Voltar às publicações recentes

O papel dos pais na aprendizagem na primeira infância

Susan H. Landry, PhD

Children’s Learning Institute;University of Texas Health Science Center, EUA

Fevereiro 2008 (Inglês). Tradução: dezembro 2011

Introdução

As práticas parentais conhecidas como responsivas talvez sejam aquelas que melhor apoiam a criança no desenvolvimento das habilidades cognitivas e sociais necessárias para o futuro sucesso escolar.1 Diferentes teorias e abordagens de pesquisas – por exemplo, a teoria do apego e a abordagem sociocultural – descrevem a responsividade como um aspecto importante das práticas parentais de apoio, que oferece uma base sólida para que a criança se desenvolva bem.2-4 Práticas parentais que oferecem afeto positivo, alto nível de conforto e que são responsivas de forma contingente aos sinais da criança (“responsividade contingente”) são características afetivas e emocionais de um estilo parental responsivo.5 Estes aspectos, combinados a comportamentos responsivos às necessidades da criança no plano cognitivo – entre os quais prover uma contribuição verbal importante, manter e desenvolver seus interesses –, esses aspectos oferecem os diversos tipos de apoio necessários aos múltiplos aspectos da aprendizagem da criança.6 

Aceitar os interesses da criança, respondendo prontamente e de maneira continente aos seus sinais são condutas que favorecem a aprendizagem – em parte, por facilitar o desenvolvimento de mecanismos que lhe permitem lidar com o estresse e com a introdução de novos elementos em seu ambiente.2 A repetição de experiências positivas desenvolve a confiança e cria um vínculo entre a criança e os pais que favorece o envolvimento contínuo da criança nas atividades de aprendizagem com os pais.7,8 Assim, esses comportamentos afetivos e emocionais comunicam o interesse e a aceitação dos pais, estimulando na criança a autorregulação e a cooperação – comportamentos essenciais para a eficiência da aprendizagem. Do ponto de vista sociocultural, acredita-se que os comportamentos responsivos no plano cognitivo – por exemplo, manter os interesses, em lugar de redirecioná-los, fornecer aporte verbal rico – levam a níveis mais elevados de aprendizagem, uma vez que proporcionam uma estrutura ou uma base para as habilidades imaturas da criança pequena, tais como o desenvolvimento de capacidades cognitivas e da atenção.9 Os comportamentos responsivos favorecem o envolvimento e a reciprocidade na interação pais-filhos e ajudam a criança a assumir um papel mais ativo e mais independente no processo de aprendizagem.10 

Do que se trata

A conduta parental responsiva é um dos aspectos das práticas parentais descritos com mais frequência quando se trata de entender o papel do ambiente no desenvolvimento das crianças. A pesquisa mostra que esse comportamento pode favorecer trajetórias normais de desenvolvimento em crianças em situação de alto risco, tais como crianças prematuras e/ou aquelas que vivem em famílias de baixa renda.11 Por outro lado, as práticas parentais não responsivas podem ameaçar o desenvolvimento das crianças, principalmente aquelas em maior risco de apresentar problemas de desenvolvimento.12 Tendo em vista a importância potencial das práticas parentais responsivas, um conhecimento mais preciso dos comportamentos mais importantes para apoiar as diferentes áreas da aprendizagem da criança pode ajudar-nos a entender melhor como facilitar práticas parentais eficazes. 

Problema 

Apesar do papel central das práticas parentais responsivas em diferentes estruturas de pesquisa, grande parte do nosso conhecimento sobre esse estilo parental provém de estudos descritivos, o que significa que podemos somente supor a importância desse tipo de conduta parental. Para assumir uma influência causal das práticas parentais responsivas sobre os resultados obtidos pela criança, seria necessário dispor de dados de estudos experimentais com agrupamentos aleatórios. Um conjunto consistente de estudos experimentais que demonstrem que práticas parentais mais responsivas favorecem a aprendizagem da criança poderia esclarecer a compreensão do mecanismo que rege essa relação. Outra questão que deve ser estudada é a existência de especificidade entre comportamentos responsivos particulares e sua contribuição em certas áreas do desenvolvimento da criança. 

