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Experiência inicial em creche e segurança do apego mãe-bebê

Jay Belsky, PhD.

Institute for the Study of Children, Families and Social Issues, Birkbeck University of London, Reino Unido

Outubro 2009 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Os possíveis efeitos de cuidados não parentais sobre o desenvolvimento da criança e, caso existam, de que forma ocorrem, têm sido foco de interesse permanente para pais, formuladores de políticas e pesquisadores do desenvolvimento. Desde que Bowlby1 formulou a teoria do apego, o pensamento derivado dela levou alguns a supor que o cuidado em creches, especialmente quando iniciado nos primeiros anos de vida, prejudicaria a segurança das relações de apego criança-pais. Para alguns, isso ocorreria porque a frequência à creche implica separar a criança da mãe (ou de outro cuidador principal), e a separação da figura de apego seria inerentemente estressante. A separação poderia prejudicar também a capacidade da própria mãe de prover cuidado sensível, que é o principal fator determinante da segurança, e assim promover indiretamente a insegurança, ou seja, separação→insensibilidade→insegurança.  Uma última razão para a expectativa de uma relação entre a creche e a segurança do apego seria o fato de a segurança refletir o bem-estar emocional geral, de modo que efeitos adversos da creche para bebês haveriam de se manifestar como apego inseguro.

Contexto

A pesquisa inicial sobre a relação entre creche e apego, realizada frequentemente com crianças entre 3 e 5 anos de idade, não produziu qualquer evidência convincente em favor da alegação de que a creche prejudicaria a segurança.2  No entanto, em meados da década de 1980, estudos realizados com crianças muito mais jovens começaram a relatar relações entre creche e insegurança, avaliada pelo Procedimento da Situação Estranha (por exemplo, Barglow, Vaughn e Molitar3). Isto levou Belsky4,5,6 a concluir que o cuidado em creche, especialmente quando iniciado no primeiro ano de vida e em regime integral, ou quase integral,7 constituiria um “fator de risco” para o desenvolvimento de apego inseguro na primeira infância – e de agressividade e desobediência em crianças de 3 a 8 anos de idade.

Essa conclusão não ficou imune a questionamentos. Uma das críticas foi que a aparente influência que o cuidado precoce e prolongado em creche exerceria sobre a insegurança era consequência de outros fatores explicativos (por exemplo, renda familiar) que não estavam sendo adequadamente considerados nas pesquisas existentes.8  Outra crítica foi que o fator influente seria a qualidade precária dos cuidados (não mensurada), e não o momento e a quantidade de cuidados.9 E uma terceira crítica diz respeito ao 

Questões de pesquisa

No entanto, todos concordavam quanto à necessidade de mais pesquisas para esclarecer em que condições a experiência de cuidados em creche em idade precoce prejudicava ou não – ou promovia – a segurança do apego. Considerava-se particularmente importante: (a) levar em consideração fatores da criança, dos pais e do background familiar que poderiam ser responsáveis por quaisquer efeitos atribuídos aos cuidados não parentais; (b) diferenciar e deslindar efeitos potenciais de aspectos distintos da experiência de cuidado não parental, particularmente qualidade, quantidade e tipo de cuidado, por exemplo, cuidados providos em casa ou na instituição; e (c) determinar se a creche estava associada a menos reações de angústia diante de separações na situação estranha, ou se o comportamento independente estava sendo erroneamente caracterizado como comportamento de esquiva. 

Pesquisas recentes

O estudo do NICHD sobre Cuidados na Primeira Infância e Desenvolvimento Juvenil, lançado em 1991 nos EUA, procurou abordar esses e muitos outros aspectos.11 Acompanhou mais de 1.300 crianças desde o nascimento, no decorrer da escola primária12 e até a adolescência,13 aplicando avaliações como o Procedimento da Situação Estranha aos 15 e aos 36 meses de idade. 

