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Cuidados não parentais e seu impacto sobre crianças desde o nascimento até 2 anos de idade. Comentários sobre Belsky, Howes e Owen

Bengt-Erik Andersson, PhD

Stockholm Institute of Education, Suécia

Novembro 2003 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Três pesquisadores altamente conceituados escreveram artigos para o Centre of Excellence for Early Childhood Development (Centro de Excelência para o Desenvolvimento na Primeira Infância - CEDPI) a respeito de cuidados na infância e seu impacto sobre crianças pequenas, desde o nascimento até 2 anos de idade. Esse tópico tem provocado debates vigorosos tanto em meio ao público em geral quanto em meio a pesquisadores, uma vez que uma proporção significativa de mães de crianças pequenas atualmente trabalha fora de casa – algumas por opção, outras por necessidade. Assim sendo, a maioria dos pais se preocupa com as seguintes questões:

1.O que devo fazer com meu filho quando não estou em casa?

2.Meu filho será prejudicado se eu trabalhar fora de casa? 

Essas questões ocuparam a mente de cientistas e de pais nos últimos 50 anos e, até hoje, não há respostas claras. Um dos autores vem avaliando pesquisas nessa área há um quarto de século.1-7  Retrocedendo aos primeiros anos das pesquisas, os pais recebiam informações baseadas mais em teorias do que em fatos científicos.8,9  Segundo essas teorias, considerava-se prejudicial separar uma criança pequena de sua mãe antes dos 3 anos de idade.

Em muitos países, os pesquisadores não estavam satisfeitos com as respostas disponíveis relativas às preocupações dos pais, e muitos estudos foram realizados na busca por informações mais definitivas. Apesar desses esforços, durante muito tempo não houve uma prova substancial das alegações de que o cuidado em creches prejudicasse ou beneficiasse as crianças. 

No final da década de 1980 e início da década de 1990, a publicação de dados da Suécia revelou que, na verdade, experiências precoces de creche podem ser benéficas para crianças pequenas.10-13  Esses resultados contrariavam todas as expectativas, e particularmente os pesquisadores americanos foram forçados a adotar uma perspectiva mais ecológica sobre cuidados em creche. Não se tratava mais de defender ou não a creche, e tampouco simplesmente de uma questão relativa à idade em que uma criança deve ir para a creche. Para compreender as diferenças entre os resultados de pesquisas americanas e suecas, foi necessário levar em conta outras variáveis. A reconhecida alta qualidade das creches suecas foi citada pelos pesquisadores americanos para explicar as diferenças dos resultados. No entanto, há outras explicações plausíveis, que discutirei adiante. 

Pesquisas e conclusões

A maior parte das pesquisas foi realizada com grupos muito pequenos de crianças, que foram acompanhadas durante poucos anos. Infelizmente, esse tipo de pesquisa envolve problemas sérios. Em primeiro lugar, quando se trabalha com grupos pequenos é difícil descobrir alguma coisa sobre a forma pela qual os resultados poderiam ser aplicados à população em geral. Em segundo lugar, é impossível fazer qualquer afirmação sobre os efeitos que os cuidados na infância produzirão no longo prazo.

Em um esforço para superar esses problemas, o NICHD (National Institute of Child Health and Humand Development – Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano) empreendeu um projeto de pesquisa de larga escala. O estudo acompanha 1.274 mães e o desenvolvimento de seus filhos que tiveram experiências variadas de cuidados na infância. Todas as crianças receberam cuidados não parentais desde cedo. Foram publicados dados até a idade de 4 anos e meio a 5 anos. Participam desse estudo 25 dos mais conceituados pesquisadores americanos – uma equipe de peso. Outros projetos de pesquisa também envolveram um número significativo de sujeitos. Por exemplo, um dos estudos14 acompanhou 733 crianças entre 4 e 8 anos de idade, e um outro monitorou 414 crianças entre 14 e 56 meses de idade.15

Dois autores – Belsky e Tresch Owen – apoiam-se fortemente nos dados do estudo do NICHD, ao passo que Howes baseia-se também em outras fontes. Suas conclusões são relativamente semelhantes. Todos concordam que experiências precoces de creche podem ser positivas para o desenvolvimento cognitivo e linguístico. Por outro lado, a qualidade da interação com as mães pode ser prejudicada por cuidados de má qualidade e períodos extensos sob cuidados não parentais. Belsky enfatiza particularmente esses pontos, e menciona um risco de desenvolvimento digno de nota, embora modesto. Sua posição é congruente com seus escritos anteriores. No entanto, os alertas de Belsky sobre riscos de desenvolvimento são bem menos rígidos neste artigo do que em artigos prévios. 

Os três autores concordam quando à importância de alta qualidade nos cuidados na infância, mas nenhum deles tenta definir o que poderia significar alta qualidade. 

Na verdade, esses artigos apresentam alguns problemas. Por um lado, os autores baseiam-se somente em estudos americanos. Com isso, não aprendemos nada sobre o que cuidado não parental pode significar para o desenvolvimento de crianças em países que optaram por dar apoio às famílias de outras formas, e com outros tipos de cuidado na infância. Na Suécia, por exemplo, a atenção à infância é considerada como parte do sistema educacional desde os primeiros anos de vida, e os funcionários são professores de pré-escola com três anos de formação universitária, ou educadores com três anos de capacitação profissional. Assim sendo, o sistema sueco garante cuidados não parentais com alto nível de qualidade. 

