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Idade de ingresso no ensino fundamental

Deborah J. Stipek, PhD

Stanford University School of Education, EUA

Junho 2003 (Inglês). Tradução: fevereiro 2012

Introdução

Em que idade a criança deve ingressar no ensino fundamental (EF)? As práticas variam amplamente de um país para outro e entre localidades dentro dos países, e mesmo entre famílias de  pequenas comunidades. A questão empírica está relacionada à idade em que a criança está emocional e intelectualmente pronta para participar dessa nova etapa do sistema educacional.

Do que se trata

Formuladores de políticas educacionais discutem a idade em que o ingresso no ensino fundamental deve ser permitido, e quando deve ser necessário. Muitos pais questionam se devem colocar seus filhos no EF assim que se tornam elegíveis, ou se devem mantê-los na educação infantil por mais um ano, para aumentar suas probabilidades de sucesso. Este relatório sintetiza as evidências dos efeitos da idade em que a criança ingressa no ensino fundamental sobre seu desenvolvimento social e econômico. 

Problemas

Identificar a idade adequada para matricular as crianças no ensino fundamental é uma tarefa complexa, uma vez que nem todas se desenvolvem no mesmo ritmo. São constatadas variações substanciais na “prontidão”, independentemente da idade em que é permitido o ingresso nesse ciclo da educação. A prontidão escolar varia também em função de experiências adequadas relacionadas ao ingresso na escola. Crianças que já tiveram ampla experiência em programas de educação grupais, como creches ou outros programas de educação infantil, talvez se sintam mais confortáveis e mais bem-preparadas para lidar com o ensino fundamental do que colegas da mesma idade com pouca experiência nesses contextos. Portanto, a idade será sempre um preditor frágil quando se trata de prontidão.

Contexto de pesquisa

Três estratégias vêm sendo utilizadas para avaliar os efeitos da idade de ingresso no ensino fundamental sobre o desempenho escolar da criança e, ocasionalmente, sobre os resultados socioemocionais ou motivacionais. Em primeiro lugar, estudos compararam resultados apresentados pelas crianças que tiveram seu ingresso nesse ciclo adiado por um ano e crianças que ingressaram assim que se tornaram elegíveis. Uma segunda estratégia metodológica consiste simplesmente em comparar crianças que nasceram em datas diferentes e que frequentam o mesmo ano escolar. Para qualquer ano escolar, a diferença entre as idades varia em até 12 meses. Presumindo que as datas de nascimento das crianças tenham sido distribuídas aleatoriamente, as associações entre essa variação natural na idade de ingresso e os resultados obtidos pelas crianças sugerem um efeito causado pela idade. Entre os estudos que utilizam essa metodologia, são poucos aqueles que avaliam as mudanças nos resultados educacionais ao longo do ano escolar. Portanto, tais estudos não podem ser utilizados para determinar se crianças mais velhas obtêm mais benefícios da escolarização – ou seja, apresentam maior desempenho – do que crianças mais novas. No entanto, esses estudos revelam se o desempenho de crianças mais velhas é melhor, em média, do que o de crianças mais novas. A terceira estratégia – e a mais poderosa – compara crianças que têm a mesma idade, mas frequentam níveis escolares diferentes, assim como crianças com um ano de diferença de idade, mas que estão na mesma série escolar. Essa estratégia fornece informações sobre os efeitos relativos de um ano adicional fora do ensino fundamental – maturidade e experiência geral fora da escola – versus um ano adicional de escolarização. 

Resultados de pesquisa

Ingresso adiado. É difícil interpretar estudos que analisam crianças que tiveram seu ingresso no ensino fundamental adiado por um ano, devido a uma seleção tendenciosa que ocorre quando os pais decidem manter as crianças fora desse ciclo por mais um ano. Não são consistentes as constatações de estudos que comparam crianças cujo ingresso no EF foi adiado com aquelas que começaram seus estudos assim que elegíveis. Quando são constatadas diferenças nos resultados entre os grupos, quaisquer que sejam esses resultados, as diferenças são modestas.

Diferenças de idade. As constatações de estudos que comparam crianças relativamente mais velhas com crianças mais novas para o ano escolar que frequentam também apresentam certas variações, embora os números sejam bastante claros. A maioria desses estudos relata diferenças nos anos iniciais do ensino fundamental que favorecem crianças mais velhas,2,3 e alguns relatam diferenças nos anos finais desse ciclo.2,4 No entanto, houve estudos que não constataram diferenças em parte ou na totalidade dos testes de desempenho escolar, mesmo na pré-escola.5,6 Na maioria dos estudos que constataram diferenças significativas de idade nas séries iniciais do ensino fundamental, essas diferenças foram mais modestas7,9 ou desapareceram nas séries finais desse ciclo de educação.6,10-13 