Contexto de pesquisa 

As interações entre as crianças pequenas e os pais facilitam a aquisição de habilidades cognitivas. Evidências indicam que os mecanismos por meio dos quais a responsividade parental auxilia o desenvolvimento cognitivo podem depender da consistência dessa responsividade ao longo do desenvolvimento.11,13 Como a criança e os pais fazem parte de um contexto social mais amplo, muito fatores podem auxiliar ou prejudicar a consistência de comportamentos responsivos. Entre os fatores pessoais que podem comprometer a responsividade dos pais encontram-se depressão, percepção negativa de sua própria educação, e também crenças e atitudes que diminuem o sentimento de importância que os pais acreditam ter na vida de seus filhos.14 No entanto, outros fatores, como maior apoio social de amigos e da família, podem abrandar os efeitos desses fatores sociais e pessoais negativos.11 Em um estudo recente, a percepção dos pais de que podem contar com apoio social positivo permitiu prever, além de outros fatores, quais deles passariam de um estilo de conduta parental não responsivo a um estilo responsivo mediante intervenção.15 Trata-se de uma constatação animadora, pois permite o desenvolvimento de intervenções de conduta parental que proporcionem a mães com histórico social de risco o nível de apoio social necessário para que desenvolvam estilos responsivos de conduta parental.16 

Questões-chave de pesquisa 

  1. Condutas parentais mais responsivas resultam em melhores resultados de aprendizagem para crianças pequenas?

  2. A eficácia da responsividade parental é equivalente em quaisquer condições, ou varia em função das diferentes características das crianças (background cultural, etnia e fatores de risco biológicos, por exemplo)? 

  3. O aumento em vários aspectos da responsividade parental explica as mudanças positivas em diferentes aspectos do desenvolvimento cognitivo? 

  4. Existe um momento ideal do desenvolvimento da criança em que a responsividade parental é especialmente importante, ou a consistência desse comportamento é necessária ao longo do desenvolvimento para uma aprendizagem ideal? 

Resultados de pesquisas recentes 

Um estudo recente de intervenção randomizado analisou se os comportamentos responsivos das mães poderiam ser facilitados e se impulsionavam a aprendizagem de crianças pequenas.6 Para analisar também qual é o momento ideal da criança para a intervenção – por exemplo, em uma primeira fase, enquanto são bebês, ou estão na fase de 1 a 5 anos de idade, ou ambos –, famílias do grupo com intervenção e do grupo sem intervenção foram redistribuídas aleatoriamente ao final da primeira fase, para receber ou não a intervenção durante o período de 1 a 5 anos da criança.17 A intervenção foi concebida para possibilitar às mães a adoção de comportamentos essenciais que proporcionam apoio afetivo-emocional, e de comportamentos responsivos no plano cognitivo, uma vez que se supõe que os dois tipos de apoio são necessários para promover a aprendizagem. Depois da primeira fase, as mães que participaram da intervenção apresentaram aumento considerável em todos os comportamentos responsivos, e seus bebês mostraram níveis mais altos e desenvolvimento mais rápido em diversas habilidades.  

Por exemplo, os bebês cujas mães participaram do programa de intervenção mostraram aumento de sua capacidade de resolução de problemas durante brincadeiras, em comparação com bebês cujas mães não participaram da intervenção. Juntos, os comportamentos responsivos nos planos afetivo-emocional e cognitivo são mediadores do efeito da intervenção sobre a aprendizagem da criança, o que demonstra que a eficácia da responsividade pode ser melhor compreendida quando definida como uma construção ampla. Além disso, alguns comportamentos responsivos particulares melhoraram especificamente diferentes aspectos da aprendizagem das crianças. Por exemplo, a maior frequência de responsividade eventual e de estímulo verbal por parte das mães, ao lado de menores restrições às atividades das crianças resultaram em aumento da cooperação infantil; ao mesmo tempo, o domínio verbal das crianças melhorou quando as mães mantinham a atenção dos filhos em seus de interesse e nomearam objetos e ações com maior frequência. 

