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Programas de apoio aos pais e resultados para a criança

Barbara Dillon Goodson, PhD

Abt Associates Inc., EUA

Junho 2005 (Inglês). Tradução: dezembro 2011

Introdução 

Os programas que visam apoiar os pais na educação dos seus filhos existem há mais de um século, com grande variedade de objetivos para as famílias e de tipos de serviços. Atualmente, existem dezenas de milhares de programas, a maior parte deles iniciativas de pequeno porte, baseados na comunidade e dirigidos para a população em geral, atendendo a um número reduzido de famílias de cada vez. As intervenções não são uniformes, mas têm um objetivo comum – melhorar a vida das crianças – e uma estratégia comum – causar impacto sobre as crianças ao provocar mudanças nas atitudes, nos conhecimentos e no comportamento dos pais. Enquanto a maior parte dos programas de apoio aos pais atende a todas as famílias de uma comunidade, nos últimos dez anos as intervenções têm sido dirigidas cada vez mais às famílias cujas crianças enfrentam maior risco de apresentar problemas de desenvolvimento, devido à pobreza ou a outros fatores familiares. Os programas de apoio aos pais destinados às famílias em risco têm priorizado auxiliar as famílias para reduzir e enfrentar as situações de estresse que põem em perigo o bem-estar da criança. 

Do que se trata

Um consenso sólido predomina: os pais são importantes para determinar a maneira como seus filhos se desenvolvem e funcionam. Os dados obtidos em estudos de gêmeos, e também em centenas de estudos correlacionais, estabeleceram conexões entre múltiplas dimensões de comportamentos parentais e diferentes indicadores do desenvolvimento das crianças.1,2 Pesquisas complementares demonstraram a relação entre as práticas parentais e o status socioeconômico das famílias. Esse conjunto de pesquisas sobre o papel central dos comportamentos parentais no desenvolvimento das crianças tem constituído a base teórica das intervenções de apoio aos pais. Os programas de apoio aos pais procuram influenciar o desenvolvimento das crianças ao provocar mudanças no comportamento dos pais por meio de diversos apoios sociais e práticos. Alguns exemplos são a gestão de casos, que vincula as famílias aos serviços; a educação sobre desenvolvimento da criança e práticas parentais; o apoio social, através do relacionamento com os prestadores de serviço e com outros pais. Alguns programas destinados às famílias de baixa renda também procuram melhorar a autossuficiência econômica das famílias, dando apoio aos pais para que atinjam um nível de educação mais elevado, encontrem emprego ou adiem futuras gestações. 

Problemas 

Muitas pesquisas estabelecem um vínculo entre o comportamento parental e o desenvolvimento e a saúde da criança. Brooks-Gunn recentemente resumiu as pesquisas, mostrando que o estímulo para a linguagem e materiais didáticos em casa são as práticas parentais mais relacionadas à prontidão para a escola, ao vocabulário e ao sucesso no início da vida escolar. Por outro lado, as estratégias de disciplina parental e de reforço estão mais fortemente relacionadas aos indicadores sociais e emocionais, como controle do comportamento e da impulsividade e atenção.3 Ou seja, práticas disciplinares que não ajudam as crianças a desenvolver suas próprias normas internalizadas de comportamento podem também influenciar negativamente seu funcionamento social e emocional – sua capacidade de estabelecer relações sociais duráveis, de levar em conta as necessidades e os sentimentos dos outros, de controlar e canalizar seus impulsos, e de concentrar-se para planejar e concluir suas tarefas com sucesso. Igualmente, há evidências de que o apoio e o envolvimento dos pais na escola têm relação com as realizações educacionais de seus filhos, contribuindo para o bom desempenho escolar.4,5 

Ao mesmo tempo, há divergências quanto ao poder da eficácia dos programas de apoio aos pais em relação aos resultados obtidos pelas crianças. Isto acontece uma vez que são raros os estudos com forte validade interna confirmada, isto é, com poucas distorções de diferentes tipos. A questão permanece: é possível modificar o conhecimento, as atitudes e os comportamentos dos pais por meio desses programas? E, em caso de resposta positiva, o quanto essas mudanças acabam por traduzir-se em melhores resultados para a criança? 

