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Apego na primeira infância: comentários sobre van IJzendoorn, e Grossmann e Grossmann

Greg Moran, PhD

University of Western Ontario, Canadá

Julho 2005 (Inglês). Tradução: julho 2011

Introdução

A teoria e a pesquisa sobre apego ocuparam um lugar central no estudo do desenvolvimento socioafetivo humano. Com base nos fundamentos conceituais de Bowlby1 e em sua tradução para estudos empíricos, por Ainsworth2, pesquisadores de todo o mundo utilizaram o apego como veículo para aumentar nossa compreensão sobre as consequências de longo prazo da primeira relação do bebê humano e sobre os fatores relacionados à infància da mãe que são relevantes para moldar essa relação. 

Karin e Klaus Grossman e Marinus van IJzendoorn são representantes eminentes dos pesquisadores que se basearam no legado de Bowlby e Ainsworth. Em seus trabalhos, assumiram abordagens diferentes, porém complementares. van IJzendoorn oferece uma revisão objetiva e bem fundamentada da teoria do apego e uma descrição dos padrões de relações de apego.3 Sua descrição de resultados de pesquisa coloca em questão se as variações no apego são devidas à experiência social inicial ou a fatores genéticos, inclusive temperamento. Cita análises recentes da genética comportamental sobre apego em gêmeos que confirmam de maneira convincente o lado da experiência nesse debate. Esta evidência é particularmente digna de nota, uma vez que contrasta acentuadamente com os resultados de estudos paralelos sobre as origens de muitos traços de comportamento e de personalidade, e de atitudes, para os quais têm sido encontradas evidências de influência genética substancial.4

Os Grossman, por outro lado, assumem uma abordagem mais pessoal, começando por uma apresentação que enfatiza o papel do apego, tanto no tempo evolucionário quanto no tempo do desenvolvimento, dando à criança a possibilidade de uma aprendizagem social com o cuidador – uma oportunidade de adquirir as competências sociais e emocionais necessárias para sua adaptação à sociedade e à cultura em que nasceu. Sua revisão de pesquisas inclui partes de dois estudos longitudinais extensos realizados por eles e seus colegas na Alemanha. Esses resultados enfatizam tanto a continuidade ao longo da vida quanto o potencial de mudança, para melhor ou para pior, em consequência de flutuações substanciais no ambiente social.

Pesquisas e conclusões

Um elemento crítico das duas contribuições é a ênfase correta que atribuem ao papel desempenhado pelo cuidador na determinação da qualidade das relações de apego e, portanto, na modelagem do desenvolvimento socioemocional futuro da criança. Além dos resultados dos estudos com gêmeos, van IJzendoorn cita também evidências experimentais do papel crítico do cuidador no desenvolvimento, apresentando resultados de estudos de intervenções que obtiveram sucesso na melhoria da qualidade da relação de apego por meio de manipulações que promovem a sensibilidade e a responsividade da mãe.3

Nenhum dos autores comenta extensivamente as pesquisas sobre conseqüências para o desenvolvimento das diferenças entre relações iniciais de apego. Um amplo conjunto de pesquisas, ao longo das últimas duas décadas e além delas, estabeleceu uma associação clara entre padrões seguros de apego nos primeiros meses de vida e na primeira infância e adaptação social posterior.5 O apego seguro foi associado a melhores resultados de desenvolvimento do que padrões não seguros de apego em áreas que incluem autoconfiança, autoeficácia, empatia e competência social na primeira infância, na idade escolar e na adolescência. Bebês com apegos não seguros revelam-se mais propensos a problemas posteriores de adaptação, que incluem distúrbios de conduta, agressão, depressão e comportamento antissocial. É importante notar, no entanto, que grande parte da pesquisa que relaciona apego a resultados posteriores de desenvolvimento foi realizada antes da utilização da categoria apego desorganizado6 – um padrão de apego que foi fortemente associado a resultados de desenvolvimento extremamente mal adaptados. Portanto, um número desconhecido de relações desorganizadas foi incluído nessas análises dentro dos grupos de apego seguro e não seguro. São necessárias novas pesquisas para esclarecer quais das associações previamente atribuídas a padrões não seguros, caso exista alguma, são de fato decorrentes de desorganização.  

