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Qual é sua importância?

A socialização de gênero1 é o processo através do qual as crianças aprendem sobre as expectativas, atitudes e comportamentos sociais associados ao seu gênero. A partir do momento em que as crianças adquirem um sentido da sua própria identidade de gênero (ou seja, se tornam conscientes de ser uma menina ou um menino), elas prestam mais atenção às informações relacionadas ao gênero, especialmente aos modelos do mesmo gênero. Essa conscientização de gênero, associada a uma exposição precoce ao gênero vinda de múltiplas fontes de socialização como pais, irmãos e pares, tem consequências imediatas sobre as atitudes e os comportamentos das crianças em relação aos membros do grupo de seu próprio gênero ou do outro gênero. Por exemplo, as crianças podem favorecer seu próprio gênero em suas atitudes (tendo sentimentos mais positivos em relação aos membros de seu próprio gênero) e exibindo comportamentos discriminatórios de gênero como, por exemplo, preferir interagir somente com membros de seu próprio gênero. Essa segregação de gênero pode ser estimulada pelos adultos, porém, mais frequentemente, é uma escolha das próprias crianças, e pode se tornar problemática, porque as crianças precisam ser capazes de interagir em contextos onde os gêneros estão integrados (por exemplo, creche/escola/local de trabalho). Embora as crianças desenvolvam habilidades para interagir com os membros de seu próprio gênero, sua capacidade para se relacionar eficazmente com meninas e meninos fica mais limitada. Da mesma forma, é importante criar oportunidades para que as crianças mais novas possam brincar em grupos de gêneros mistos a fim de ajudá-las a desenvolver relacionamentos interpessoais positivos tanto com meninos quanto com meninas em diversos contextos. 

O que sabemos?

O gênero é uma das primeiras categorias sociais das quais as crianças se tornam conscientes. Ao atingir a idade de três anos, as crianças já formaram sua identidade de gênero. Elas também começam a ter consciência dos estereótipos culturais dos gêneros: de que alguns comportamentos, atividades, brinquedos e interesses são característicos de meninos ou de meninas. Embora as crianças desempenhem um papel ativo no desenvolvimento de sua identidade de gênero, elas adquirem seus conhecimentos sobre o gênero de múltiplas fontes de socialização, incluindo seus pais, pares e professores.

Os pais 

Os pais ensinam às crianças as primeiras lições sobre o gênero. Embora as atitudes igualitárias relativas ao gênero tenham aumentado na cultura ocidental nas últimas décadas, os genitores, especialmente os pais, têm geralmente diferentes expectativas em relação à personalidade, às habilidades e às atividades de seus filhos e filhas. Além disso, as funções do pai e da mãe dentro e fora da família influenciam a concepção que as crianças têm sobre os papéis dos gêneros. Hoje em dia, a maioria das mulheres trabalha fora de casa, e os homens estão participando cada vez mais do cuidado das crianças e das tarefas domésticas. Curiosamente, as crianças criadas por pais do mesmo gênero ou que estão expostas ao envolvimento do pai nos cuidados com os filhos, podem se tornar menos propensas a aceitar os estereótipos de gênero. Além disso, a participação do pai nas tarefas domésticas ou na educação dos filhos está associada a uma probabilidade menor de violência contra crianças.2 Finalmente, os pais reforçam estereótipos de gênero quando dão aos seus filhos e filhas brinquedos diferentes, ou quando descrevem padrões gerais de comportamento para cada gênero (por exemplo, “as meninas gostam de bonecas e os meninos gostam de futebol”). 

Os pares 

Outra maneira importante pela qual as crianças aprendem sobre o gênero é a interação com seus pares. Na primeira infância, as crianças preferem brincar com pares que têm interesses semelhantes ou que elas acreditam compartilhar esses interesses e, desse modo, são mais propensas a socializar com pares do mesmo gênero. Ao passar tempo com seus amigos, os meninos e as meninas aprendem o que é apropriado para um ou outro gênero. Essa socialização pode ser direta ou indireta. Por exemplo, as crianças aprendem sobre os estereótipos de gêneros através dos comentários diretos de seus pares (por exemplo, “as bonecas são para meninas e o cabelo curto é para os meninos”) ou das reações negativas quando não agem de acordo com as expectativas de seu gênero. Do mesmo modo, as crianças aprendem e adotam comportamentos estereotipados de gênero (o que típico de meninos versus o que é típico de meninas) ao passar mais tempo interagindo com membros do próprio gênero. 

