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Cuidados não parentais e o desenvolvimento de crianças pequenas (do nascimento até 2 anos de idade)

Margaret Tresch Owen, PhD.

University of Texas at Dallas, EUA

Abril 2004 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Dada a importância atribuída aos cuidados maternos no ideário cultural1 e nas teorias psicológicas,2 e o papel assumido no mercado de trabalho por um número crescente de mulheres com filhos muito pequenos, tem havido uma preocupação generalizada com os efeitos de cuidados não maternos para crianças pequenas, especialmente para os bebês. 

Do que se trata

As taxas de emprego de mães de crianças pequenas e em idade pré-escolar triplicaram nos Estados Unidos desde 1969. De fato, a maioria das mulheres americanas com filhos menores de 3 anos passa parte de seu tempo no trabalho, e seus filhos recebem cuidados não maternos por períodos de tempo consideráveis. Depender de cuidados não maternos a partir do primeiro ano de vida tornou-se norma.3,4 O número de horas semanais de emprego remunerado também aumentou entre as mães, acompanhando o número de horas de cuidados não parentais. Em 1998, 32% das mulheres com filhos menores de 5 anos trabalhavam em tempo integral durante o ano inteiro, em comparação com 7% em 1969. Os filhos pequenos de mães não empregadas também recebem rotineiramente cuidados não parentais.3 Os números da Pesquisa Nacional Domiciliar sobre Educação, realizada em 1999, indicaram que, nos Estados Unidos, 53% das crianças de um ano de idade e 57% das crianças de 2 anos estavam sistematicamente sob cuidados não parentais (segundo tabulações relatadas por Shonkoff e Phillips5). Existem efeitos sistemáticos sobre crianças pequenas cuja experiência de cuidados não parentais ocorre nos dois primeiros anos de vida? 

Problemas

Para compreender os efeitos dos cuidados não parentais na primeira infância, devemos abordar com cautela diversas facetas dessa experiência – a quantidade, o tipo e a qualidade do cuidado oferecido, a idade em que é iniciado, e a questão de estabilidade ou mudanças quanto aos cuidados e aos cuidadores. Além disso, os efeitos dos cuidados não parentais podem depender de características individuais das crianças (especialmente temperamento e gênero) e das famílias – (como renda, atitudes em relação ao trabalho, e qualidade do cuidado parental). Por exemplo, maior número de horas ou mudanças frequentes na forma de prestação dos cuidados podem ser prejudiciais para crianças com certas características de temperamento, porém benéficas ou benignas para outras. A mensuração dos efeitos do cuidado não parental na primeira infância deve basear-se, em grande medida, em formatos de pesquisa correlacionais, não experimentais, e que façam distinção entre os verdadeiros efeitos do cuidado não parental precoce e as diferenças entre as famílias que utilizam esses serviços. 

Cuidados não parentais e o desenvolvimento de crianças pequenas (do nascimento até 2 anos de idade)No início da década de 1990, o NICHD (National Institute for Child Health and Human Development – Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano) iniciou o Estudo sobre Cuidados na Primeira Infância – um estudo longitudinal de larga escala com crianças e suas famílias. As crianças foram monitoradas para investigar os efeitos, no curto e no longo prazo, de experiências de cuidados por meio do acompanhamento desde o nascimento, de uma amostra de mais de 1.200 crianças de todas as partes do país. Esse estudo examinou cuidadosamente as características dos contextos de cuidados não parentais escolhidos pelas famílias das crianças, as características das famílias, as experiências das crianças dentro da família, e múltiplos aspectos dos resultados de desenvolvimento ao longo do tempo (ver um panorama abrangente em NICHD Early Child Care Research Network6). As famílias eram representativas das várias populações locais a partir das quais foram recrutadas. A maioria das crianças vivenciou cuidados não parentais já no começo do primeiro ano de vida.3 A maior utilização de cuidados não parentais na infância relacionou-se fortemente com fatores econômicos da família, mas educação, personalidade e crenças das mães, bem como tamanho da família também estavam associados à utilização desse recurso. Uma grande variedade de tipos de cuidado foi utilizada na primeira infância, incluindo creches, cuidado por famílias cuidadoras, cuidado por parentes, cuidado em casa e cuidado paterno. Tanto famílias de baixa renda quanto de alta renda utilizaram creches de boa qualidade; o cuidado de boa qualidade nos lares foi associado a rendas mais altas. 

