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Prevenção precoce da obesidade

John J. Reilly, PhD

University of Glasgow, Reino Unido

Janeiro 2006 (Inglês). Tradução: julho 2011

Introdução

Nos últimos anos, uma epidemia de obesidade infantil afetou a maior parte do mundo, e sua prevalência continua a aumentar.1 Crianças pequenas e em idade pré-escolar não ficaram imunes à epidemia. A obesidade tem consequências adversas, tanto em curto prazo (para a criança obesa), quanto em longo prazo (para o adulto que foi obeso na infância).2

Do que se trata

Nossa recente revisão sistemática identificou muitas comorbidades associadas à obesidade infantil. No entanto, essas comorbidades são mais comuns, e mais graves, em crianças mais velhas e em adolescentes do que em crianças pequenas.2 Apesar disso, a obesidade dos 4 aos 5 anos de idade é preocupante, porque tende a persistir. A persistência é mais intensa quando a obesidade é especialmente grave, e quando pelo menos um dos pais é obeso, mas algumas dessas crianças obesas “encontrarão seu peso” e deixarão de ser obesas mesmo sem programas de intervenção.

A obesidade grave antes dos 3 anos de idade é rara, e pode indicar uma condição subjacente de doença e/ou um distúrbio genético, como a Síndrome de Prader-Willi. Crianças menores de 3 anos de idade com obesidade grave devem, portanto, ser identificadas e encaminhadas para cuidados primários ou secundários de saúde para serem examinadas.

A obesidade resulta de pouca atividade física e/ou de aumento de ingestão calórica (alimentar). Como evidenciam estudos recentes que utilizaram medidas objetivas de atividade física e de gasto de energia,4-6 no mundo contemporâneo o nível de atividade física de crianças pequenas pode ser muito baixo, muito inferior aos 60 minutos por dia de atividade física moderada ou intensa recomendados atualmente.3 As restrições no acesso a espaços externos ou em sua utilização para brincadeiras pode ser particularmente importante para limitar a atividade física de pré-escolares.7 A exposição à TV na infância é muito maior do que se imaginava, e normalmente muito superior ao máximo recomendado de duas horas por dia.8 Baixos níveis de atividade física tendem a ter efeitos adversos sobre a saúde óssea e cardiovascular, e possivelmente sobre o funcionamento cognitivo3 e sobre o desenvolvimento socioemocional.10

A base de evidências sobre o diagnóstico de sobrepeso e obesidade tem sido revista e avaliada criticamente de forma sistemática.2,11 Uma base de dados consistente, relativamente grande e de alta qualidade, demonstrou que um índice de massa corporal (IMC) alto para a idade é um critério diagnóstico adequado em relação ao sobrepeso – por exemplo, IMC no 85o percentil ou acima desse nível nas tabelas de referência de IMC do Centro para Controle de Doenças (CDC – Center for Disease Control) dos Estados Unidos – e à obesidade (IMC no 95o percentil ou acima desse nível nessas tabelas). Com esse procedimento, o diagnóstico de sobrepeso e de obesidade tem tido sucesso:

  1. na identificação das crianças com maior sobrepeso na população (sendo que a taxa baixa de falsos positivos aumenta a confiança no diagnóstico); e
  2. na identificação de crianças com alto risco de comorbidades associadas à obesidade.

A maioria dos países dispõe de programas de monitoramento focalizados na primeira infância, e esses programas são potencialmente importantes para a identificação de crianças pequenas obesas ou com risco de obesidade.12

Problemas e contexto da pesquisa 

A falta de programas para crianças pequenas obesas e com sobrepeso é um problema importante. Revisões sistemáticas têm apontado também a falta de evidências sobre intervenções que visam à prevenção e ao tratamento da obesidade em crianças em idade pré-escolar.11,13,14 Os tratamentos tendem a ter mais sucesso quando têm como foco a família (e não apenas a criança obesa),15 se a família está motivada para fazer as mudanças necessárias em seu estilo de vida,15 se o tratamento continua por mais tempo do que é usual (mais sessões, maior duração),15 e se o tratamento aborda, além da dieta, a modificação de comportamentos sedentários (especialmente a exposição à TV).15

Questões-chave de pesquisa

As pesquisas abordaram: se existe evidência disponível sobre as formas mais adequadas de tratamento e de prevenção da obesidade; ensaios com controle casualizado a respeito de intervenções que visam à prevenção da obesidade nos dois primeiros anos de vida; estudos observacionais sobre fatores iniciais de risco para obesidade posterior; e estudos observacionais que tentam quantificar objetivamente o “estilo de vida” de crianças pequenas. 