Depois de levar em consideração uma grande diversidade de fatores potencialmente interferentes, os resultados mostraram-se marcadamente consistentes com a conclusão relativa ao cuidado não parental como fator de risco14 – ainda que muitos autores defendam o contrário.15,16 O que normalmente é enfatizado é que nenhum aspecto isolado da experiência de creche em si e por si – a quantidade, o tipo ou a qualidade do cuidado – foi preditivo de segurança do apego, parecendo sugerir que não há efeitos da creche sobre a segurança do apego. No entanto, o que os resultados realmente revelaram foi um fenômeno de “risco dual”.17 Embora o preditor mais poderoso de insegurança aos 15 meses de idade fosse, como seria de esperar, o cuidado materno de baixa sensibilidade (observado aos 6 meses e aos 15 meses), esse efeito era amplificado quando qualquer uma das três condições caracterizavam a experiência de cuidado nos primeiros 15 meses de vida: (a) média de mais de dez horas semanais sob qualquer tipo de cuidado, independentemente de sua qualidade; (b) freqüência a mais de um tipo de arranjo de cuidado não parental; e (c) exposição a cuidado de baixa qualidade.

As duas primeiras condições amplificadoras aplicaram-se à maioria das crianças estudadas. Mas apenas a primeira – a duração dos cuidados não parentais – contribuía também para a predição de apego inseguro aos 36 meses,18 novamente em interação com maternagem pouco sensível.19 Igualmente importante foi a evidência de que crianças que têm experiência de cuidados em creche por períodos prolongados: (a) não se estressavam menos na situação estranha em comparação com outras crianças (ver também referência 19); e (b) quando apresentavam comportamento supostamente independente, este não era confundido com comportamento de esquiva.14  

Dois outros estudos com amostras razoavelmente grandes produziram resultados contraditórios em relação aos do estudo americano. Em uma investigação com mais de 700 bebês israelenses, Sagi e colegas20 verificaram que “a creche, em si e por si, aumentou adversamente a probabilidade de bebês desenvolverem apego inseguro com suas mães em comparação com bebês que estavam sob cuidado materno, ou cuidado individual não parental de um parente, ou cuidado individual não parental de um cuidador remunerado, ou cuidado em creche familiar.” Outros resultados sugeriram que a “baixa qualidade das creches e a alta proporção crianças/cuidador explicavam o maior nível de insegurança do apego em crianças de creche” (ver também referência 16). Em um segundo estudo com 145 bebês primogênitos australianos, Harrison e Unger21 aprofundaram-se mais no aspecto do emprego materno do que nas características das creches. A retomada do emprego antes de cinco meses após o parto – e, portanto, o recurso mais precoce a cuidados não parentais – foi preditiva de taxas mais baixas de insegurança aos 12 meses de idade em comparação com o retorno ao trabalho mais tarde no decorrer do primeiro ano de vida, ou o não retorno ao trabalho. Em comparação com mães americanas e israelenses, as mães australianas são mais propensas a trabalhar em meio período do que em período integral. 

Lacunas da pesquisa

Ainda não está claro por que resultados de locais diferentes produzem achados variáveis. Os motivos podem estar relacionados aos sistemas nacionais mais amplos de cuidado não parental nos quais o cuidado em creches está contextualizado. Parece necessário realizar pesquisas internacionais.

Conclusões

Depois de décadas de debates e estudos, os resultados dos estudos mais amplos sobre creche e apego desacreditam fortemente qualquer alegação de que “não há relação entre cuidado em creche e apego.” Também não são confirmadas as asserções de que o Procedimento da Situação Estranha é metodologicamente inadequado para avaliar os efeitos da creche ou de que, pelo menos nos Estados Unidos, os efeitos adversos da creche sejam simplesmente decorrentes de baixa qualidade do cuidado. No entanto, tendo em vista que os resultados de três estudos em larga escala realizados em locais diferentes variam substancialmente, está claro que, provavelmente, não existem efeitos inevitáveis da creche sobre o apego. Aparentemente, os efeitos dependem dos contextos sociais nos quais a experiência de creche é vivida. 

Implicações

A constatação de que os efeitos detectados da experiência de creche sobre a segurança do apego variam substancialmente em diferentes contextos nacionais significa que é arriscado fazer inferências a partir da teoria do apego a respeito de qual seria esse efeito. Em última instância, a creche é um fenômeno multidimensional e, portanto, perguntas como “frequentar creche é bom para bebês (ou crianças pequenas)?” são excessivamente simplistas. É preciso fazer distinção entre a qualidade, o tipo, o momento e a quantidade dos cuidados, e é possível que os efeitos desses aspectos do cuidado não parental variem em função do contexto familiar, comunitário e cultural mais amplo no qual ocorre o serviço. O que não pode ser esquecido em qualquer avaliação sobre os efeitos da creche são considerações humanitárias: quais são os desejos não só das mães, dos pais, dos formuladores de políticas e da sociedade em geral, mas também quais são os desejos das crianças?

