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Qual é sua importância?

Todos os bebês precisam de atenção, consolo e sensação de segurança. Bebês que se sentem ameaçados recorrem a seu cuidador em busca de proteção e consolo; ao longo do tempo, a resposta do cuidador ajuda a moldar a relação em um padrão de interação. 

A teoria do apego de Bowlby descreve a importância da relação inicial que se desenvolve entre o bebê e seu cuidador principal. Esse vínculo afetivo, denominado apego, oferece as bases para o desenvolvimento social, emocional e até mesmo cognitivo. Além disso, as relações de apego continuam a influenciar ideias, sentimentos, motivos e relações íntimas ao longo da vida.

As pesquisas mostram que um apego seguro é um fator de proteção que otimiza os resultados do desenvolvimento, ao passo que crianças com apego inseguro são mais propensas a problemas sociais e de desajustamento; e crianças com apego desorganizado correm maior risco de psicopatologia e resultados insatisfatórios. 

O que sabemos?

Para avaliar a qualidade do apego na primeira infância, os pesquisadores utilizam frequentemente um método padronizado de separação e reencontro denominado Procedimento da Situação Estranha, no qual as reações dos bebês ao se reencontrarem com seus cuidadores, depois de uma separação breve, são utilizadas para avaliar o grau de confiança que as crianças têm na acessibilidade de sua figura de apego.

Há quatro padrões de apego criança-cuidador. Os bebês que procuram ativamente a proximidade com seu cuidador no momento do reencontro, comunicam abertamente seus sentimentos de estresse e de ansiedade e depois retomam prontamente um comportamento exploratório são classificados como seguros. Supõe-se que este tipo de apego se desenvolve quando o cuidador responde consistentemente e com sensibilidade às aflições da criança. Os bebês que ignoram ou evitam o cuidador no momento do reencontro são classificados como inseguros-evitativo. Acredita-se que esse tipo de apego se desenvolve quando o cuidador responde consistentemente com rejeição à aflição da criança. 

Os bebês que combinam uma forte manutenção de contato com resistência ao contato ou que se mostram inconsoláveis e incapazes de voltar a explorar o ambiente são classificados como inseguros-ambivalentes. Este tipo desenvolve-se quando o cuidador responde de forma inconsistente e imprevisível. Por fim, alguns bebês não parecem ser capazes de recorrer a um padrão de apego único e organizado. Isto é denominado apego desorganizado, e supõe-se que se desenvolve quando o cuidador apresenta, na presença da criança, comportamentos incomuns e, em última instância, amedrontadores. 

Em uma população normativa, registram-se cerca de 62% de bebês classificados como seguros, 15% como inseguros-evitativos, 8% como inseguros-ambivalentes e 15% como desorganizados.1

O apego seguro é considerado um fator de proteção, tendo sido associado a melhores resultados de desenvolvimento em áreas como autoconfiança, autoeficácia, empatia e competência social em crianças começando a andar, na idade escolar e na adolescência. Verificou-se que bebês com apego inseguro corriam risco de apresentar posteriormente problemas de adaptação, tais como distúrbios de conduta, agressão, depressão e comportamento antissocial.

Crianças com apego desorganizado correm maior risco de desenvolver psicopatologia. Há uma alta incidência de desorganização de apego em crianças que foram vítimas de maus-tratos. A desorganização em bebês foi associada a um conjunto de comportamentos parentais, que incluem erros na comunicação afetiva (tais como respostas contraditórias a sinais dados pela criança), retraimento dos pais, respostas negativas-intrusivas, respostas confusas com relação aos papéis, respostas desorientadas e comportamentos amendrontados ou amendrontadores.

Eventos de vida negativos (tais como divórcio) podem comprometer a segurança do apego, mas diferenças na segurança do apego resultam basicamente de interações das crianças com seu ambiente social durante os primeiros anos de vida. Portanto, a maternagem desempenha um papel crucial. Por esse motivo, intervenções preventivas na primeira infância têm imenso potencial para alterar trajetórias de comportamento e de desenvolvimento, especialmente em famílias de alto risco.

O que pode ser feito? 

Para melhorar os resultados do desenvolvimento de bebês e crianças a longo prazo, os programas de intervenção e prevenção deveriam focalizar a promoção de apego seguro pais-filhos. Intervenções baseadas no apego frequentemente focalizam questões específicas, como sensibilidade, comportamentos e estado mental dos pais. No entanto, o foco exclusivo em capacitação comportamental de sensibilidade parental, em vez de um foco em sensibilidade e apoio, ou um foco em sensibilidade, apoio e representações internas (por exemplo, terapias individuais) –, o uso de feedback por meio de vídeo e intervenções breves (de cinco a 16 sessões) orientadas para a sensibilidade dos pais parecem ser as formas mais eficazes na promoção de apego seguro e têm dado resultados positivos também com pais adotivos. Além disso, o local da intervenção (em casa ou no consultório) e a presença de fatores múltiplos de risco não afetaram a eficácia, mas intervenções realizadas com pacientes/clientes encaminhados para atendimento clínico e aquelas que incluíram o pai mostraram-se mais eficazes do que intervenções que não apresentavam essas características. 

Algumas poucas intervenções focalizadas em sensibilidade tiveram certo impacto também sobre o apego desorganizado. No entanto, acredita-se que intervenções focalizadas em comportamentos parentais atípicos (por exemplo, não conseguir manter a criança segura, não conseguir consolar uma criança aflita, rir quando a criança está sofrendo, solicitar atenção e reasseguramento por parte da criança ou ameaçar feri-la) têm maior probabilidade de reduzir o apego desorganizado. Até o momento, as intervenções baseadas em apego focalizaram principalmente os precursores do apego inseguro, e não do apego desorganizado. Portanto, estudos futuros devem avaliar intervenções quanto ao seu potencial de prevenção do apego desorganizado. 

Atualmente, a evidência das pesquisas relativas à promoção da relação de apego favorece intervenções breves e altamente focalizadas, a partir dos 6 meses de idade. No entanto, podem ser necessárias intervenções mais abrangentes e de longo prazo, ou outros tipos de intervenção para algumas famílias de alto risco. Há uma série de questões importantes que ainda devem ser investigadas para que seja possível tirar conclusões definitivas sobre a melhor forma de promover o apego seguro em diferentes tipos de famílias. Essas questões incluem a durabilidade dos efeitos das intervenções, os mecanismos que contribuem para sua eficácia, e sua efetividade em cenários do mundo real (em contraste com ensaios clínicos) para diferentes tipos de famílias. 

Apesar disso, é evidente que os provedores de serviços devem ser capacitados na utilização de técnicas baseadas no apego que têm levado a resultados eficazes. Programas de intervenção baseados em apego devem ser incorporados aos programas vigentes de visita domiciliar e de educação de pais, e as políticas devem identificar as formas pelas quais as famílias podem ter acesso à maternagem consistente e a apoio psicológico no decorrer da vida de seus filhos. Atualmente, análises econômicas indicam claramente uma boa relação custo-benefício, tanto em termos financeiros quanto de sofrimento humano, do provimento de serviços às famílias com bebês antes que se desenvolva uma patologia. 

Referência

  1. van IJzendoorn MH, Schuengel C, Bakermans-Kranenburg MJ. Disorganized attachment in early childhood: Meta-analysis of precursors, concomitants, and sequelae. Development and Psychopathology 1999;11(2):225–249. 

Para citar este artigo:

Apego: Síntese. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. van IJzendoorn MH, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/apego/sintese. Atualizada: Julho 2011. Consultado: 21/09/2018.