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Cuidados não parentais e seu impacto sobre crianças de 2 a 5 anos de idade. Comentários sobre McCartney, Peisner-Feinberg, e Ahnert e Lamb

W. Steven Barnett, PhD

National Institute for Early Education Research, EUA

Fevereiro 2004 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

McCartney, Peisner-Feinberg e Ahnert e Lamb revisaram as pesquisas sobre as esperanças e os temores que surgiram à medida que cuidados não parentais formais passaram a ser a norma em muitos países em todo o mundo. A maior esperança era que o cuidado não parental pudesse melhorar significativamente a vida e o desenvolvimento de crianças pequenas, especialmente daquelas que correm maior risco de apresentarem resultados deficientes no desenvolvimento.1,2 O maior temor era que o cuidado não parental pudesse interferir negativamente nas relações entre pais e filhos, e prejudicar o desenvolvimento social e emocional das crianças.3 Tipicamente, a mudança nos arranjos de cuidados é atribuída ao movimento das mães rumo ao trabalho fora de casa. No entanto, atualmente até mesmo crianças cujas mães não têm emprego remunerado costumam participar de arranjos semelhantes.4 Assim sendo, vemos que o cuidado não parental tem dois objetivos:

  1. possibilitar que os pais trabalhem e tenham outras atividades longe de seus filhos
  2. oferecer educação e atividades sociais para as crianças.

A demanda por tais metas induziu mudanças no provimento dos cuidados; e a frequência a programas de tipo escolar durante boa parte do dia é hoje quase universal em alguns países já aos 3 anos de idade.5

Em grande parte, a pesquisa sobre cuidados não parentais é realizada e publicada em subespecializações, cada uma das quais tem sua própria perspectiva, como se reflete nas revisões. McCartney descreve a pesquisa sobre cuidados não parentais como um processo que evolui em estágios: de comparações simples entre crianças que recebem e não recebem esse cuidado à análise dos efeitos da qualidade – com controle de características das famílias – ao exame das influências conjuntas dos contextos de cuidado não parental e na família. Peisner-Feinberg categoriza a pesquisa de acordo com seu foco em:

  1. intervenções que visam melhorar a educação e o desenvolvimento; ou
  2. cuidado não parental comum, disponível para a população em geral.

Ahnert e Lamb tendem a focalizar as relações com os pais, com outros cuidadores e com outras crianças. A fragmentação da pesquisa por especialidades limita a clareza das conclusões de sua revisão. No entanto, todos os autores reconhecem que, para que a pesquisa possa ampliar nossa compreensão sobre os efeitos do cuidado não parental sobre o desenvolvimento, é preciso que se torne mais multidisciplinar, e que englobe a ecologia social mais ampla. 

Pesquisas e conclusões

Os autores dessas revisões identificam como objetivo primário de suas pesquisas a produção de estimativas sobre os efeitos das diferenças entre as experiências de cuidado não parental na infância sobre o desenvolvimento linguístico, cognitivo, social, emocional e físico e o bem-estar da criança, tanto no presente quanto projetado no futuro. As dimensões de experiência que mencionam como importantes incluem a idade em que se inicia o cuidado, o número de horas em que é oferecido, o tipo de cuidador e de contexto, e a qualidade. Qualidade tem sido definida em termos tanto de processo (atividades) como de estrutura (características do educador, tamanho do grupo etc.) e em muitos países varia de deficiente a medíocre.6-7  Não se espera que os efeitos das variações sejam uniformes; espera-se, antes, que variem com as características das crianças, de suas famílias e dos contextos sociais mais amplos em que vivem. Na verdade, os pesquisadores passaram a ver o cuidado não parental e as experiências em casa como fatores determinados em conjunto.8

De maneira geral, as pesquisas nos oferecem motivos para ter esperanças, e minimizam os principais temores. No entanto, essas revisões, em particular, levantam questões sobre a possibilidade de esperarmos benefícios cognitivos e sociais apenas modestos, que podem ser, pelo menos parcialmente, neutralizados por efeitos negativos modestos sobre o comportamento social e a saúde. A meu ver, é desejável uma avaliação mais otimista sobre o potencial do cuidado não parental para a promoção do desenvolvimento, com base em uma revisão um pouco mais ampla das pesquisas, com maior ênfase em educação. 

Até o momento, os efeitos positivos imediatos e mais duradouros da qualidade do cuidado sobre o desenvolvimento linguístico, cognitivo e o desempenho escolar foram confirmados por resultados convergentes de estudos longitudinais amplos, razoavelmente representativos, e de ensaios menores, com amostragens aleatórias, com acompanhamento de longo prazo.2,9-13 As contribuições para essa base de conhecimentos incluem revisões meta-analíticas de intervenções e de estudos longitudinais extensos realizados em vários países.2,14,15 Os resultados negativos nos domínios cognitivo e social encontrados em alguns estudos podem ser atribuídos a limitações inerentes a seu planejamento, a amostras e a medidas. Benefícios têm sido relacionados mais frequentemente à qualidade das creches, e é justificável pesquisar em maior profundidade os efeitos de outros tipos de cuidado.2 Segundo evidências da literatura educacional mais ampla,16,17 a qualidade dos educadores e o tamanho do grupo são aspectos importantes para a qualidade. Os resultados relativos à extensão dos benefícios resultantes da qualidade do cuidado são variáveis – pelo menos em alguns domínios –, e talvez sejam mais evidentes para crianças menos favorecidas do que para outras crianças. No entanto, de maneira geral, esses resultados seriam consistentes com as conclusões de estudos educacionais e de intervenção.11-16