Os professores e a escola 

Além dos pais e dos pares, os professores são outra fonte de socialização de gênero. Tal como os pais, os professores têm expectativas de gênero, exemplificam os papéis de gênero e reforçam os comportamentos estereotipados de gênero em suas salas de aula. Por exemplo, os educadores podem reforçar estereótipos de gênero ao classificar e organizar os estudantes em atividades de grupo ou ao criar centros de atividades diferentes para meninos e meninas. Essa segregação, por sua vez, destaca o gênero como uma categoria social e reforça os estereótipos de gênero das crianças, evitando companheiros de brincadeiras de gêneros cruzados. 

Embora esteja claro que os pais, pares e professores socializam as crianças para que elas pensem e ajam de acordo com seu gênero, o desenvolvimento dos meninos e das meninas é influenciado também por fatores biológicos tais como os hormônios sexuais, que influenciam as preferências das crianças por umas ou outras atividades. Desse modo, o desenvolvimento de gênero pode ser descrito mais corretamente como o resultado da interação entre a socialização de gênero fatores biológicos.

O que pode ser feito?

Incentivamos os pais e prestadores de serviços a proporcionar às crianças uma ampla variedade de atividades e brinquedos durante a primeira infância. Do mesmo modo, recomendamos que os pais e professores criem ambientes alegres onde as crianças possam interagir positivamente tanto com meninos quanto com meninas. Essas interações ajudam as crianças a desenvolver as habilidades necessárias para interagir eficazmente em grupos de gêneros mistos e a adquirir uma compreensão melhor das diferenças e semelhanças entre os gêneros. De fato, recomendamos com ênfase que os pais, os educadores, e os profissionais prestadores de serviços estejam atentos às crenças estereotipadas que as crianças expressam sobre os gêneros, já que algumas dessas crenças podem promover comportamentos e atitudes negativas contra o gênero oposto. É possível lidar com essa questão expondo as crianças a modelos contrários ao estereótipo (por exemplo, uma jogadora de hóquei ou um chef cozinheiro) e ensinando-lhes que ser uma menina ou um menino é mais do que somente ter uma aparência bonita ou “ser durão”. De fato, recomenda-se que os pais e os educadores conversem a respeito dos estereótipos de gênero com as crianças e as questionem sobre isso (por exemplo, “as meninas também podem jogar futebol"). Porém, embora recomende-se questionar os estereótipos de gênero das crianças, talvez as intervenções mais eficazes sejam aquelas onde a questão do gênero seja menos evidente, e não mais evidente. Finalmente, incentivamos os elaboradores de políticas educacionais a enfatizar a importância dos ambientes escolares de gêneros mistos, já que eles promovem um número maior de comportamentos e atitudes igualitárias entre os gêneros do que as escolas exclusivas para meninos ou meninas. 

Referências

  1. Barker G. 2006. Presented at United Nations Division for the Advancement of Women (DAW), in Collaboration with UNICEF, Expert Group Meeting: Elimination of all forms of discrimination and violence against the girl child, September 25-28. Florence, Italy: UNICEF Innocenti Research Centre (EGM/DVGC/2006/EP.3). URL: http://www.un.org/womenwatch/daw/egm/elim-disc-viol-girlchild/ExpertPape.... Accessed December 11, 2013
  2. Contreras M, Heilman B, Barker G, Singh A, Verma R, Bloomfield J. Bridges to adulthood: Understanding the lifelong influence of men’s childhood experiences of violence. Analyzing data from the International Men and Gender Equality Survey (IMAGES). Washington, DC: International Center for Research on Women (ICRW) and Rio de Janeiro: Instituto Promundo. April 2012. URL: http://www.promundo.org.br/wp-content/uploads/2012/04/Bridges-to-Adultho.... Accessed December 11, 2013

Para citar este artigo:

Gênero: socialização inicial: Síntese. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Martin CL, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/genero-socializacao-inicial/sintese. Atualizada: Setembro 2014. Consultado: 17/01/2020.