricos do apego propuseram inicialmente que seria necessário um cuidado contínuo para construir e manter esses apegos primários, e que esses apegos influenciam também a regulação emocional e os comportamentos sociais da criança, até mesmo em etapas posteriores da vida.4,5 Os apegos entre o bebê e os pais desenvolvem-se no primeiro ano de vida4 e, portanto, a teoria do apego atribuiu importância particular a práticas de cuidado dos bebês, que não são o foco deste artigo. 

Segundo muitos teóricos, o cuidado não parental pode ser problemático também para crianças pequenas e na idade pré-escolar. Uma vez que necessariamente perturba a continuidade de acesso às figuras primárias de apego, o cuidado não parental pode, em primeiro lugar, prejudicar os apegos primários e, dessa forma, atrapalhar o desenvolvimento socioemocional. Além disso, muitos teóricos argumentam que, em média, provedores de cuidado não aparentados não são tão comprometidos com suas responsabilidades em relação ao cuidado da criança como seriam os pais. Os sociobiólogos argumentam ainda que a qualidade do cuidado tenha relação com o grau de parentesco entre os cuidadores e as crianças,6,7 de tal forma que seria de esperar pior qualidade de cuidados por parte de cuidadores não aparentados, entre os quais professores, babás e outros cuidadores remunerados. Uma visão muito mais positiva sobre cuidados não parentais foi proposta por teóricos cognitivistas, que enfatizam a importância de estimulação e instrução bem planejadas para o desenvolvimento mental e comunicativo da criança.8

Contexto de pesquisa

Apesar de uma volumosa literatura sobre os efeitos dos cuidados na primeira infância, o quadro geral é frequentemente ambíguo e pouco claro. Essa confusão destaca, em parte, a necessidade de focalizar, não apenas as experiências de crianças quando estão sob cuidados não parentais, mas também outros aspectos da ecologia mais ampla, inclusive a intersecção entre cuidado parental e não parental. Por exemplo, crianças que recebem cuidados não parentais têm, em casa, experiências diferentes daquelas de crianças que só recebem cuidados parentais.9-13 Portanto, os pesquisadores precisam determinar se as diferenças entre crianças que ficam em casa e aquelas que também frequentam instituições de cuidado não parental podem ser atribuídas a suas experiências de cuidados não parentais ou às diferenças entre suas experiências em casa. A pesquisa deve também tentar aumentar a clareza dos achados por meio de meta-análises que resumam os resultados de diversos estudos menores,14-16 ou de estudos em vários locais, com grande número de participantes (NICHD Early Child Care Network;17CQOS Cost Quality and Outcome Study18). 

Questões-chave de pesquisa

Os pesquisadores exploraram os efeitos que os cuidados na infância exercem sobre diversos aspectos do desenvolvimento, embora pesquisas sobre desenvolvimento cognitivo e de linguagem – especialmente no contexto de programas de educação compensatória – e sobre desenvolvimento socioemocional tenham despertado maior interesse. Acadêmicos e políticos que questionam o valor e a adequação de cuidados na infância têm manifestado particular interesse em determinar se as crianças podem manter relações de apoio com seus pais quando frequentam creches. Enquanto isso, aqueles que valorizam o cuidado não parental enfatizam a necessidade, para a criança, de desenvolver boas relações com provedores de cuidados e de socializar com pares de idade, de forma a obter o máximo de vantagens com as experiências enriquecedoras de que dispõem. Este ponto de vista sugeriria também que o cuidado estimulante em casa é valioso ou necessário, e deve ser considerado quando se estudam os efeitos de estratégias e programas educacionais para bebês, crianças pequenas e crianças em idade pré-escolar. 