Há também pesquisas suficientes para concluir que o cuidado não parental não constitui uma ameaça séria para as relações da criança com seus pais ou para o desenvolvimento emocional da criança. A sensibilidade materna é muito mais importante do que as experiências de cuidado não parental no que se refere ao apego; e, em grande parte, a influência dos cuidados prestados pelos pais está relacionada com a influência do cuidado não parental. No entanto, a evidência acumulada mostra que um maior número de horas sob cuidado não parental está associado à maior incidência de problemas comportamentais. O estudo do NICHD confirma essa associação, e esses resultados não são mediados por qualidade.18 Um estudo recente, e ainda mais amplo, de instituições para crianças em idade pré-escolar, na Inglaterra, produziu resultados até certo ponto semelhantes: crianças que começaram mais cedo a receber cuidados não parentais apresentaram níveis um pouco mais elevados de comportamento antissocial ou ansioso – um efeito reduzido, mas que não foi eliminado por cuidados de melhor qualidade.19 No mesmo estudo, verificou-se que o início mais precoce do cuidado não parental não afetou outras medidas sociais (como independência e concentração, cooperação e adequação, e sociabilidade com pares), mas melhorou o desenvolvimento cognitivo.

O viés de seleção é um problema potencial para a maioria dos estudos sobre cuidado não parental, uma vez que pode confundir diferenças nas características da criança e da família com variações nos contextos de cuidado não parental. O viés de seleção é especialmente preocupante em pesquisas que relacionam o cuidado não parental a problemas de comportamento, porque é plausível que a causalidade opere na direção inversa. É possível que crianças com altos níveis de comportamento antissocial sejam colocadas sob cuidados não parentais durante um número maior de horas devido à esquiva dos pais ou à sua esperança de que isso contribua para melhorar os problemas de seus filhos. Nesses casos, são particularmente valiosas abordagens realmente experimentais. Um ensaio aleatório do Early Head Start verificou que um grupo de tratamento teve mais horas de cuidado e menos problemas comportamentais nos anos pré-escolares.20  Outros estudos experimentais com crianças em idade pré-escolar encontraram taxas mais baixas de problemas comportamentais, desordens de conduta, delinquência e criminalidade adulta em sujeitos que haviam recebido cuidados não parentais mais precocemente.9,21

Implicações para políticas e desenvolvimento de serviços

Todos os artigos consideram que a qualidade do cuidado frequentemente é baixa, e a principal razão é o custo relativamente alto de serviços de qualidade. Por exemplo, a qualidade do educador tem grande influência sobre a qualidade geral do cuidado e seus benefícios para a criança – um fator que também depende significativamente de compensações.22  Aparentemente, os pais têm dificuldade em custear ou perceber a necessidade de cuidados de boa qualidade. Há variações entre os países com relação ao entendimento de que o provimento de cuidados não parentais de boa qualidade seja responsabilidade do governo, a ser sustentado por regulamentos e financiamento público.5 Uma vez que o apoio à educação é amplamente reconhecido como uma função apropriada do governo, parece que alguns países ainda não avaliam corretamente o papel educacional do cuidado não parental para as crianças. Análises da relação custo-benefício das intervenções indicam margens amplamente positivas, sugerindo que mesmo benefícios pequenos ou moderados decorrentes da qualidade do cuidado são suficientemente importantes para garantir a regulamentação e o apoio financeiro dos governos em favor de todas as crianças.23,24

Uma comparação entre resultados de ensaios clínicos randomizados de intervenção e outros estudos sobre cuidado não parental levanta a preocupação de que estudos não experimentais possam produzir resultados excessivamente pessimistas.9 Mais especificamente, o viés de seleção pode levar a superestimar os efeitos negativos referentes ao comportamento social. Práticas educacionais deficientes e a falta de preocupação com o currículo podem levar a subestimar os benefícios potenciais de cuidados de boa qualidade em todos os domínios do desenvolvimento. Verificou-se que uma abordagem educacional aos cuidados não parentais afeta fortemente, por exemplo, o desenvolvimento socioemocional. Mas os estudos sobre cuidados não parentais não examinaram adequadamente de que forma melhorias pedagógicas e orientadas para a intervenção poderiam melhorar os resultados.25 São necessários ensaios clínicos randomizados nos quais sejam sistematicamente variados e medidos fatores como a população, o cuidado não parental e as características do contexto, de forma a desatar os nós que limitam conclusões claras para políticas e práticas. 

Referências

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Para citar este artigo:

Barnett WS. Cuidados não parentais e seu impacto sobre crianças de 2 a 5 anos de idade. Comentários sobre McCartney, Peisner-Feinberg, e Ahnert e Lamb. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Bennett J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/cuidados-na-infancia-educacao-e-cuidados-na-primeira-infancia/segundo-especialistas/cuidados-nao-4. Publicado: Fevereiro 2004 (Inglês). Consultado: 23/02/2020.