Contexto de pesquisa

Pesquisas recentes enfatizaram os efeitos de longo prazo das influências ambientais no início da vida5 e sua importância para a segurança emocional, o desenvolvimento cognitivo e as habilidades de aprendizagem. De fato, os efeitos de cuidados não parentais devem ser abordados por meio do exame da natureza da experiência de cuidado e de experiências familiares concomitantes. A pesquisa inicial sobre os efeitos do cuidado não parental ignorou amplamente aspectos tendenciosos de seleção, que talvez ainda estejam subcontrolados nas pesquisas. Mas as tentativas de deslindar os efeitos da família e os efeitos do cuidado não parental também podem levar à subestimação dos efeitos do cuidado não parental,5,7 tendo em vista os efeitos recíprocos entre cuidado não parental e famílias. Assim, durante a última década, a pesquisa sobre os efeitos do cuidado não parental sobre bebês e crianças pequenas baseou-se em um modelo ecológico de desenvolvimento, que aborda as influências ambientais na família e nos contextos de cuidado não parental, levando em conta também características da criança e de que maneira experiências em um contexto podem modelar os efeitos de experiências em outro contexto.  

Questões-chave de pesquisa

As preocupações generalizadas com os efeitos de cuidados não maternos rotineiros nos dois primeiros anos de vida da criança focalizaram principalmente a forma pela qual essas experiências poderiam afetar o relacionamento entre a mãe e a criança em desenvolvimento, mas abordaram também os efeitos sobre desenvolvimento linguístico e cognitivo, competências sociais, problemas de comportamento, e relações com pares de idade. Um foco adicional foi a preocupação com relação à possibilidade de que os pais percam influência sobre o desenvolvimento de seus filhos quando cuidadores não parentais proveem diariamente quantidades significativas de cuidado. 

Resultados de pesquisas recentes

Cuidados não parentais na infância e relacionamento entre a mãe e o bebê. O estudo do NICHD sobre cuidados na primeira infância é considerado a investigação mais completa já realizada sobre os efeitos de cuidados não parentais sobre o apego mãe-bebê. Ao contrário dos resultados de meta-análises da literatura anterior, que focalizam apenas os efeitos da quantidade de cuidado oferecido, sem controlar adequadamente para efeitos de seleção, o estudo do NICHD verificou que diversos aspectos da experiência de cuidado não parental (quantidade, idade de início e qualidade, e estabilidade da experiência da criança) não mostravam associação com a segurança dos apegos mãe-bebê ou a maior probabilidade de apegos esquivos, exceto quando as mães eram relativamente insensíveis em suas interações com seus filhos.8 Para essas crianças,  experiências extensivas de cuidado não parental, cuidado de baixa qualidade e maior número de mudanças nos arranjos de cuidados  revelaram associação com maior probabilidade de desenvolver apegos inseguros com suas mães. O preditor mais forte de segurança do apego mãe-bebê, independentemente das experiências da criança com cuidado não parental, foi a sensibilidade da mãe ao cuidar do bebê (incluindo atenção positiva em relação ao bebê, responsividade e ausência de intromissão ou hostilidade), o que sugere que, mais do que a ausência da mãe ou as experiências de cuidado não parental em si mesmas, é a qualidade das interações mãe-criança que determina a qualidade do apego.

Um estudo recente envolvendo crianças israelitas indicou que as experiências de bebês em creches de muito baixa qualidade estavam associadas a taxas mais altas de apego inseguro mãe-bebê,9 independentemente da sensibilidade da mãe ao cuidar dos filhos. De modo geral, a qualidade do cuidado observado em creches israelitas era pior do que aquela observada normalmente em creches nos Estados Unidos – o que enriquece nosso conhecimento a respeito das associações entre condições de cuidado não parental e relação mãe-criança.

Outra evidência do estudo do NICHD indica que o cuidado não parental tem alguma relação com a habilidade da mãe de responder a seu filho com sensibilidade e o envolvimento positivo da criança com a mãe nas interações mãe-criança. Crianças que tinham experiência um pouco maior de cuidado não parental tinham mães um pouco menos sensíveis em relação a elas e, consequentemente, envolviam-se de forma menos positiva nas interações com suas mães.10 No entanto, as mães eram mais sensíveis quando as crianças estavam frequentando creches de melhor qualidade. Esses efeitos sutis não foram encontrados de maneira consistente em diferentes pesquisas, mas outros estudos raramente examinaram um grupo tão grande e diversificado de crianças com controles tão cuidadosos, e não observaram as interações mãe-criança no decorrer dos anos pré-escolares.   

