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Avaliando programas de intervenção na primeira infância. Comentários sobre Kitzman, Knitzer, e Lipman e Boyle

Pamela Kato Klebanov, PhD

National Center for Children and Families Teachers College, Columbia University, EUA

Janeiro 2005 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Nos últimos anos, diversos analistas avaliaram os efeitos de programas de educação na primeira infância (EPI).1-6 A maior parte das pesquisas focalizou os ganhos em desenvolvimento cognitivo, e não em desenvolvimento do comportamento.6 Em conjunto, esses resultados sugerem que programas de EPI baseados em instituições e iniciados nos primeiros anos de vida resultaram nas melhorias mais consistentes nos resultados cognitivos e comportamentais das crianças.1,2,5

Estes artigos examinam os efeitos de programas de intervenção na primeira infância sobre o desenvolvimento social e emocional de crianças pequenas de famílias de baixa renda. Knitzer oferece uma revisão geral das intervenções, Kitzman focaliza os resultados de programas de visitas domiciliares, e Lipman e Boyle focalizam obstáculos aos serviços para crianças canadenses. Em conjunto, esses artigos destacam a necessidade de focalizar os resultados comportamentais e emocionais de crianças pobres, de avaliar com maior rigor a intensidade dos programas, de dar atenção ao estudo de problemas relacionados ao abandono dos programas, e de acompanhar as crianças no longo prazo. 

Pesquisas e conclusões

Esses artigos salientam a diversidade das intervenções realizadas nas últimas décadas. Chama a atenção o fato de reduções nos problemas comportamentais serem geralmente encontradas nas diferentes modalidades de programas. A redução de problemas comportamentais na infância dura pelo menos seis meses a um ano depois da intervenção. Embora a maioria dos estudos tenha focalizado efeitos no curto prazo, acredito que há pesquisas notórias que envolvem efeitos no longo prazo, tais como o projeto High/Scope Perry Preschool, que encontrou efeitos sobre a delinquência aos 14 anos de idade e menos envolvimento com o sistema de justiça criminal aos 19 e aos 27 anos.5,7 Dados retrospectivos do Head Start também mostram que crianças que frequentaram este programa foram menos propensas a ser acusadas de crimes na idade adulta.8 

Em segundo lugar, quando realizados como medida isolada, programas de visitas domiciliares demonstraram efeitos menos consistentes para as crianças. Estes programas tendem a ser mais orientados para os pais e, portanto, tiveram mais sucesso na modificação do comportamento parental. Mas há exceções. O Programa de Visitas Domiciliares por Enfermeiras (Nurse Family Partnership) gerou efeitos não só para mães, mas também para comportamentos de crianças acima de 10 anos de idade.9 Entretanto, a combinação de visitas domiciliares com cuidados baseados em instituições teve mais sucesso na redução de problemas comportamentais das crianças.10,11

Em terceiro lugar, embora as intervenções tenham tido efeito sobre o comportamento parental, Knitzer, particularmente, verifica que não houve mudanças correspondentes na depressão materna. Eu acredito, ao contrário, que os estudos demonstraram efeitos sobre a depressão materna. Quando são examinados os resultados de programas que utilizaram atribuição aleatória a grupos e ofereceram serviços orientados para a família por meio de visita domiciliar, as mães que receberam o tratamento relataram menos sentimento depressivo.9,12-16 A meu ver, o que merece exame é se características maternas como a depressão medeiam a associação entre o tratamento e os problemas comportamentais das crianças. Até o momento, poucos estudos examinaram diretamente essa questão. 16-19

Embora haja consenso de que as famílias expostas a riscos múltiplos são as que têm maior probabilidade de se beneficiar de programas de intervenção, essa população não é atendida com frequência. A maior parte do trabalho consistiu em intervenções gerais que promovem o bem-estar da criança e da família. No entanto, mesmo que sejam atendidas, famílias em situação de risco têm maior probabilidade de abandonar o programa e menos propensão a participar dele. Como apontado por Lipman e Boyle, a disponibilidade de serviços em vizinhanças carentes, a acessibilidade aos serviços e os obstáculos psicológicos a eles constituem desafios para a pesquisa. Por fim, uma questão que se reflete nesses artigos e na literatura de pesquisa refere-se à possibilidade de uma intervenção ser eficaz diante de riscos familiares múltiplos, e de que maneira isso se dá.20 Os autores apontam, no entanto, o fato de que programas multidimensionais têm mais sucesso do que programas unidimensionais. 

