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O papel das escolas na socialização precoce das diferenças de gênero

1Rebecca Bigler, PhD, 2Amy Roberson Hayes, MA, 3Veronica Hamilton, BA

1,2University of Texas at Austin, EUA, 3University of California Santa Cruz, EUA

Dezembro 2013

Introdução

A questão de como surgem as diferenças entre os gêneros é um tema central para a psicologia. Os especialistas concordam que a natureza (ou seja, a biologia) e a criação (ou seja, o ambiente) agem juntas de formas reciprocamente causais e interativas para produzir as diferenças de gênero.1 Sabe-se que as experiências vividas por meninas e meninos nas escolas afetam diretamente ambos na diferenciação do gênero, proporcionando a prática de habilidades e reforços diferenciais;2 e, indiretamente, proporcionando estímulos que levam as crianças a socializar-se ativamente entre si de maneiras diferenciadas conforme o gênero.3

Do que se trata

As escolas são importantes contextos para a socialização de gênero, em parte devido ao fato de as crianças passarem longos períodos de tempo envolvidos com seus pares nesses ambientes.4 Em quase todos os traços psicológicos em relação aos quais os meninos e as meninas mais novos diferem (por exemplo, habilidade de leitura, preferências de jogos), a distribuição dos dois grupos se sobrepõe. As escolas podem ampliar ou reduzir as diferenças de gênero, proporcionando ambientes que promovam a similaridade em cada gênero e as diferenças entre os gêneros, ou o inverso (diversidade em cada gênero e similaridade entre os grupos).

Problemas

As escolas afetam a diferenciação dos gêneros através de duas fontes principais: professores e colegas. Os professores e os colegas influenciam diretamente na diferenciação dos gêneros, proporcionado aos meninos e meninas oportunidades de aprendizado e feedback diferentes. Os professores e os colegas são também fontes de aprendizado sobre o gênero. Os professores apresentam materiais curriculares que contêm comportamentos estereotipados de gênero, e os colegas exibem atitudes e comportamentos estereotipados de gênero. As crianças internalizam os estereótipos e preconceitos que, por sua vez, orientam suas próprias preferências e comportamentos.1

Contexto da pesquisa

Os psicólogos têm documentado como a escolaridade contribui para as diferenças de gêneros, através de (a) entrevistas com alunos e funcionários de escolas; (b) observações naturalistas dos professores e estudantes; e (c) estudos experimentais das condições da sala de aula. Os estudos observacionais permitem aos pesquisadores avaliar as diferenças, atitudes e comportamentos de gênero em uma variedade de tipos de escolas. Os estudos experimentais permitem a identificação de causas de diferenças de gênero relacionadas à escola.

Principais questões de estudo e resultados de pesquisas recentes

Como os professores contribuem para as diferenças de gêneros?

Muitos educadores endossam estereótipos culturais de gêneros (por exemplo, 'a matemática é mais fácil para os meninos do que para as meninas') e preconceitos (mostram preferências por indivíduos do mesmo gênero).5 Essas tendências podem ser explícitas (por exemplo, endossadas conscientemente) ou implícitas (mantidas de forma inconsciente) e influenciam os comportamentos dos professores na sala de aula.

Os estereótipos e preconceitos de gêneros dos professores dão forma ao seu comportamento na sala de aula expressando-se, pelo menos, de três maneiras: Primeiramente, muitas vezes, os professores exibem um comportamento estereotipado em relação ao gênero. As professoras, por exemplo, muitas vezes exibem comportamentos de “aversão à matemática”.6 Em segundo lugar, os professores, muitas vezes, mostram expectativas diferenciadas para meninos e meninas (por exemplo, criando centros de "moda" e de "construção" e aceitando, até mesmo facilitando, o uso diferenciado conforme o gênero).7 Em terceiro lugar, os professores promovem preconceitos de gênero entre as crianças, sinalizando o gênero como algo importante ao usá-lo para classificar e organizar os estudantes.8 Em um estudo, pediu-se aos professores para utilizar o gênero para classificar as crianças e organizar as atividades da sala de aula, através de recursos como, por exemplo, cumprimentar as crianças com um "Bom dia, meninos e meninas”, e pedindo às crianças que se organizassem em fila conforme o gênero. Outros professores ignoraram o gênero dos estudantes. As crianças mais jovens cujos professores utilizaram o gênero para classificação e em outras situações demonstraram níveis mais elevados de estereotipagem de gêneros do que seus colegas.9 A classificação e utilização do gênero por parte de professores de pré-escola aumentam em seus alunos a estereotipagem de gênero e a rejeição de companheiros de brincadeiras do gênero oposto.10

Como os pares contribuem para as diferenças de gênero?