Contexto de pesquisa

São relativamente limitadas as evidências que indicam que os programas de apoio aos pais melhoram os resultados obtidos pelas crianças. Isso se deve mais à qualidade do que à quantidade dos estudos de avaliação efetuados. Ou seja, poucos estudos utilizaram um delineamento consistente, seja por meio de experimentos com famílias selecionadas aleatoriamente para receber serviços de apoio aos pais, ou para não receber qualquer tipo de serviço sistemático, seja por meio de um delineamento quase-experimental consistente, com grupos de comparação construídos de maneira adequada. Os dados são mais confiáveis no que diz respeito à prontidão cognitiva da criança ao entrar na escola, o que provavelmente ocorre porque há muito mais medidas padronizadas e normatizadas disponíveis na área cognitiva, ou porque há um interesse maior com relação à prontidão infantil para a escolarização e seu sucesso escolar futuro. As evidências sobre a eficácia dos programas de apoio aos pais no desenvolvimento social e cognitivo da criança estão longe de ser concludentes. A ausência de dados irrefutáveis sobre a repercussão dos programas sobre as crianças abre espaço para diferentes interpretações e conclusões sobre a eficácia dos programas de apoio. 

Questões-chave de pesquisa 

O percurso causal que liga os programas de apoio aos pais aos resultados obtidos pela criança comporta diversos elos, que começam com programas solidamente implantados e níveis adequados de participação dos pais nos serviços. Além desses passos necessários, mas insuficientes, parte-se do pressuposto de que o resultado obtido pelas crianças é modificado pelas mudanças que os programas ocasionam nos pais. Por conseguinte, a primeira questão sobre o impacto dos programas é saber se eles conseguiram mudar as atitudes ou os comportamentos dos pais. Se as mudanças podem ser demonstradas, a próxima questão para a pesquisa é saber se essas mudanças dos pais levam a melhores resultados para as crianças no plano cognitivo ou no âmbito de seu desenvolvimento social e emocional. Uma terceira questão – especialmente difícil de responder, mas muito interessante para os profissionais – diz respeito a que tipo de programas são mais efetivos: há elementos comuns entre os programas mais eficazes, tais como tipo de serviço e de pessoal, métodos de prestação, etc.? Questões de pesquisa mais complexas dizem respeito às intervenções que funcionam, e para quem funcionam: há tipos de apoio aos pais que são mais eficazes para diferentes tipos de famílias e de crianças?  

Resultados de pesquisas recentes 

Uma meta-análise abrangente dos efeitos dos programas de apoio aos pais resume dados de resultados obtidos pela criança para pais e filhos, a partir da avaliação de mais de 200 programas.6 Os efeitos médios sobre os pais apresentaram variações segundo o desfecho analisado. Os efeitos mais importantes foram visíveis nos comportamentos, nas atitudes e nos conhecimentos parentais, em que o tamanho do efeito médio foi de 0,24 (um quarto do desvio padrão na escala em que o desfecho foi medido). Os efeitos do programa sobre o funcionamento familiar e a saúde mental dos pais foram menos importantes, com tamanho do efeito médio inferior a 0,20. Os tamanhos do efeito foram altamente influenciados por alguns programas que mostraram efeitos muito significativos. No conjunto das avaliações, os tamanhos do efeito da maioria dos programas situaram-se na faixa de 0 a 0,15 de um desvio padrão (d.p.). O maior efeito médio ficou em torno de 20% a 25% dos programas com tamanhos de efeito superiores a 0,5 – o que representa um efeito de moderado a grande. Os programas de apoio aos pais também apresentaram efeitos sobre as crianças. Os programas visaram a uma grande variedade de resultados nos planos cognitivo, social e emocional. No campo do desenvolvimento socioafetivo, o efeito médio foi de 0,22; para o desenvolvimento cognitivo, a média foi de 0,29. O efeito médio foi maior para os programas destinados a crianças em idade pré-escolar (média = 0,39 de um desvio padrão). A maioria dos programas de apoio aos pais teve efeitos limitados quanto aos resultados para as crianças, e situam-se em torno de 0 a 0,5 de um desvio padrão.1 a  

O fato de apenas uma porcentagem limitada de programas de apoio aos pais ter apresentado efeitos significativos justifica perguntar se há elementos comuns entre os programas eficazes. A meta-análise sugere que os programas que apresentaram os efeitos mais importantes sobre o desenvolvimento socioafetivo das crianças tinham três características comuns: a) o programa foi direcionado a crianças cujos pais haviam identificado necessidades específicas – por exemplo, um problema de comportamento, de conduta ou atraso no desenvolvimento (também corroborado por Brooks-Gunn1); b) o programa empregou profissionais, e não paraprofissionais; e c) o programa ofereceu oportunidades de encontro entre pais e apoio aos irmãos como parte integrante do serviço. 

