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Apoiando crianças pequenas e suas famílias na redução da agressividade. Comentários sobre Webster-Stratton, Domitrovich e Greenberg, e Lochman

Debra J. Pepler, PhD

LaMarsh Centre for Research on Violence and Conflict Resolution, Canadá

Junho 2003 (Inglês). Tradução: abril 2010

Introdução

Questões sobre agressividade na infância mereceram destaque especial ao longo das duas últimas décadas. Com as pesquisas iniciais de Patterson e seus colegas1 baseadas em observações, aprendemos que, para algumas crianças, os padrões de comportamento agressivo não se alteram com o desenvolvimento da linguagem e de habilidades sociais. Crianças que demonstram altos níveis de agressividade na primeira infância correm o risco de ter problemas continuados na infância e na adolescência.2 O desafio, portanto, é descobrir formas de apoiar essas crianças e suas famílias visando à redução da agressividade e à promoção de capacidades sociais positivas. Carolyn Webster-Stratton, Mark Greenberg e John Lochman estão entre os principais pesquisadores na área de prevenção e tratamento da agressividade na infância. Seus programas para crianças agressivas e suas rigorosas avaliações são exemplares em termos de fundamentação teórica e empírica. Nestes textos, esses autores apresentam os destaques da pesquisa sobre a natureza da agressividade entre crianças pequenas e as estratégias para apoiar um desenvolvimento adequado. 

Pesquisa e conclusões

Em sua visão geral da agressividade em meio a crianças pequenas, Webster-Stratton destaca a importância de uma perspectiva desenvolvimentista e sistêmica para compreender comportamentos agressivos e promover intervenções para evitá-los. Ao longo de seu comentário, a autora acena com a perspectiva da criança em desenvolvimento. Uma vez que os problemas com comportamentos agressivos se cristalizam progressivamente com a idade, o momento ideal para a intervenção é a primeira infância. Além disso, à medida que se amplia o mundo social da criança, suas interações com terceiros envolvem riscos adicionais de consolidação de padrões de comportamento agressivo. Portanto, o foco da intervenção, que inicialmente é o contexto familiar, amplia-se para incluir os contextos da escola e de colegas. Webster-Stratton atendeu aos frequentes apelos por intervenções empiricamente validadas. Suas intervenções estão entre as poucas que foram avaliadas com rigor e que se mostraram eficazes para a redução de problemas de comportamento agressivo em crianças pequenas.

Domitrovich e Greenberg adotam a trilha desenvolvimentista aberta por Webster-Stratton em suas perspectivas de intervenções preventivas para reduzir agressividade em crianças pequenas. Destacam a gravidade dos problemas de comportamento agressivo que, se não forem tratados, podem alicerçar resultados deficientes na infância, adolescência e mesmo na vida adulta. Domitrovich e Greenberg destacam a importância da prevenção precoce para reduzir riscos, explicando que, com o desenvolvimento da criança, os fatores de risco relacionados a seus problemas de comportamento tendem a se acumular, levando as crianças afetadas a um caminho não adaptativo. Estes autores destacam também a importância das interações das crianças em sua transição para a escola e para grupos de colegas. Suas perspectivas a respeito de pesquisas para intervenção são semelhantes às de Webster-Stratton e Lochman, uma vez que identificam as intervenções focalizadas nos pais como as mais eficazes para a redução dos problemas de comportamento de crianças pequenas. Com o desenvolvimento, o foco das intervenções preventivas deve expandir-se para abranger as competências sociais e de resolução de conflitos das crianças, além do contexto de sala de aula. Domitrovich e Greenberg reiteram o apelo de Webster-Stratton por mais intervenções nos primeiros anos, quando são maiores a maleabilidade dos problemas de comportamento da criança e o potencial para mudanças.