Outro problema é o período limitado de acompanhamento nos estudos citados pelos autores. Ainda que algumas crianças tenham apresentado alguns problemas comportamentais ou de disciplina depois de experiências de cuidado não parental, não sabemos nada sobre a duração desses efeitos no longo prazo. Além disso, alguns efeitos podem manifestar-se anos mais tarde. Esses efeitos adormecidos tanto podem ser positivos como negativos. Em meus próprios estudos, verifiquei que efeitos positivos sobre o desenvolvimento social somente se manifestam no início da adolescência, quando são muito efetivos. 

Implicações para políticas e serviços

Os três autores enfatizam a importância de melhorar a qualidade dos cuidados na infância. Belsky recomenda também que devem ser adotadas outras providências – por exemplo, prolongamento da licença maternidade/paternidade e introdução de políticas fiscais que propiciem serviços de cuidado não parental financeiramente acessíveis e de boa qualidade. Concordo integralmente com essas recomendações, mas eu acrescentaria mais algumas sugestões, com base em minha experiência com o sistema sueco. 

Na Suécia, o conceito de apoio à família tem uma conotação ampla. Um de seus aspectos importantes é que os pais devem poder ficar em casa com os filhos quando estes mais precisam deles – isto é, quando a criança é muito pequena ou está doente. Portanto, a licença maternidade/paternidade tem a duração de 12 meses – e o Estado assume o pagamento de 80% do salário. Além disso, é possível manter um dos pais em casa quando a criança adoece durante o período pré-escolar, recebendo o mesmo pagamento que teria na licença maternidade/paternidade. Isso implica que o pai e a mãe podem sentir-se confiantes e relaxados quanto ao cuidado de seus filhos e, portanto, podem desempenhar melhor suas atribuições parentais em casa. Vale notar também que a assistência médica para as crianças é gratuita, além de diversas outras medidas. 

Alguns leitores podem perguntar: “Podemos realmente gastar tanto com nossas crianças?” Minha resposta é: ou gastamos esse dinheiro agora, ou teremos que gastar dez vezes mais para cuidar de todos os problemas que um sistema inadequado de apoio à família criará no futuro.13

Referências

  1. Belsky J. Two waves of day care research: Developmental effects and conditions of quality. In: Ainslie RC, ed. The child and the day care setting: qualitative variations and development. New York, NY: Praeger; 1984:1-34.
  2. Belsky J. Infant day care: A cause for concern? Zero to Three 1986;7(1):1-7.
  3. Belsky J. Risks remain. Zero to Three 1987;7(3):22-24.
  4. Belsky J. The "effects" of infant day care reconsidered. Early Childhood Research Quarterly 1988;3(3):235-272.
  5. Belsky J. Emanuel Miller Lecture: Developmental risks (still) associated with early child care. Journal of Child Psychology and Psychiatry and Allied Disciplines 2001;42(7):845-859.
  6. Belsky J, Steinberg LD. The effects of day care: A critical review. Child Development 1978;49(4):929-949.
  7. Belsky J, Steinberg LD, Walker A. The ecology of day care. In: Lamb M, ed. Child rearing in nontraditional families. Hillsdale, NJ: Erlbaum; 1981:71-116.
  8. Ainsworth MDS, Blehar MC, Waters E, Wall S. Patterns of Attachment. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associations; 1978.
  9. Mahler MS, Pine F, Bergman A. The psychological birth of the human infant: symbiosis and individuation. London: Hutchinson; 1975.
  10. Andersson BE. Effects of public day-care: A longitudinal study. Child Development 1989;60(4):857-866.
  11. Andersson BE. Effects of day-care on cognitive and socioemotional competence of thirteen-year-old Swedish schoolchildren. Child Development 1992;63(1):20-36.
  12. Andersson BE. Long-term effects of early day care in relation to family type and children's gender. In: Borge AIH, Hartmann E, Strøm S, eds. Day care centers: Quality and provision. Oslo: National Institute of Public Health; 1994:102-113.
  13. Andersson BE. Public policies and early childhood education. European Early Childhood Education Research Journal 1994;2(2):19-32.
  14. Peisner-Feinberg ES, Burchinal MR, Clifford RM, Culkin ML, Howes C, Kagan SL, Yazejian N. The relation of preschool child care quality to children's cognitive and social developmental trajectories through second grade. Child Development 2001;72(5):1534-1553.
  15. Howes C, Phillips DA, Whitebook M. Thresholds of quality: Implications for the social-development of children in center-based child care. Child Development 1992;63(2):449-460.

Para citar este artigo:

Andersson BE. Cuidados não parentais e seu impacto sobre crianças desde o nascimento até 2 anos de idade. Comentários sobre Belsky, Howes e Owen. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Bennett J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/cuidados-na-infancia-educacao-e-cuidados-na-primeira-infancia/segundo-especialistas/cuidados-nao-3. Publicado: Novembro 2003 (Inglês). Consultado: 07/08/2020.