De modo geral, a gestão de casos – ou seja, ajudar os pais a identificar suas necessidades e ter acesso aos serviços – não se revelou uma estratégia eficaz. Uma das razões possíveis para essa ausência de efeito seria a não disponibilidade de serviços relevantes – por exemplo, serviço de saúde mental ou acesso a habitação de melhor qualidade. 

Essa meta-análise mostrou também que os programas que combinam apoio aos pais e educação na primeira infância tinham efeitos superiores à média, tanto sobre as crianças quanto sobre os pais. Essas constatações da meta-análise foram corroboradas por dados que indicam que muitos dos programas de intervenção em educação na primeira infância que demonstram efeitos no longo prazo fornecem serviços de suporte de educação na primeira infância e de apoio à família.7,8,9  

Os efeitos mais significativos obtidos por programas de apoio parental que associam trabalho com os pais e serviços educacionais prestados diretamente à criança levam à seguinte questão: qual dos dois componentes – o apoio aos pais ou a educação na primeira infância – é responsável pelos efeitos sobre a criança? A análise dos resultados de um programa intensivo mais antigo de desenvolvimento infantil voltado a crianças com baixo peso ao nascer e seus pais (Infant Health and Development Program) sugere que os efeitos sobre os pais modificam o desenvolvimento cognitivo da criança, e que os efeitos sobre os pais explicam entre 20% e 50% dos efeitos sobre a criança.10 Uma análise recente realizada pela instituição Chicago Child Parent Centers – um programa de educação precoce com um componente de apoio aos pais – examinou os fatores responsáveis pelos efeitos significativos do programa no longo prazo com relação ao aumento das taxas de conclusão escolar e na redução das taxas de detenção juvenil.11 Os autores realizaram análises para testar hipóteses alternativas sobre os caminhos que levam dos efeitos significativos no curto prazo sobre o desempenho escolar da criança, ao final da pré-escola, aos efeitos no longo prazo, incluindo as seguintes questões: a) os estímulos cognitivos e de linguagem fornecidos nas escolas trazem uma vantagem cognitiva contínua às crianças, produzindo efeitos no longo prazo sobre o comportamento dos estudantes; ou b) melhores práticas, atitudes e expectativas parentais, ao lado de maior participação na educação das crianças desde o começo do programa, levam a mudanças sustentadas no ambiente familiar, que dão aos pais melhores condições de apoiar o desempenho escolar e as normas comportamentais, o que, por sua vez, tem efeitos no longo prazo sobre os comportamentos dos estudantes. A modelagem da equação estrutural mostrou que as vantagens cognitivas das crianças e as experiências de apoio da família estavam ligadas aos efeitos que o programa exerce sobre as crianças no longo prazo. Ficou demonstrado que os fatores familiares – envolvimento na escola e redução de abusos e negligência – são mediadores significativos do efeito dos programas pré-escolares sobre a taxa de conclusão do curso secundário, ao passo que no caso das taxas de detenção juvenil, somente a participação dos pais na escola atua como elemento mediador. Além disso, embora tanto as vantagens cognitivas como o apoio familiar expliquem os impactos sobre o desenvolvimento precoce da criança – por exemplo, o desempenho escolar –, o apoio familiar tem uma relação mais estreita com os efeitos sobre a delinquência juvenil, e seu impacto sobre a conclusão escolar é equivalente ao impacto gerado pelas vantagens cognitivas. 

Conclusões 

Continua o debate sobre a eficiência das intervenções de apoio aos pais no desenvolvimento das crianças. As avaliações dos programas mostraram a dificuldade de produzir mudanças sustentadas e abrangentes na conduta dos pais. Ainda mais difícil tem sido comprovar a conexão subsequente entre mudanças nos pais e consequências positivas para o desenvolvimento de seus filhos. Os resultados nessa área são prejudicados por pesquisas cuja validade interna é limitada, ou seja, pesquisas que podem ser afetadas por distorções de diversos tipos. As evidências são mais fortes com relação ao papel que os serviços de apoio aos pais desempenham no apoio ao desenvolvimento cognitivo da criança, principalmente na idade pré-escolar. Os dados são especialmente sólidos para os programas que combinam intervenções de apoio aos pais e a prestação de serviços educativos diretamente à criança, e há evidências de que esses dois componentes contribuem para melhorar os resultados obtidos pela criança. As evidências são menos claras nas áreas de desenvolvimento social e emocional; no entanto, análises longitudinais recentes de um programa que oferece serviços de apoio à primeira infância e aos pais mostram novas evidências que relacionam o apoio aos pais a resultados sociais no longo prazo.12,13 