O artigo de Lochman completa o quadro, focalizando programas eficazes para crianças pequenas com problemas de comportamento agressivo. Partindo de pesquisa longitudinal sobre resultados negativos de crianças agressivas, Lochman destaca a importância de intervenções, tendo em vista os altos custos da agressão infantil para as próprias crianças, para suas famílias e para a sociedade como um todo. Lochman observa que essas intervenções devem ocorrer precocemente na vida da criança, uma vez que, com a idade, agregam-se  fatores de risco pessoais e familiares associados à agressividade continuada. Lochman apresenta também uma perspectiva sistêmica dos problemas de agressividade ao se referir à pesquisa sobre o efeito cascata, quando riscos de um estágio desencadeiam riscos em um estágio posterior. Por exemplo, uma criança agressiva e carente de competências sociais será incapaz de manter relacionamentos positivos com seus colegas e mesmo com seus professores. Essa falta de capacidade para relacionamentos acarreta experiências de rejeição em contextos sociais essenciais. Lochman fornece diretrizes para a consideração de intervenções por meio do cruzamento de perspectivas desenvolvimentistas e sistêmicas. Em diferentes estágios de desenvolvimento, diferentes competências sociais podem ser focalizadas dentro dos contextos sociais em expansão. Com relação aos anos iniciais da primeira infância, Lochman cita estudos sobre a eficácia de programas de visita domiciliar que promovem interações positivas entre pais e filhos e de cuidados parentais. Com relação ao período pré-escolar, destaca a eficácia das intervenções de Webster-Stratton com pais, e das intervenções de Eyberg com pais e crianças. Uma vez que o relacionamento entre os pais e a criança é o contexto primário para a socialização nos primeiros anos, a otimização da capacidade de interações positivas e não hostis entre ambos os pais e a criança deve ser um componente importante de programas eficazes para crianças pequenas. Lochman conclui que ainda é necessário um número muito maior de pesquisas sobre intervenções com crianças pequenas agressivas, e que essas intervenções devem ser ajustadas às tarefas críticas de desenvolvimento e aos contextos sociais dos vários estágios do desenvolvimento inicial.  

Implicações para serviços

Em conjunto, esses três artigos fornecem diretrizes essenciais para os profissionais que oferecem ou planejam serviços de atendimento para crianças pequenas e suas famílias. Primeiramente, a agressividade de crianças pequenas não é algo que elas simplesmente superem com o tempo: é uma situação que se agrava e que coloca as crianças e todos à sua volta em risco de sérios problemas ao longo de toda a infância, a adolescência e a vida adulta. Portanto, a intervenção é essencial para afastar crianças agressivas de uma trajetória problemática. Em segundo lugar, intervenções precoces são as mais promissoras, porque o comportamento das crianças e de seus pais é mais maleável nos primeiros anos. Portanto, o foco nos esforços de intervenção deve expandir-se para incluir um esforço direcionado à promoção de interações sociais positivas na primeira infância. Em terceiro lugar, focalizar a criança é necessário, mas não suficiente. Nos primeiros anos de vida, as intervenções mais eficazes sustentam a capacidade dos pais de apoiar o desenvolvimento saudável da criança. À medida que seu mundo social se expande, a criança entra em contextos sociais novos, mais complexos e exigentes, em escolas e grupos de colegas. Para a criança socialmente competente, esses relacionamentos podem promover desenvolvimento social e competências; entretanto, para a criança agressiva, representam fatores de risco adicionais, uma vez que seus professores e seus colegas acabam por reagir à dificuldade de sustentar um relacionamento com crianças agressivas, rejeitando-as. Assim sendo, os problemas de interação que as crianças agressivas experimentam com seus pais em casa refletem-se em seus relacionamentos em contextos sociais mais amplos. Portanto, à medida que a criança se desenvolve, o foco de intervenções deve ser ampliado, passando da relação entre os pais e a criança para os contextos da escola e dos colegas. Sem mudanças nesses contextos relevantes em termos de desenvolvimento, a dinâmica que provoca respostas agressivas da criança persistirá. Além disso, não podemos admitir que intervenções em um único estágio e um único contexto sejam suficientes. Crianças agressivas podem demandar apoio continuado enquanto negociam novos desafios de desenvolvimento em contextos sociais mutantes.       