Em resumo, esses estudos sugerem pequenas vantagens para as crianças mais velhas em comparação com os colegas, mas que desaparecem com a idade. As constatações não sugerem que ser mais velho possa ser melhor em termos absolutos. Todos esses estudos utilizam a idade relativa como variável independente. Conforme a idade de ingresso estabelecida para cada estado ou comunidade, uma criança relativamente mais velha em um estudo poderia estar na faixa etária média em outro. Do mesmo modo, essas constatações não sugerem que crianças mais velhas aprendam mais do que crianças mais novas. De um modo geral, as diferenças de idade, quando constatadas, foram mais consistentes no início do ensino fundamental do que nas séries finais, o que indica que crianças mais novas realmente tendem a aprender mais, frequentemente alcançando seus colegas mais velhos após alguns anos na escola. Mesmo nos primeiros anos desse ciclo, a magnitude do efeito da idade aparentemente é pequena. A maioria dos estudos não compara idade com outros fatores que influenciam o rendimento escolar do estudante; no entanto, em um estudo que fez essa comparação, a proporção de risco de baixo desempenho atribuído a fatores étnicos e socioeconômicos foi 13 vezes mais alto do que aquela atribuída à idade.9

Escola versus tempo para amadurecer. Mais relevantes para a questão da idade de ingresso no ensino fundamental são os estudos que comparam crianças da mesma idade que estão em séries escolares diferentes com crianças que estão no mesmo nível escolar com aproximadamente um ano de diferença de idade. A primeira comparação fornece informações sobre o efeito de um ano de escolarização no EF, ao manter constante a idade. A segunda comparação fornece informações sobre o efeito da idade cronológica, mantendo constante o número de anos de escolarização nesse ciclo.

Constatações de estudos que utilizam esses métodos sugerem que a escolarização é a variável mais convincente na maioria das habilidades cognitivas avaliadas. Para a maioria dos estudos, em relação à matemática e a grande parte dos aspectos de leitura e alfabetização, as crianças que frequentavam o ensino fundamental ganhavam um ano em relação às crianças da mesma idade que não frequentavam esse ciclo de educação.14,20 As evidências sugerem também que, pelo menos nas faixas estudadas, a idade não foi um fator determinante do benefício que as crianças podem obter com um ano de escolarização no EF.18,19

Os estudos que comparam idades e efeitos da escolarização no ensino fundamental sugerem que a contribuição que intervenções educacionais nesse ciclo oferecem para as competências cognitivas gerais da criança é maior do que a contribuição da maturidade, e que crianças relativamente mais jovens se beneficiam da freqüência no EF tanto quanto as mais velhas. O efeito da freqüência a esse ciclo é consistente em termos absolutos e relativos. Por exemplo, no estudo de Crone e Whitehurst,20 um ano de escolarização explica 62% das melhorias em habilidades de alfabetização na pré-escola, e 81% na segunda série do ensino fundamental. Cahan e Cohen14 relatam que o efeito de um ano no EF é equivalente ao dobro do efeito de um ano de idade. 

Conclusão

As evidências sugerem que na faixa etária dos 5 aos 6 anos, em que a maioria das crianças ingressa no ciclo equivalente ao ensino fundamental nos Estados Unidos – onde foi realizada a maioria dos estudos mencionados –, a idade não é um preditor significativo do sucesso escolar final. Nos Estados Unidos, pesquisas longitudinais não apoiam as recentes tendências de aumentar a idade de ingresso no ensino fundamental – por exemplo, de 5 anos de idade completados até dezembro do ano de ingresso na educação infantil para 5 anos de idade completados em setembro, ou mesmo antes. Inversamente, a contribuição do tempo passado no EF para as habilidades escolares de crianças pequenas parece ser maior do que o tempo em que estão envolvidas em outras atividades fora desse ciclo. Pesquisas sobre creches e programas de educação na primeira infância também sugerem vantagens das instituições de educação infantil nos anos que precedem o ingresso no ensino fundamental.21 Portanto, é evidente que as crianças obtêm benefícios ao frequentar algum tipo de programa educacional desde pequenas.

Muitos especialistas em primeira infância chamaram atenção para a questão da própria noção de “prontidão escolar”. Obviamente, todas as crianças em todas as idades estão “prontas para ler”. A questão relevante não é se a criança está pronta ou não para aprender, mas sim o que a criança está pronta para aprender. Mesmo a “prontidão para leitura” – um conceito com uma longa história no desenvolvimento da primeira infância – tem pouco significado no contexto das conceituações atuais de letramento emergente, que inclui conhecimentos gerais, habilidades de linguagem e vocabulário, e mesmo os primeiros rabiscos. De acordo com especialistas da atualidade, o letramento tem início muito antes da criança ingressar na escola.21,22 Os conceitos atuais de matemática também englobam a noção de desenvolvimento gradual que tem início na tenra idade. Trabalhos recentes sobre o desenvolvimento da compreensão matemática revelam que a compreensão de conceitos numéricos básicos é observada e pode ser promovida em crianças pequenas.23 As questões de política educacional relevantes referem-se a como dar acesso a programas educacionais para todas as crianças pequenas, e a como garantir que tais programas sejam adequados às habilidades sociais escolares específicas das crianças que os frequentam.

Referências

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Para citar este artigo:

StipekDJ. Idade de ingresso no ensino fundamental. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/transicao-escolar/segundo-especialistas/idade-de-ingresso-no-ensino-fundamental. Publicado: Junho 2003 (Inglês). Consultado: 17/08/2019.