A análise das evidências relativas ao momento ideal para a intervenção mostrou que esse momento depende de fatores tais como o tipo de auxílio que um comportamento responsivo oferece, e em que medida está relacionado com as necessidades de desenvolvimento da criança. Por exemplo, comportamentos como a sensibilidade materna (no contexto do apego) eram mais facilitadores na fase de bebês (primeira infância), enquanto comportamentos mais complexos, que devem ser responsivos a um maior nível de desenvolvimento da criança de 1 a 5 anos (por exemplo, responsividade contingente) demandavam as duas fases de intervenção. Por fim, a intervenção funcionou igualmente na presença ou na ausência de alto risco biológico. Esta constatação apoia a noção de que a responsividade facilita a aprendizagem por intermédio de condutas parentais sensíveis e da disposição manifestada pelos pais de satisfazer as necessidades individuais de seus filhos pequenos. 

Lacunas de pesquisa 

Resultados recentes de estudos experimentais demonstram que comportamentos responsivos específicos ou combinações dos mesmos garantem melhor auxílio a certas áreas da aprendizagem da criança. Neste momento, são necessárias mais pesquisas para aprofundar a compreensão da especificidade entre certos tipos de comportamento responsivo e objetivos de desenvolvimento particulares.  

Ampliar nossa compreensão de como as práticas parentais responsivas funcionam para diferentes famílias e crianças ajudaria a elaborar um modelo mais preciso de práticas parentais responsivas. Por fim, determinar quais as medidas de apoio necessárias para ajudar os pais em seu esforço de serem responsivos melhoraria a eficácia de intervenções direcionada à responsividade parental.  

Conclusões 

Segundo muitos estudos descritivos e alguns estudos experimentais, práticas parentais responsivas desempenham importante papel de apoio à aprendizagem de crianças pequenas. É possível afirmar que a responsividade parental desempenha um papel causal, uma vez que maiores ganhos na conduta dos pais, associada a um estilo responsivo, resultaram em maiores ganhos sobre a aprendizagem da criança. Tendo em vista que tanto crianças normais quanto crianças em situação de alto risco foram beneficiadas pela conduta responsiva no plano afetivo-emocional e no plano cognitivo, aparentemente a eficácia da responsividade fica mais clara quando definida como um constructo amplo. Evidências recentes mostram que certos comportamentos responsivos podem fornecer diferentes tipos de apoio à aprendizagem das crianças, e que esse apoio pode variar segundo as necessidades desenvolvimentais da criança. Há muitas novas possibilidades de pesquisa a explorar, e as questões abordadas em estudos recentes devem ser aprofundadas. 

Implicações

A importância das práticas parentais responsivas para o bem-estar da criança tem diversas implicações para políticas. Os formuladores de políticas e os planejadores de programas devem prestar atenção especial aos pais em situação de risco: devem empregar meios para facilitar a modificação de condutas parentais, levando em consideração fatores tais como convicções dos pais, apoio social e saúde mental, para maximizar a eficácia das iniciativas. A síntese de pesquisas deve orientar novos investimentos em programas destinados aos pais e o desenvolvimento de iniciativas de pesquisas sobre práticas parentais responsivas. Frequentemente, a aplicação de políticas e de programas falha por não integrar corretamente a ciência do desenvolvimento. Tendo em vista a importância crucial das primeiras experiências da criança para seu desenvolvimento cerebral, os formuladores de políticas têm interesse em garantir que os ambientes das crianças – por exemplo, o lar e a creche – tenham qualidade suficiente para promover resultados positivos. Quando são realizados novos investimentos com recursos públicos em serviços destinados à criança e à família, há com frequência uma preocupação financeira, o que deveria incentivar maior atenção às evidências baseadas em pesquisas, que podem garantir programas mais eficazes. 