Alguns estudos verificaram que experiências de cuidado não parental parecem enfraquecer as associações entre relações genitor-criança e o desenvolvimento da criança.11-13 No entanto, evidências recentes extraídas do estudo do NICHD e de outros estudos indicaram que as famílias continuam a fazer diferença, e que as influências familiares são consistentemente mais fortes e mais diversificadas do que os efeitos de cuidados não parentais sobre o desenvolvimento da criança.14-17

Efeitos sobre cognição e linguagem. Têm sido consistentemente demonstradas associações positivas entre o cuidado não parental de melhor qualidade e maior desenvolvimento cognitivo e de linguagem nos dois primeiros anos de vida da criança, mesmo depois de consideradas as associações com fatores de seleção das famílias e outros aspectos correlatos potencialmente interferentes, tais como estimulação positiva recebida em casa e habilidades de linguagem da mãe.18-20 Além disso, verificou-se que maior experiência com cuidados em creche está relacionada ao melhor desenvolvimento da linguagem (maior produção linguística) aos 15 e 24 meses, bem como melhor desenvolvimento cognitivo aos 2 anos de idade, controlando-se fatores familiares e a estimulação linguística no contexto de cuidados.20 

Efeitos sobre relações com pares de idade, adequação e problemas comportamentais. De maneira geral, a experiência de cuidado não parental nos primeiros anos é acompanhada por maior exposição a pares em idades precoces e pela possibilidade de associação de efeitos sobre competências iniciais com pares. De fato, maior experiência em contextos de cuidado com outras crianças associa-se a habilidades positivas com os pares nesses contextos, mas também com avaliações de negatividade pelos cuidadores.6 O efeito do cuidado não parental sobre a adequação da criança e em termos de problemas comportamentais é controvertido, mas bastante consistente. Maior número de horas de cuidado não parental, cuidado coletivo com muitos pares de idade e cuidado não parental de qualidade precária têm sido relacionados a aumento de problemas comportamentais a partir dos 2 anos de idade; cuidados de melhor qualidade foram associados a cooperação e adequação em relação a adultos e a habilidades de interação social em crianças de 2 anos de idade 21,22

Conclusões

As associações positivas entre cuidado não parental de boa qualidade e uma variedade de resultados positivos nos dois primeiros anos de vida estão entre as descobertas da ciência do desenvolvimento com maior potencial de implicações. O cuidado não parental de alta qualidade – sob a forma de cuidado responsivo e estimulante – está associado ao melhor desenvolvimento cognitivo e de linguagem, relações positivas com pares de idade, adequação em relação a adultos, menos problemas comportamentais e melhores relações mãe-filho. Embora tenham sido encontradas menos relações consistentes com diferentes tipos de experiências de cuidado, o cuidado em creches parece ser benéfico para o desenvolvimento cognitivo das crianças – embora também possa estar associado a relações sociais problemáticas. Salvo quando de qualidade precária, o cuidado não parental, em si mesmo, não parece prejudicar a segurança do apego mãe-bebê; no entanto, em algumas condições, há indícios de que essa relação possa ser mais vulnerável.

Implicações para políticas e serviços

Nos Estados Unidos, a maioria das crianças pequenas tem experiências de cuidado não parental a partir de uma idade bastante precoce. Implicações da pesquisa sobre os efeitos do cuidado não parental apontam claramente para a importância do provimento de cuidados de alta qualidade e de acesso dos pais a esses cuidados. Cuidados não parentais de má qualidade podem ser prejudiciais para o desenvolvimento saudável da criança e para suas relações com os pais, ao passo que cuidados de boa qualidade parecem ser benéficos para seu desenvolvimento e suas relações. A pesquisa não aponta com clareza implicações quanto ao tipo de cuidado que deve ser promovido, e que deve constituir a opção dos pais para seus filhos pequenos. Na verdade, os benefícios da creche para o desenvolvimento cognitivo e de linguagem podem ser acompanhados por problemas de desenvolvimento social, mesmo quando o cuidado é de alta qualidade. Os efeitos do cuidado não parental manifestam-se nos dois primeiros anos de vida, e podem vir a adquirir maior significado por meio do exame de resultados posteriores do desenvolvimento no contexto de experiências na família e de cuidado não parental.

Referências

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Para citar este artigo:

Owen MT. Cuidados não parentais e o desenvolvimento de crianças pequenas (do nascimento até 2 anos de idade). Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Bennett J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/cuidados-na-infancia-educacao-e-cuidados-na-primeira-infancia/segundo-especialistas/cuidados-nao-0. Publicado: Abril 2004 (Inglês). Consultado: 23/02/2020.