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Baixa renda e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial da criança. Comentários sobre Duncan e Magnuson, e Weitzman

Julius Richmond, PhD

Harvard University, EUA

Abril 2003 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Por um lado, Greg J. Duncan e Katherine A. Magnuson ofereceram uma breve apresentação muito sofisticada sobre os efeitos da pobreza no desenvolvimento pré-natal e pós-natal precoce e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial da criança. Por outro lado, Michael Weitzman escreveu um artigo notavelmente abrangente e conciso sobre baixa renda e seu impacto no desenvolvimento infantil. Em ambos os casos, os autores demonstram seu extenso conhecimento sobre as interações entre pobreza e desenvolvimento infantil inicial.

Pesquisas e conclusões

O artigo de Duncan e Magnuson demonstra que:

  • Em média, filhos de famílias de baixa renda têm mais problemas psicossociais do que crianças criadas em famílias de alta renda.
  • No entanto, as pesquisas não estabeleceram relações causais substanciais entre baixa renda familiar e resultados psicossociais na infância. Características correlatas das famílias de baixa renda (tais como estrutura familiar) parecem ser mais importantes.
  • São necessárias mais pesquisas para identificar quais relações com baixa renda podem ser abordadas de forma mais eficaz por esforços de intervenção.

Neste artigo, no entanto, os impactos de diversas intervenções com crianças e famílias que vivem na pobreza podem estar mal representados. Duncan e Magnuson focalizaram competentemente as políticas econômicas, indicando que a redistribuição de renda pode melhorar significativamente os resultados das crianças. Entretanto, o impacto de vários programas de intervenção precoce, como Head Start e programas de cuidado em creches (que produziram resultados tanto a curto quanto a médio prazo) não foram adequadamente considerados – apesar da vasta produção na literatura disponível atualmente que trata de pesquisas sobre o Head Start e dos estudos de David Weikart sobre intervenção precoce. 

Weitzman, que está muito familiarizado com a literatura, oferece interpretações muito adequadas e valiosas sobre as pesquisas. Impressionou-me sua capacidade de síntese dessa complexa literatura. O argumento principal de Weitzman:

  • Há muitos fatores interferentes e muitos caminhos pelos quais a pobreza influencia negativamente o desenvolvimento psicossocial da criança.
  • Crianças pobres podem sofrer prejuízos maiores em decorrência de eventos adversos do que outras crianças em circunstâncias semelhantes (por exemplo, intoxicação por chumbo ou deficiência do crescimento).
  • Os primeiros anos da vida são um período particularmente vulnerável, durante o qual a pobreza pode ser mais prejudicial do que nos anos posteriores.

A título de comentário secundário, Weitzman poderia ter dado um pouco mais de atenção às consequências sobre a saúde das questões de pobreza e de outros fatores adversos como, por exemplo, o baixo peso ao nascer. Durante muitos anos, a Robert Wood Johnson Foundation patrocinou o Infant Health and Development Program – IHDP (Programa de Saúde e Desenvolvimento Infantil), que produziu uma quantidade considerável de dados longitudinais, sobre a saúde e as conseqüências sobre o desenvolvimento de programas de intervenções com bebês de baixo peso. Os efeitos da pobreza podem ser identificados nesses dados. 

Implicações para perspectivas de serviços e de políticas

Duncan e Magnuson certamente identificaram alguns pontos importantes para a consideração de políticas relativas à renda familiar e as consequências para o desenvolvimento da criança. Prestaram um bom serviço também ao propor opções de políticas orientadas para a melhoria de resultados do desenvolvimento da criança por meio da melhoria do status econômico de famílias de baixa renda. Embora indiquem que a renda familiar tem um efeito causal preponderante tanto sobre o desenvolvimento cognitivo e econômico quanto sobre o desempenho acadêmico, sugerem também que, por si só, a melhoria da condição econômica não resolverá necessariamente desenvolvimento psicossocial e problemas comportamentais. Na verdade, embora não ignorem a importância potencial de programas de intervenção, esses autores têm um foco muito estreito quanto a questões de renda e de redistribuição de renda. 

Duncan e Magnuson apresentaram com precisão as implicações políticas associadas à renda familiar e o significado potencial de tirar as famílias da situação de pobreza. Entretanto, apesar de sua familiaridade com a literatura relevante, não consideraram adequadamente o potencial de programas de intervenção.

Na área de programas de intervenção, Weitzman tem identificado implicações totalmente adequadas para políticas. Seu artigo examina de maneira eficaz uma diversidade de programas de intervenção dirigidos a crianças que crescem em ambientes empobrecidos e oferece um excelente resumo sobre as questões de saúde, de desenvolvimento e de políticas que cercam o desenvolvimento dessas crianças. Além disso, Weitzman sustenta que não precisamos aguardar o dia em que a pobreza esteja (idealmente) abolida de uma vez por todas para oferecer influências positivas a crianças pobres durante seu crescimento. 

Para citar este artigo:

Richmond J. Baixa renda e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial da criança. Comentários sobre Duncan e Magnuson, e Weitzman. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/baixa-renda-e-gravidez/segundo-especialistas/baixa-renda-e-seu-impacto-sobre-o-desenvolvimento-0. Publicado: Abril 2003 (Inglês). Consultado: 16/06/2019.