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Situação atual da pesquisa sobre efeitos de cuidados não parentais

Kathleen McCartney, PhD.

Harvard University, EUA

Fevereiro 2004 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

Cuidado não parental pode ser definido como o cuidado de crianças pequenas oferecido por adultos que não sejam seus pais. O cuidado não parental informal, prestado por parentes, babás ou outros cuidadores, ocorre normalmente no contexto doméstico (seja na casa da criança ou na casa do cuidador) ao passo que o cuidado formal prestado por cuidadores capacitados ou não capacitados, ocorre no contexto de escolas ou creches.

Do que se trata

Atualmente, o cuidado não parental faz parte da vida das crianças na maioria dos países ocidentais. Mais de 50% das crianças passam pelo menos dez horas semanais sob alguma forma de cuidado não parental no primeiro ano de vida, e mais de 75% das famílias com filhos pequenos depende do cuidado não parental como forma de apoio ao emprego materno. O cuidado não parental formal pode oferecer também educação infantil. Na verdade, em termos de atividades, é difícil fazer distinção entre programas de creches, jardins de infância e pré-escolas.1

Problema

O rápido aumento do emprego materno nos últimos 25 anos resultou em um aumento na dependência de cuidados não parentais para crianças pequenas, desde o nascimento até os 5 anos de idade. Esse aumento representa uma transformação dramática nos modos de criar os filhos, e desencadeou preocupações quanto a algum risco potencial do cuidado não parental para o desenvolvimento saudável da criança.

Contexto de pesquisas

Houve três fases na pesquisa sobre cuidado não parental. Na primeira, foram focalizadas comparações simplistas entre crianças sob cuidados não parentais e crianças cuidadas exclusivamente pela mãe. Esses estudos incorreram em dois problemas: os pesquisadores não conseguiam tirar conclusões definitivas sobre os efeitos do cuidado não parental, porque esses dois grupos de crianças diferiam em inúmeros aspectos; e o cuidado não parental era tratado como uma experiência uniforme. A segunda fase focalizou diferenças na qualidade do cuidado não parental e controlou estatisticamente diferenças pré-existentes entre as famílias. Na terceira fase, essa pesquisa foi ampliada, utilizando modelos sobre influências conjuntas de contextos familiares e de cuidado parental sobre o desenvolvimento da criança. 

Questões-chave de pesquisa

Quatro questões motivaram a pesquisa sobre cuidado não parental nos últimos dez anos. A principal delas é se cuidados não parentais prolongados no primeiro ano de vida interferem negativamente na relação de apego entre a mãe e a criança. Por exemplo, alguns teóricos2 formularam a hipótese de que separações diárias poderiam reduzir as oportunidades de interação e levar a criança a perder a confiança na disponibilidade e na responsividade dos pais. A segunda área de investigação refere-se ao impacto de diferenças na qualidade do cuidado não parental sobre o desenvolvimento da criança, principalmente quanto à prontidão para o ingresso na escola. A terceira questão focaliza o número de horas de cuidado não parental como fator de risco para problemas de comportamento, tais como agressividade. A quarta área de investigação refere-se aos efeitos dos tipos de cuidado não parental que foram pesquisados. 

Resultados de pesquisas recentes

Apego mãe-filho

Os primeiros estudos produziram resultados variáveis sobre o risco que cuidados infantis precoces e prolongados representavam para o desenvolvimento de relações de apego seguro. Por esse motivo, o NICHD – National Institute of Child Health and Human Development (Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano) lançou o Estudo de Cuidados na Primeira Infância e Desenvolvimento de Jovens – um estudo longitudinal envolvendo 1.350 crianças, do nascimento ao sexto ano do ensino fundamental. Para avaliar as relações de apego das crianças com suas mães, os investigadores utilizaram um procedimento denominado Situação Estranha, que consiste em uma série de separações e reuniões entre o bebê e a mãe na presença de um estranho.3 Todas as crianças sofrem estresse durante experiências de separação; no entanto, crianças seguras acalmam-se com o retorno da mãe. Foram examinadas as associações entre segurança e cinco parâmetros de cuidados não parentais, a saber: a idade em que a criança passou a receber esse tipo de cuidado; a continuidade do cuidado; o tipo de cuidado; a qualidade do cuidado; e a quantidade de cuidado. Nenhuma das associações foi significativa. Como seria de esperar, o preditor da segurança do apego foi a sensibilidade materna.         