Resultados de pesquisas recentes

O fato de crianças que recebem cuidados não parentais desenvolverem ou não boas relações com seus pais depende da sensibilidade dos pais ao oferecer cuidados em casa.19 Além disso, é importante que os pais estabeleçam um equilíbrio entre os contextos do lar e da instituição que provê cuidados não parentais, e que continuem a prover os tipos de interações íntimas que raramente ocorrem nas creches.9,20,21 Muitas horas na creche e relacionamentos estressados entre pais e filhos estão associados a manifestações agressivas em crianças em idade pré-escolar,22,23 ao passo que bom relacionamento com provedores de cuidados ajudam a minimizar a agressividade e problemas comportamentais.24 Evidentemente, provedores de cuidado são capazes de desenvolver relações significativas com as crianças, mas a qualidade dessas relações depende mais do comportamento dos cuidadores em relação ao grupo como um todo do que da qualidade de suas interações com as crianças individualmente. Na verdade, as relações emergentes entre cuidadores e crianças refletem as características e a dinâmica do grupo, enquanto os apegos pais-filhos parecem ser mais influenciados por interações diádicas.14,25,26 A partir dos 2 anos de idade, as crianças são capazes de interagir mais extensamente com seus pares. Esses encontros oferecem excelentes oportunidades para a aprendizagem de regras de interação social: como avaliar ofertas sociais, como conduzir um diálogo e, o que é mais importante, como resolver construtivamente os conflitos com os pares.27

Apesar dos resultados iniciais contraditórios sobre os efeitos do cuidado não parental sobre o desenvolvimento cognitivo e linguístico, pesquisas mais recentes revelaram os efeitos positivos e duradouros de cuidados não parentais de alta qualidade – até mesmo sobre o desempenho escolar.28,29 Quase todas as crianças (e não apenas aquelas que provêm de ambientes domésticos menos estimulantes) podem ter benefícios cognitivos, especialmente quando vivenciam relações positivas com seus cuidadores.30

Conclusão

As crianças que recebem cuidados não parentais desenvolvem-se de forma diferente daquelas que não têm essa experiência? No passado, muitos estudiosos preocuparam-se com a possibilidade de que o cuidado não parental fosse perigoso para as crianças, e procuraram determinar se crianças que recebem esse tipo de cuidado são tão bem adaptadas quanto aquelas que são cuidadas apenas em casa. De certa forma, essa linha de pesquisa foi surpreendente, em vista das diferenças marcantes entre contextos de cuidado parental e não parental. Apenas recentemente os pesquisadores começaram a explorar as vantagens de cuidados não parentais de boa qualidade e seus benefícios potenciais para as crianças. Em particular, cuidados não parentais oferecem a oportunidade de contatos sociais mais extensos com pares e com adultos, permitindo, assim, que se abra um mundo social mais amplo para as crianças. Experiências positivas de cuidados não parentais podem também favorecer oportunidades educacionais posteriores, de tal forma que as crianças que vivenciaram cuidados não parentais precoces se tornam mais capazes de se beneficiar da educação, de se ajustar a rotinas e de resistir a conflitos. Apesar disso, o lar continua a ser o centro emocional da vida da criança, e é importante que relações de apoio entre os pais e a criança não sejam prejudicadas por experiências de cuidados não parentais, mesmo quando a criança passa longos períodos nesse contexto.20

Implicações

Uma vez que as crianças podem beneficiar-se de cuidados não parentais, é preciso que estes sejam de boa qualidade e ofereçam acesso a uma variedade de relações sociais positivas.3,31 No entanto, para garantir que os ambientes de cuidado sejam adequados do ponto de vista do desenvolvimento, é necessário manter baixa a proporção crianças/adulto. O tamanho e a composição do grupo também devem ser considerados como mediadores da qualidade das relações individuais entre cuidadores e crianças.18,32,33 É importante também que  regulamentos e pais adequadamente informados garantam e exijam a melhor qualidade possível de cuidados. Uma vez que cuidar dos filhos de outras pessoas – e em grupo – requer estratégias diferentes daquelas utilizadas no cuidado parental, é preciso que as atividades dos cuidadores recebam apoio da sociedade, tenham boa remuneração e sejam enriquecidas por programas sérios e cuidadosos de formação e de capacitação.

Referências

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Para citar este artigo:

Ahnert L, Lamb ME. Cuidados não parentais e seu impacto sobre crianças pequenas (de 2 a 5 anos de idade). Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Bennett J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/cuidados-na-infancia-educacao-e-cuidados-na-primeira-infancia/segundo-especialistas/cuidados-nao-1. Publicado: Fevereiro 2004 (Inglês). Consultado: 07/08/2020.