Tal como os professores, os pares contribuem de diversas maneiras para a socialização das diferenças de gêneros. Ao entrar em uma escola, as crianças encontram um grande número de pares, muitos dos quais exibem um comportamento de gênero tradicional, criando e reforçando o conteúdo dos estereótipos de gênero.

As escolas são, além disso, caracterizadas pela segregação dos gêneros. Quando há muitos pares disponíveis, as crianças tendem a selecionar companheiros de brincadeiras de mesmo sexo.11 A segregação dos gêneros, por sua vez, afeta suas experiências de brincadeiras, fazendo com que elas passem mais tempo em brincadeiras estereotipadas.12 Mais ainda, a segregação dos gêneros prognostica a futura conformidade das crianças aos estereótipos dos gêneros. Após ter observado por seis meses crianças em idade pré-escolar, os pesquisadores observaram que, quanto o período de tempo que as crianças brinquem com pares do mesmo sexo, mais estereotipado se torna o próprio comportamento das crianças em relação às questões de gênero.11

Os pares contribuem também para a diferenciação dos gêneros ao ensinar estereótipos aos seus colegas de sala de aula (por exemplo, “cabelo curto é coisa de meninos, não de meninas"), e punindo com assédio verbal e agressão física aqueles que não se conformam aos estereótipos.7 É importante ressaltar que os programas de intervenção podem ensinar as crianças mais novas a reconhecer e enfrentar as observações sexistas de seus pares (por exemplo, "Quem disse que as meninas não podem jogar!").13

Lacunas de pesquisa

Muitos dos processos de socialização que conduzem a resultados diferenciados de gêneros, incluindo a segregação de gêneros, não são bem entendidos. Além disso, estudos mais aprofundados serão necessários para identificar formas eficazes de evitar e reduzir atitudes e comportamentos influenciados pelo gênero. Também serão necessários estudos futuros para documentar as experiências das crianças que não se conformam aos papéis tradicionais de gênero (por exemplo, as crianças com pais de mesmo sexo ou transexuais).

Conclusões

As escolas são contextos importantes para a socialização das atitudes e comportamentos de gêneros de crianças de pouca idade. Os professores e os colegas de classe moldam as atitudes relacionadas ao gênero das crianças e, por sua vez, as diferenças de gêneros na cognição e no comportamento. Infelizmente, os professores recebem relativamente pouco treinamento sobre como reconhecer e combater os estereótipos e preconceitos relacionados ao gênero –os seus próprios e os de terceiros– e, consequentemente, os professores, frequentemente, exibem, esperam, reforçam e criam o alicerce para a diferenciação de gênero entre seus alunos. Portanto, a maioria de escolas cria e mantém –ao invés de neutralizar– estereótipos, preconceitos e diferenças tradicionais de gênero.14 Entretanto, os educadores que adotam um compromisso com a igualdade de gêneros, promovendo a interação entre os gêneros, que expõem seus alunos a modelos que combatem os estereótipos e que discutem e ensinam como lutar contra a estereotipagem e o assédio relacionado ao gênero otimizam os resultados do desenvolvimento de seus alunos.