Qualidade do cuidado não parental

A qualidade do cuidado não parental pode ser avaliada por meio de características estruturais do contexto de prestação de cuidados. Por exemplo, proporção adulto/criança, tamanho dos grupos, formação e capacitação dos cuidadores. Essas variáveis são relevantes em termos de políticas, uma vez que os governos podem regulamentar – e efetivamente regulamentam – os programas de cuidados não parentais. Por exemplo, nos países ocidentais, de maneira geral, se aceita como limiar de qualidade uma relação de três ou quatro crianças por cuidador. A qualidade do cuidado não parental pode ser avaliada também com base em observação de comportamentos que refletem interações positivas entre as crianças e os cuidadores, bem como com os pares de idade. Em creches de boa qualidade, os educadores são sensíveis e responsivos às necessidades das crianças, oferecem um ambiente linguisticamente rico, organizam atividades que promovem o desenvolvimento e estimulam as crianças a ter comportamento pró-social. 

Em estudos avançados, controlados, na tentativa de isolar a importância de cuidados não parentais, os efeitos de diferenças entre os contextos familiares das crianças são controlados estatisticamente. Os resultados de um grande número de estudos demonstram que a qualidade do cuidado não parental faz diferença. Na verdade, a importância da qualidade do cuidado não parental é um dos achados mais sólidos da psicologia do desenvolvimento. Crianças que vivenciam cuidados não parentais de alta qualidade obtêm escores mais altos em testes de desempenho e linguagem, apresentam mais habilidades sociais e menos problemas comportamentais.4  O cuidado não parental funciona também como intervenção para filhos de famílias de risco. Filhos de famílias com menos recursos econômicos que frequentam programas de boa qualidade ingressam na escola com habilidades que melhoram suas chances de sucesso acadêmico. 

Número de horas sob cuidados não parentais

Embora a literatura apresente resultados variáveis, há evidências crescentes de que o número de horas sob cuidados não parentais pode constituir um fator de risco para o desenvolvimento de problemas comportamentais, entre os quais a agressividade. Alguns pesquisadores associam esse risco particularmente com o cuidado não parental de bebês;5 no entanto, outros pesquisadores não conseguiram replicar esses resultados, ainda que utilizando o mesmo conjunto de dados.6 Os pesquisadores do NICHD verificaram que quanto mais tempo as crianças passavam em qualquer um entre diferentes tipos de arranjos de cuidado não materno nos primeiros anos de vida4,5, maior a incidência de problemas comportamentais de externalização (isto é, agressão e desobediência) e de conflitos com adultos aos 54 meses de vida e na idade pré-escolar.7 Surpreendentemente, esses resultados não variam em função da qualidade do cuidado. É importante ressaltar que os efeitos são relativamente discretos, que a maioria das crianças com experiências de cuidado não parental prolongado não apresenta problemas de comportamento, e que a direção desses efeitos não é clara – em outras palavras, os pais que têm filhos mais difíceis podem colocá-los sob cuidados não parentais durante um número maior de horas. Em trabalhos futuros, será importante identificar os processos por meio dos quais o tempo sob cuidados não parentais poderia constituir um risco. Por exemplo, alguns pesquisadores especularam que grupos grandes de crianças (com exposição a muitos parceiros) podem aumentar a frequência de comportamentos de externalização que não são percebidos pelos cuidadores e, portanto, não são corrigidos.

Tipo de cuidado

Há vantagens e desvantagens associadas a arranjos formais, como as creches. Há evidências consistentes de que arranjos mais formais com maior número de crianças envolvem riscos para a saúde. Crianças que frequentam creches e outras instituições de cuidados coletivos têm taxas mais altas de doenças infantis contagiosas, entre as quais infecções no ouvido, doenças respiratórias e gastrointestinais.8 Arranjos mais formais promovem também habilidades de preparação para a escola.9

Conclusões

A principal conclusão a respeito de cuidados não parentais é que seus efeitos são complexos e variam principalmente em função da qualidade do cuidado oferecido. Em outras palavras, é a qualidade do cuidado não parental que determina se esse tipo de cuidado envolve riscos para as crianças, as protege quando vivem em lares menos favorecidos, ou promove bons resultados de desenvolvimento. Há alguns indícios de que diferenças individuais entre as crianças quanto a características como temperamento, curiosidade, habilidade cognitiva e gênero influenciam a maneira pela qual vivenciam o cuidado não parental, embora sejam necessárias mais pesquisas sobre essas variáveis. Na maioria dos estudos, as variáveis familiares normalmente são melhores preditores do desenvolvimento da criança do que as variáveis ligadas ao cuidado não parental. Na verdade, o efeito do cuidado não parental depende frequentemente de fatores familiares. Por exemplo, cuidados não parentais de boa qualidade podem proteger contra as influências negativas da depressão materna em relação ao desenvolvimento social e emocional das crianças. As famílias que enfrentam a decisão sobre arranjos de cuidados não parentais podem tranquilizar-se: já é do conhecimento geral que, no final das contas, o que faz mais diferença é o cuidado que oferecem a seus filhos. 