Implicações para desenvolvimento e políticas

Estas revisões sinalizam a necessidade de pesquisas coerentes. A diversidade de intervenções realizadas dificulta qualquer conclusão sólida sobre o que funciona, e por quê. Os estudos precisam oferecer uma documentação mais cuidadosa de informações, tais como o tempo gasto nas diversas atividades, e apoiar-se na mesma abordagem curricular em diferentes situações. Os esforços de pesquisa existentes podem melhorar se avaliarem inicialmente a intensidade do programa e o engajamento da família. Até o momento, poucos estudos examinaram de que forma a quantidade de intervenção recebida influencia os efeitos desses programas. Há duas maneiras de analisar se há um número mínimo de visitas necessário para produzir efeitos: pela comparação entre aqueles que utilizaram a intervenção e aqueles que não a utilizaram, ou pela mensuração da forma pela qual o nível relativo de participação prediz o tamanho dos efeitos do tratamento. Algumas avaliações diferentes utilizaram essas abordagens para mostrar que os efeitos do programa dependem do nível de participação.21-26 Assim, programas como visitas domiciliares podem melhorar os resultados das crianças se os serviços forem suficientemente intensivos. Poucos estudos examinaram o engajamento da família no programa de intervenção.27-28 Entretanto, esses estudos verificaram que o envolvimento da mãe e da criança estava associado a melhores resultados da criança. Além disso, o envolvimento do visitador pode moderar os efeitos da intervenção. Visitadores que ajudam a mãe a aprender habilidades mais adaptativas de resolução de problemas e que se envolvem em sua vida diária tiveram efeitos positivos sobre a saúde emocional.16

Para que as intervenções sejam eficazes, é preciso superar os obstáculos físicos e psicológicos aos serviços. Mesmo quando estão disponíveis, os serviços não são acessíveis. Para que os pais utilizem os serviços, precisam de ajuda com o cuidado da criança, transporte e flexibilidade nos horários e localização dos serviços. Alguns estudos enfrentaram com sucesso os problemas de acessibilidade.29 Lipman e Boyle sugerem que técnicas de pesquisa de mercado podem ser úteis para identificar preferências pelos programas. Ainda que esses obstáculos sejam superados, persistem obstáculos psicológicos. A falta de confiança nos provedores de serviços ou nas instituições da comunidade pode impedir a utilização dos serviços. No caso de problemas comportamentais, os estigmas constituem mais um obstáculo psicológico. 

Os futuros programas de intervenção precisam resistir a pressões financeiras. Kitzman argumenta que intervenções que tiveram uma grande diversidade de efeitos exigiram recursos significativos, e que existe uma pressão constante pela redução do volume de recursos envolvidos na implementação. No entanto, economistas como Barnett argumentaram contra o subinvestimento na infância citando, por exemplo, estudos como o projeto Perry Preschool, no qual os benefícios superaram os custos em uma proporção de sete para um.1,30    

Os programas de intervenção precisam examinar a interrelação entre desenvolvimento social e emocional e sucesso na escola. Eu acrescentaria também que, para complementar as medidas existentes, são necessárias medidas observacionais sobre o engajamento, a persistência e o entusiasmo das crianças em relação às tarefas.

Por fim, os autores sugerem que precisa ser adotada uma visão mais modesta sobre os efeitos dos programas. É necessário reexaminar a questão geral relativa ao que é razoável esperar de qualquer intervenção.20 Muitas famílias enfrentam situações persistentes de pobreza e múltiplos fatores de risco. Não se pode esperar que uma intervenção isolada modifique significativamente sua trajetória de vida. No entanto, o que é razoável em termos de tamanho dos efeitos? Uma vez que, de maneira geral, os efeitos cognitivos são maiores que os efeitos comportamentais, essa expectativa varia conforme o resultado. O que é razoável em termos de duração do efeito? O que é razoável em termos da amplitude 

geral ou do escopo do efeito? Esperam-se efeitos tanto para as crianças quanto para os pais? Esperam-se efeitos nas áreas cognitiva, comportamental e de saúde? De modo geral, concordo com os autores que o campo da intervenção na primeira infância ainda está em seus primórdios quanto à determinação da importância relativa de quaisquer características específicas envolvidas. Entretanto, o fato de que esses programas beneficiam mais as famílias que enfrentam múltiplos riscos indica que vêm cumprindo seu objetivo. 

Referências

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Para citar este artigo:

Klebanov PK. Avaliando programas de intervenção na primeira infância. Comentários sobre Kitzman, Knitzer, e Lipman e Boyle. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/baixa-renda-e-gravidez/segundo-especialistas/avaliando-programas-de-intervencao-na-primeira-infancia. Publicado: Janeiro 2005 (Inglês). Consultado: 21/07/2019.