Referências

  1. Bornstein MH, Tamis-Lemonda CS. Maternal responsiveness and cognitive development in children. In:  Bornstein MH, ed. Maternal responsiveness: Characteristics and consequences. San Francisco, CA: Jossey-Bass;1989:49-61.
  2. Ainsworth M, Blehar M, Waters E, Wall S. Patterns of attachment: A psychological study of the Strange Situation. Hillsdale, NJ: Erlbaum; 1978.
  3. Grusec JE, Goodnow JJ. Impact of parental discipline methods on the child's internalization of values: A reconceptualization of current points of view. Developmental Psychology 1994;30(1):1-19.
  4. Rogoff B. Apprenticeship in Thinking. New York, NY: Oxford University Press; 1990.
  5. Stroufe LA. Infant-caregiver attachment and patterns of adaptation in preschool: The roots of maladaptation and competence. In: Perlmutter M, ed. Minnesota Symposia in Child Psychology. Hillsdale, NJ: Erlbaum; 1983:41-83. Vol. 16.
  6. Landry SH, Smith KE, Swank PR. Responsive parenting: Establishing early foundations for social, communication, and independent problem solving. Developmental Psychology 2006;42(4):627-642.
  7. Maccoby EE, Martin JA. Socialization in the context of the family: Parent-child interactions. In: Mussen PH, Hetherington EM, eds. Handbook of child psychology. 4th ed. New York, NY: Wiley; 1983:1-101. Socialization, personality, and social development; vol.  4.
  8. Baumrind D. Rearing competent children. In: Damon W, ed. Child development today and tomorrow. San Francisco, CA: Jossy-Bass; 1989:349-378.
  9. Tomasello M, Farrar JM. Joint attention and early language. Child Development 1986;57(6):1454-1463.
  10. Vygotsky LS. Mind in society: The development of higher psychological processes. Cambridge, United Kingdom: Harvard University Press; 1978.
  11. Landry SH, Smith KE, Swank PR, Assel MA, Vellet S. Does early responsive parenting have a special importance for children's development or is consistency across early childhood necessary? Developmental Psychology 2001;37(3):387-403.
  12. Landry SH, Smith KE, Miller-Loncar CL, Swank PR. Predicting cognitive-linguistic and social growth curves from early maternal behaviors in children at varying degrees of biological risk. Developmental Psychology 1997;33(6): 1040-1053.
  13. Bradley RH, Caldwell BM., Rock S. Home environment and school performance: A ten year followup and examination of three models of environmental action. Child Development 1988;59(4):852-867.
  14. Belsky J, Hertzog C, Rovine M. Causal analyses of multiple determinants of parenting: Empirical and methodological advances. In: Lamb M, Brown A, Rugoff B, eds. Advances in Developmental Psychology. Hillsdale, N.J.: Lawrence Erlbaum Associates;1986:153-202. Vol 4.
  15. Guttentag C, Pedrosa-Josic C, Landry SH, Smith KE, Swank PR. Individual variability in parenting profiles and predictors of change: Effects of an intervention with disadvantaged mothers. Journal of Applied Developmental Psychology 2006;27(4):349-369.
  16. Dieterich SE, Landry SH, Smith KE, Swank PR. Impact of community mentors on maternal behaviors and child outcomes. Journal of Early Intervention 2006;28(2):111-124.
  17. Landry SH, Smith KE, Swank PR, Guttentag C. Responsive parenting: The optimal timing of an intervention across early childhood. Developmental Psychology. Sous presse.

Para citar este artigo:

Landry SH. O papel dos pais na aprendizagem na primeira infância. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Tremblay RE, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/habilidades-parentais/segundo-especialistas/o-papel-dos-pais-na-aprendizagem-na-primeira-infancia. Publicado: Fevereiro 2008 (Inglês). Consultado: 20/08/2018.