Implicações

Programas de cuidado não parental de boa qualidade promovem o desenvolvimento intelectual, linguístico e social da criança. Entretanto, a maioria das crianças não tem acesso a eles, uma vez que seus pais não podem arcar com os custos.10 Pesquisadores continuam a expressar sua preocupação com o fato de que, em sua maioria, as instituições que oferecem cuidados não parentais não atendem a padrões de qualidade. Por exemplo, no estudo do NICHD sobre cuidado não parental inicial, 56% dos contextos observados ofereciam cuidados de baixa qualidade.11  As evidências sobre má qualidade não causam surpresa, considerando que, de modo geral, os membros da equipe de cuidadores não recebem capacitação e são mal-remunerados. Esforços de políticas sociais para a melhoria da qualidade de cuidados não parentais estão em andamento na maioria dos países ocidentais. Os esforços vão desde a capacitação dos educadores até regulamentos mais estritos para programas subsidiados, especialmente para famílias com poucos recursos econômicos. Para que esses programas sejam bem-sucedidos, é preciso que os governos se disponham a investir em programas de cuidados e educação para crianças pequenas. Análises da relação custo-benefício sugerem que esses investimentos resultarão em melhor desempenho escolar no futuro.12

Referências

  1. National Research Council. Eager to learn: Educating our preschoolers. Washington, DC: National Academy Press; 2001.
  2. Sroufe LA. A developmental perspective on daycare. Early Childhood Research Quarterly 1988;3(3):283-291.
  3. NICHD Early Child Care Research Network. The effects of child care on infant-mother attachment security: Results of the NICHD study of early child care. Child Development 1997;68(5):860-879.
  4. Lamb M. Nonparental child care: Context, quality, correlates, and consequences. In: I. Sigel I, Renniger K, eds. Handbook of child psychology: Vol. 4. Child psychology in practice. 5th ed. New York, NY: Wiley; 1998:73-134.
  5. Baydar N, Brooks-Gunn J. Effects of maternal employment and child care arrangements on preschoolers’ cognitive and behavioral outcomes: Evidence from the children of the national longitudinal survey of youth. Developmental Psychology 1991;27(6):932-945.
  6. Ketterlinus RD, Henderson SH, Lamb ME. Les effets du type de garde de l’emploi maternel et de l’estime de soi sur le comportement des enfants [The effect of type of child care and maternal employment on children’s behavioral adjustment and self esteem]. In: Pierrehumbert B ed. L’accueil du jeune enfant: Politiques et recherches dans les différents pays [Child care in infancy: Policy and research issues in different countries]. Paris, France: Les Editions Sociales; 1992:150-163.
  7. NICHD Early Child Care Research Network. Does amount of time spent in child care predict socioemotional adjustment during the transition to kindergarten? Child Development 2003;74(4); 976-1005.
  8. Johansen A, Leibowitz A, Waite L. Child care and children’s illnesses. The American Journal of Public Health 1988; 78: 1175-1177.
  9. NICHD Early Child Care Research Network. Early child care and children’s development prior to school entry: Results from the NICHD Study of Early Child Care. American Educational Research Journal 2002;39(1):133-164.
  10. Helburn SW, Bergmann BR. America's Child Care Problem. New York, NY: Palgrave; 2002.
  11. NICHD Early Child Care Research Network. The interaction of child care and family risk in relation to child development at 24 and 36 months. Applied Developmental Science 2002;6(3):144-156.
  12. Barnett WS. Long-term effects on cognitive development and school success. In: Barnett WS, Boocock SS, eds. Early care and education for children in poverty: Promises, programs, and long-term results. Albany, NY: State University of New York; 1998:11-44.

Para citar este artigo:

McCartney K. Situação atual da pesquisa sobre efeitos de cuidados não parentais. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Bennett J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/cuidados-na-infancia-educacao-e-cuidados-na-primeira-infancia/segundo-especialistas/situacao-atual. Publicado: Fevereiro 2004 (Inglês). Consultado: 07/08/2020.