Implicações para políticas e serviços sociais

A ênfase dos Grossman na qualidade do apego inicial como capaz de predizer adaptação social e emocional posterior, e também sobre descontinuidades nesse processo, reflete um aspecto fundamental do papel do apego no desenvolvimento tal como conceituado originalmente por Bowlby. Isto é, o apego influencia o desenvolvimento de forma probabilística, e não determinista. Essa noção é particularmente importante para aqueles que esperam utilizar uma compreensão de apego para desenvolver serviços ou implementar políticas sociais. Resumidamente, acredita-se que, mais do que determinar diretamente um resultado adaptativo ou desadaptado, as experiências iniciais de apego predispõem o bebê para agir e reagir de uma forma que serve para moldar experiências sociais subsequentes, e assim encaminham a criança para uma trajetória de desenvolvimento e não para outra. O resultado efetivo do desenvolvimento, no entanto, continua a ser produto de experiências continuadas, ainda que essas experiências sejam, em parte, tornadas mais ou menos prováveis pela qualidade da relação de apego inicial. A trajetória pode ser modificada por experiências sociais subsequentes, incluindo intervenções deliberadas. 

Bowlby apreendeu as implicações mais importantes da teoria e da pesquisa sobre apego em termos de políticas e serviços sociais em um relatório escrito há mais de meio século:

“Tal como as crianças são absolutamente dependentes de seus pais para seu sustento,assim também em todas as comunidades, exceto as mais primitvas, os pais, e especialmente as mães, dependem da sociedade mais ampla para seu provimento econômico. Se uma comunidade valoriza as crianças, deve cuidar de seus pais”.

John Bowlby, 1951, p. 84, WHO Report citado por Inge Bretherton (1992).

Em certa medida, o comentário de Bowlby reflete a linguagem e a cultura da época, mas transmite uma mensagem precisa que continua urgente. A pesquisa sobre apego nas três últimas décadas confirmou sua hipótese central de que sensibilidade e responsividade do cuidador são instrumentais na modelagem da primeira relação do bebê humano. Demonstrou-se que essa relação, por sua vez, é um poderoso preditor de importantes resultados sociais posteriores. Nossos esforços para garantir que esses resultados sejam adaptativos, e não desadaptado, tanto para a sociedade como para o indivíduo precisam, portanto, focalizar nosso apoio ao cuidador do bebê, mais frequentemente a mãe. Na sociedade atual, isso se traduz mais urgentemente, no nível de políticas, em assegurar que famílias em situação de risco de desenvolvimento, entre as quais as de mães solteiras, recebam os recursos sociais e financeiros necessários para que ofereçam a seus filhos um ambiente social de apoio – pré-requisito para uma relação de apego saudável. Como sugeriu van IJzendoorn, em muitos casos isso significa o provimento de creches de boa qualidade para essas famílias. Aos provedores de serviços, a teoria e pesquisa sobre apego pedem um foco nas interações sociais iniciais e no mediador primário dessas interações – a mãe. Padrões de comportamento de apego e representações mentais tornam-se menos flexíveis e menos suscetíveis de mudança ao longo do desenvolvimento. O investimento por meio de políticas sociais e de prestação de serviços nos primeiros anos de vida é, portanto, uma abordagem mais eficiente e mais factível do que intervenções reativas, postergadas até que se tornem aparentes as consequências negativas de experiências iniciais inadequadas.  

Referências

  1. Bowlby J. Attachment. London, England: Hogarth Press; 1969. Attachment and loss; vol 1.
  2. Ainsworth MS, Blehar MC, Waters E, Wall S. Patterns of attachment: A psychological study of the strange situation. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum; 1978.
  3. Bakermans-Kranenburg MJ, van IJzendoorn MH, Juffer F. Less is more: Meta-analyses of sensitivity and attachment interventions in early childhood. Psychological Bulletin 2003;129(2):195-215.
  4. McGuffin P, Riley B, Plomin R. Genomics and behavior: Toward behavioral genomics. Science 2001;291(5507):1232-1249.
  5. Carlson EA, Sampson MC, Sroufe LA. Implications of attachment theory and research for developmental-behavioral pediatrics. Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics 2003;24(5):364-379.
  6. Main M, Solomon J. Procedures for identifying infants as disorganized/disoriented during the Ainsworth Strange Situation. In: Greenberg MT, Cicchetti D, Cummings EM, eds. Attachment in the preschool years: Theory, research, and intervention. Chicago, Ill: University of Chicago Press; 1990:121-160.
  7. Bretherton I. The origins of attachment theory: John Bowlby and Mary Ainsworth. Developmental Psychology 1992;28(5):759-775.

Para citar este artigo:

Moran G. Apego na primeira infância: comentários sobre van IJzendoorn, e Grossmann e Grossmann . Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. van IJzendoorn MH, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/apego/segundo-especialistas/apego-na-primeira-infancia-comentarios-sobre-van-ijzendoorn-e-grossmann. Publicado: Julho 2005 (Inglês). Consultado: 25/08/2019.