Implicações 

A grande maioria dos programas de apoio parental é concebida e implementada sem dar atenção à pesquisa ou à avaliação, o que significa que continuamos a promover intervenções de apoio aos pais sem entender se nosso trabalho com os pais pode gerar efeitos para as crianças, e de que maneira isso ocorreria. Isso se verifica especialmente em relação ao funcionamento social e afetivo da criança, devido tanto a medidas inadequadas de avaliação, como à política atual, que prioriza resultados cognitivos da criança, os quais estão associados a realizações escolares específicas, como a aprendizagem da leitura. O papel crítico das práticas parentais na vida da criança é um forte estímulo para que formuladores de políticas e pesquisadores criem programas que tirem proveito desses processos familiares íntimos e poderosos. Até que possamos entender claramente se nossas intervenções com os pais afetam as crianças, e de que maneira o fazem, a relevância desses programas sob o ponto de vista das políticas públicas continuará em questão.

Referências

  1. Brooks-Gunn J, Markman LB. The contribution of parenting to ethnic and racial gaps in school readiness. The Future of Children 2005;15(1):139-168. 
  2. Collins WA, Maccoby EE, Steinberg L, Hetherington EM, Bornstein MH. Contemporary research on parenting: The case for nature and nurture. American Psychologist 2000;55(2):218-232.
  3. Kreider H. A conversation with Jeanne Brooks-Gunn. The Evaluation Exchange Winter 2004/2005;10(4):12-13.
  4. Barnett WS, Young JW, Schweinhart LJ. How preschool education influences long-term cognitive development and school success: A causal model. In: Barnett WS, Boocock SS, eds. Early care and education for children in poverty: Promises, programs, and long-term results. Albany, NY: State University of New York Press; 1998:167-184.
  5. Reynolds AJ, Mavrogenes NA, Bezruczko N, Hagemann M. Cognitive and family-support mediators of preschool effectiveness: A confirmatory analysis. Child Development 1996;67(3):1119-1140.
  6. Layzer JI, Goodson BD, Bernstein L, Price C. National evaluation of family support programs. Volume A: The meta-analysis. Final report. Cambridge, Mass: Abt Associates Inc.; 2001.
  7. Yoshikawa H. Long-term effects of early childhood programs on social outcomes and delinquency. The Future of Children 1995;5(3):51-75. 
  8. Zigler E, Taussig C, Black K. Early childhood intervention: A promising preventative for juvenile delinquency. American Psychologist 1992;47(8):997-1006.
  9. Seitz V. Intervention programs for impoverished children: A comparison of educational and family support models. In: Vasta R, ed. Annals of child development: A research annual, vol. 7. Philadelphia, Pa: Jessica Kingsley Publishers; 1990:73-103.
  10. Brooks-Gunn JC, McCarton CM, Casey PH, McCormick MC, Bauer CR, Bernbaum JC, Tyson J, Swanson M, Bennett FC, Scott DT, Tonascia J, Meinert CL. Early intervention in low-birth-weight premature infants: Results through age 5 years from the Infant Health and Development Program. JAMA -Journal of the American Medical Association 1994;262(16):1257-1262.
  11. Reynolds AJ, Ou SR, Topitzes JW. Paths of effects of early childhood intervention on educational attainment and delinquency: A confirmatory analysis of the Chicago Child-Parent Centers. Child Development 2004;75(5):1299-1328.
  12. Campbell FA, Pungello EP, Miller-Johnson S, Burchinal M, Ramey CT. The Development of Cognitive and Academic Abilities: Growth Curves from an Early Childhood Educational Experiment. Developmental Psychology 2001;37:231-242.
  13. Campbell FA, Ramey CT, Pungello EP, Sparling J, Miller-Johnson S. Early Childhood Education: Young Adult Outcomes from the Abecedarian Project. Applied Developmental Science 2002;6:42-57.

Nota

É importante observar que, tal como outra meta-análises, a meta-análise das avaliações dos programas de apoio parental  mostrou que a amplitude dos impactos de qualquer tipo de programa de apoio parental está fortemente relacionada ao tipo de formato de avaliação. Os maiores efeitos foram registrados em estudos do tipo antes-depois; em segundo lugar vêm os estudos quase-experimentais; e os efeitos mais discretos foram registrados em estudos randomizados.  

Para citar este artigo:

Goodson BD. Programas de apoio aos pais e resultados para a criança. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Tremblay RE, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/habilidades-parentais/segundo-especialistas/programas-de-apoio-aos-pais-e-resultados-para-crianca. Publicado: Junho 2005 (Inglês). Consultado: 16/09/2019.