Resultados de pesquisas recentes

Os alvos mais adequados de intervenções que visam à prevenção da obesidade devem atender certos critérios.16 A intervenção não deve ser prejudicial; deve ter como alvo comportamentos modificáveis que, se modificados, podem promover a saúde ou o desenvolvimento da criança por vias que não a da obesidade; e devem focalizar comportamentos importantes para o desenvolvimento e/ou a manutenção da obesidade. No momento, são relativamente poucos os comportamentos que atendem a esses critérios:16 a promoção do aleitamento materno (leites industrializados aumentam o risco de obesidade posterior); a redução da exposição à TV (que pode aumentar o gasto de energia e/ou reduzir a ingestão energética); a redução do consumo de bebidas adoçadas (que encoraja o excesso de consumo energético); e o aumento de atividade física.

Já foram publicados pelo menos quatro experimentos sobre intervenções para a prevenção da obesidade, a maior parte em creches e pré-escolas.17-20 Essas intervenções focalizaram principalmente a promoção de atividade física e/ou a redução da exposição à TV como formas de prevenção da obesidade. Os experimentos tiveram algum sucesso, mas uma preocupação comum a eles é a possibilidade de generalização das intervenções testadas. O contexto pré-escolar – por exemplo, o ambiente físico e a natureza da educação nas creches – parece ter um efeito significativo sobre a atividade física habitual das crianças.21

Alguns novos fatores de risco para obesidade posterior que atuam na infância foram identificados. A duração do sono é particularmente interessante: crianças que dormem durante períodos mais curtos à noite correm mais risco de obesidade posterior, por motivos ainda não claramente identificados.22 O crescimento rápido (ganho de peso) na infância também parece ser um fator de risco para obesidade posterior, por motivos ainda não claramente identificados.

A falta de evidências e de bons modelos de tratamento da obesidade dificulta o estabelecimento de programas de prevenção e de tratamento. Os objetivos gerais do tratamento recomendado para crianças mais velhas11,15 provavelmente são aplicáveis a crianças mais jovens: a terapêutica deve focalizar algumas mudanças sustentáveis no estilo de vida; deve visar à manutenção, e não à perda de peso. A manutenção do peso com o crescimento em estatura permitirá que, de alguma forma, crianças pequenas “encontrem seu peso”.

Conclusões

Crianças pequenas estão sendo afetadas pela epidemia de obesidade infantil. A obesidade tem uma série de consequências adversas, mesmo na primeira infância. Há uma escassez de evidências de boa qualidade e generalizáveis sobre as intervenções mais adequadas para a prevenção e o tratamento da obesidade antes da idade escolar, mas a literatura atual já apresenta algumas intervenções promissoras. No mundo atual, as crianças pequenas têm um estilo de vida que envolve muito pouca atividade física – e é provável que isso tenha um impacto em termos de obesidade e de doença cardiovascular posterior, e possivelmente efeitos mais amplos sobre o desenvolvimento comportamental, social e emocional e sobre o funcionamento cognitivo.

Implicações

São necessários desenvolvimentos nos serviços de saúde e educação para oferecer monitoramento mais efetivo do sobrepeso e da obesidade na primeira infância, melhor identificação de crianças obesas e com sobrepeso, e apoio maior e mais eficaz às famílias para prevenir/tratar a obesidade. O ambiente físico e cultural contemporâneo parece restringir a atividade física das crianças pequenas, limitar suas oportunidades de brincar e promover comportamentos sedentários. Para que a epidemia de obesidade infantil seja enfrentada de forma eficaz, é provável que sejam necessárias mudanças macroambienais urgentes que promovam atividades físicas e lúdicas. O aumento de atividade física na infância provavelmente traria também muitos outros benefícios.  

Referências

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Para citar este artigo:

Reilly JJ. Prevenção precoce da obesidade. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Orlet Fisher J, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/obesidade-infantil/segundo-especialistas/prevencao-precoce-da-obesidade. Publicado: Janeiro 2006 (Inglês). Consultado: 06/08/2020.