Apesar das diretrizes convincentes que surgem das pesquisas discutidas nesses três artigos, há ainda muito a aprender sobre intervenções para apoiar o desenvolvimento ideal de crianças agressivas. As crianças agressivas não são todas iguais, e os fatores de risco associados às suas trajetórias conturbadas variam consideravelmente. Ao avançar em nossos esforços para apoiar crianças agressivas e suas famílias, precisaremos reconhecer não apenas as semelhanças entre os riscos e trajetórias de desenvolvimento, mas também as diferenças. Intervenções ajustadas às necessidades específicas de crianças agressivas e suas famílias terão mais sucesso para mudar padrões de interação e para promover capacidade de relacionamento. Grande parte da pesquisa empiricamente validada sobre intervenções com crianças agressivas foi conduzida com meninos, porque seus problemas de comportamento agressivo são mais prevalentes e frequentemente mais evidentes do que os das meninas. Entretanto, a permanência dos problemas de comportamento agressivo das meninas é semelhante à dos meninos, e os problemas que meninas agressivas enfrentam na adolescência e na vida adulta são igualmente preocupantes.3-5 Ainda está por ser verificado se intervenções padronizadas para reduzir problemas de comportamento agressivo são igualmente eficazes para meninos e meninas. Entre outras coisas, deve-se notar que relacionamentos são altamente relevantes para meninas, e podem constituir um foco importante para intervenções planejadas para meninas agressivas.6

Na década passada, fizemos avanços substanciais na compreensão do desenvolvimento e de intervenções eficazes para crianças agressivas. Neste momento, o desafio é identificar crianças e famílias que estão em risco antes que os problemas de comportamento se instalem, e antes que os sistemas da esfera de atividades das crianças comecem a marginalizar aquelas que apresentam problemas de comportamento agressivo. Se negligenciarmos essas crianças enquanto são pequenas, quando o desafio de educá-las recai apenas sobre os ombros de seus pais, perderemos a oportunidade de promover sua capacidade de se relacionar com outros na escola, em seus grupos de colegas, em seu local de trabalho, nas relações amorosas, e em suas próprias famílias. O custo da intervenção precoce parece mínimo se comparado aos imensos custos de contenção e reparação associados ao desenvolvimento conturbado. Com a intervenção precoce, temos a esperança de encaminhar essas crianças problemáticas para uma trajetória favorável.  

Referências

  1. Patterson GR. Coercive family process. Eugene, Ore: Castalia Publishing; 1982. 
  2. Campbell SB, Shaw DS, Gilliom M. Early externalizing behavior problems: Toddlers and preschoolers at risk for later maladjustment. Development and Psychopathology 2000;12(3):467-488. 
  3. Huesmann LR, Eron LD, Lefkowitz MM, Walder LO. Stability of aggression over time and generations. Developmental Psychology 1984;20(6):1120-1134. 
  4. Moffitt TE, Caspi A, Rutter M, Silva P. Sex differences in antisocial behaviour: Conduct disorder, delinquency, and violence in the Dunedin Longitudinal Study. Cambridge: Cambridge University Press; 2001. 
  5. Robins LN. The consequences of conduct disorder in girls. In: Olweus D, Block J, Radke-Yarrow M, eds. Development of antisocial and prosocial behavior: Research, theories, and issues. Orlando, FL: Academic Press; 1986:385-414. 
  6. Walsh MM, Pepler DJ, Levene KS. A model intervention for girls with disruptive behaviour problems: The Earlscourt Girls Connection. Canadian Journal of Counselling 2002;36(4):297-311. 

Para citar este artigo:

Pepler DJ. Apoiando crianças pequenas e suas famílias na redução da agressividade. Comentários sobre Webster-Stratton, Domitrovich e Greenberg, e Lochman. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Tremblay RE, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/agressividade-agressao/segundo-especialistas/apoiando-criancas-pequenas-e-suas-familias-na-reducao. Publicado: Junho 2003 (Inglês). Consultado: 16/02/2020.