Implicações para pais, serviços e políticas

Os responsáveis pelas políticas educacionais devem resistir à criação de contextos educacionais segregados por gênero (por exemplo, escolas de um único sexo) e, de preferência, buscar expandir a promoção de atitudes e comportamentos igualitários de gêneros em escolas coeducacionais (mistas).15 Os professores necessitam de treinamento para reconhecer seus próprios preconceitos explícitos e implícitos e como esses preconceitos afetam seus comportamentos em sala de aula.  Além disso, os professores deveriam receber um treinamento específico para confrontar os preconceitos das crianças, de forma a evitar o policiamento dos pares da normatividade de gêneros.16 Os pais devem buscar para seus filhos ambientes educacionais onde os gêneros sejam integrados e que utilizem um currículo escolar que ensine diretamente a identificar e enfrentar os preconceitos e a desigualdade de gênero.17

Referências

  1. Blakemore JEO, Berenbaum, SA, Liben LS. Gender development. New York: Taylor & Francis ; 2009
  2. Leaper C, Bigler RS. Gender. In Underwood MK, Rosen LH, eds. Social development: Relationships in infancy, childhood, and adolescence. New York: Guildford Press; 2011
  3. Liben LS, Bigler RS. The developmental course of gender differentiation: Conceptualizing, measuring, and evaluating constructs and pathways. Monographs of the Society for Research in Child Development. 2002;67(2):vii-147.
  4. Klein S. Handbook for achieving sex equity through education. Baltimore, MD: The Johns Hopkins University Press; 1985.
  5. Iegle-Crumb C, Humphries M. Exploring bias in math teachers’ perceptions of students’ ability by gender and race/ethnicity. Gender & Society. 2012;26(2):290-322. doi:http://dx.doi.org/10.1177/0891243211434614.
  6. Beilock SL, Gunderson EA, Ramirez G, Levine SC. Female teachers’ math anxiety affects girls’ math achievement. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 2010;107(5):1860-1863. doi:http://dx.doi.org/10.1073/pnas.0910967107.
  7. Thorne B. Gender play: Girls and boys in school. New Jersey: Rutgers University Press; 1993.
  8. Bigler RS, Liben LS. A developmental intergroup theory of social stereotypes and prejudice. San Diego, CA: Elsevier Academic Press; 2006:39-89.
  9. Bigler RS. The role of classification skill in moderating environmental influences on children's gender stereotyping: A study of the functional use of gender in the classroom. Child Development. 1995;66:1072-1087.
  10. Hilliard LJ, Liben LS. Differing levels of gender salience in preschool classrooms: Effects on children's gender attitudes and intergroup bias. Child Development. 2010;81(6):1787-1798.
  11. Martin CL, Fabes RA. The stability and consequences of same-sex peer interactions. Developmental Psychology. 2001;37(3):431-446.
  12. Goble P, Martin CL, Hanish LD, Fabes RA. Children’s gender-typed activity choices across preschool social contexts. Sex Roles. 2012;67(7-8):435-451. doi: http://dx.doi.org/10.1007/s11199-012-0176-9.
  13. Lamb LM, Bigler RS, Liben LS, Green VA. Teaching children to confront peers’ sexist remarks: Implications for theories of gender development and educational practice. Sex Roles. 2009;61:361-382.
  14. Stromquist NP. The gender socialization process in schools: A cross-national comparison. Paper commissioned for the EFA Global Monitoring Report 2008, Education for All by 2015: Will We Make It? New York: UNESCO; 2007.
  15. Halpern D, Eliot L, Bigler RS, Fabes RA, Hanish LD, Hyde J, Liben LS, Martin CL. The pseudoscience of single-sex schooling. Science. 2011;333(6050):1706-1707.
  16. Bryan J. From the dress-up corner to the senior prom: Navigating gender and sexuality diversity in preK-12 schools. Lanham, MD: Rowman & Littlefield Education; 2012.
  17. Moss P. Not true! Gender doesn’t limit you!  Teaching Tolerance Magazine. 2007;32. Available at: http://www.tolerance.org/print/magazine/number-32-fall-2007/feature/not-....

Para citar este artigo:

Bigler R, Hayes AR, Hamilton V. O papel das escolas na socialização precoce das diferenças de gênero. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Martin CL, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/genero-socializacao-inicial/segundo-especialistas/o-papel-das-escolas-na-socializacao-precoce-das. Publicado: Dezembro 2013 (Inglês). Consultado: 10/04/2020.