Referências

  1. Bowlby J. Attachment and loss. New York, NY: Basic Books; 1969. Attachment. vol 1.
  2. Belsky J, Steinberg L. The effects of day care: A critical review. Child Development 1978;49(4):929-949.
  3. Barglow P, Vaughn B, Molitor N. Effects of maternal absence due to employment on the quality of infant-mother attachment in a low risk sample. Child Development 1987;58(4):945-954.
  4. Belsky J. Infant day care: A cause for concern? Zero to Three 1986;6(4):1-7.
  5. Belsky J. The “effects” of infant day care reconsidered. Early Childhood Research Quarterly 1988;3(3):235-272.
  6. Belsky J. Emanuel Miller Lecture: Developmental risks (still) associated with early child care. Journal of Child Psychology and Psychiatry 2001;42(7):845-859.
  7. Belsky J, Rovine M. Nonmaternal care in the first year of life and the security of infant-parent attachment. Child Development 1988;59(1):157-167.
  8. Scarr S, Phillips D, McCartney K. Facts, fantasies, and the future of child care in the United States. Psychological Science 1990;1(1):26-35.
  9. Phillips D, McCartney K, Scarr S, Howes C. Selective review of infant day care research: A cause for concern. Zeroto Three 1987;7:18-21.
  10. Clarke-Stewart KA. Infant day care: Maligned or malignant? American Psychologist 1989;44(2):266-273.
  11. NICHD Early Child Care Research Network, ed. Child care and child development: Results of the NICHD study of early child care and youth development. New York, NY: Guilford Press; 2005.
  12. Belsky J, Vandell D, Burchinal M, Clarke-Stewart KA, McCartney K, Owen MT and The NICHD early child care research network. Are there long-term effects of early child care? Child Development 2007;78(2):681-701.
  13. Vandell DL, Belsky J, Burchinal M, Steinberg L, Vandergrift N, the NICHD Early Child Care Research Network. Do effects of early child care extend to age 15 Years? Child Development. In press.
  14. NICHD Early Child Care Research Network The effects of infant child care on infant-mother attachment security: Results of the NICHD study of early child care. Child Development 1997;68(5):860-879.
  15. Allhusen VD, Clarke-Stewart KA, Miner JL. Childcare in the United States: Characteristics and consequences. In: Melhuish E, Petrogiannis K, eds. Early childhood care and education: International perspectives. London, UK: Routledge; 2008:7-26.
  16. Love M, Harrison L, Sagi-Schwartz A, van Ijzendoorn MH, Ross C, Ungerer JA, Raikes H, Brady-Smith C, Boller K, Brooks-Gun JC, Jill K, Ellen E, Paulsell D, Chazen-Cohen R.Child care quality matters: How conclusions may yary with context.Child Development 2003;74(4):1021-1033.
  17. NICHD Early Child Care Research Network The effects of infant child care on infant-mother attachment security: Results of the NICHD study of early child care. Child Development 1997;68(5):876.
  18. NICHD Early Child Care Research Network. Child care and family predictors of preschool attachment and stability from infancy. Developmental Psychology 2001;37(6):847-862.
  19. Belsky J, Braungart J. Are insecure-avoidant infants with extensive day-care  experience less stressed by and more independent in the strange situation? Child Development 1991;62(3):567-571.
  20. Sagi A, Koren-Karie N, Gini M, Ziv Y, Joels T. Shedding further light on the effects of various types and quality of early child care on infant-mother attachment relationship: The Haifa study of early child care. Child Development 2002;73(4):1166.
  21. Harrison LJ, Ungerer JA. Maternal employment and infant-mother attachment security at 12 months postpartum. Developmental Psychology 2002;38(5):758-773.
  22. Belsky J, Bakermans-Kranenburg M, van Ijzendoorn M. For Better and for worse: Differential susceptibility to environmental influences. Current Directions in Psychological Science 2007;16(6):305-309.
  23. Pluess M, Belsky J. Differential susceptibility to rearing experience: the case of childcare. Journal of Child Psychology and Psychiatry 2009:50(4):396-404.

Para citar este artigo:

Belsky J. Experiência inicial em creche e segurança do apego mãe-bebê. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Bennett J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/cuidados-na-infancia-educacao-e-cuidados-na-primeira-infancia/segundo-especialistas/experiencia. Publicado: Outubro 2009 (Inglês). Consultado: 15/10/2019.