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Programas de educação infantil: Currículos eficazes

Sharon Lynn Kagan, Ed.D, Kristie Kauerz, MA

Teachers College, Universidade de Colúmbia, EUA

Junho 2007 (Inglês). Tradução: novembro 2010

Introdução

Programas de educação e cuidado de alta qualidade têm sido associados a benefícios cognitivos, sociais e emocionais para o desenvolvimento de crianças pequenas no curto e no longo prazo. Quando se discute qualidade, normalmente são avaliadas duas dimensões: (1) variáveis do processo – por exemplo, a natureza das interações das crianças com cuidadores adultos; e (2) variáveis estruturais – por exemplo, as características que podem ser reguladas por políticas e que criam condições favoráveis para o desenvolvimento das crianças, tais como proporção crianças/adulto, tamanho do grupo e capacitação de educadores.1,2 Quando o assunto é qualidade, o currículo – ou o conteúdo do que é ensinado às crianças – somente há pouco tempo passou a ser considerado o ponto focal das discussões. 

Do que se trata

No decorrer da evolução da educação infantil, a questão do currículo tem sido mesclada e frequentemente confundida com outras questões importantes e relacionadas, isto é, crenças, teorias da aprendizagem/pedagogias, e habilidades/padrões. Embora seja um reflexo de princípios ou crenças orientadoras sobre as crianças e a aprendizagem, o currículo é um elemento diferente. Atualmente prevalecem três convicções nesse campo: (a) as crianças são aprendizes motivados e competentes, cuja curiosidade natural promove trajetórias ricas de aprendizagem; (b) as crianças aprendem de forma integrada, de modo que a aprendizagem de áreas específicas – por exemplo, matemática, ciências, linguagem – se realiza melhor no contexto de experiências geradas pela criança – por exemplo, cozinhar, cuidar do jardim, construir; e (c) as crianças precisam ser expostas a todos as áreas do desenvolvimento – físico e motor, linguístico, cognitivo, social e emocional –, de forma que nenhum dessas áreas prevaleça sobre qualquer outra.3,4

Currículo também é diferente de teorias de aprendizagem e pedagogias, embora seja estreitamente ligado a elas. As teorias comportamentais sobre o desenvolvimento infantil conduziram a modelos altamente didáticos de instrução direta, nos quais os educadores normalmente apresentam fatos distintos à turma inteira de crianças, como um grupo. As teorias de desenvolvimento baseadas em maturação, segundo as quais deve-se permitir que as crianças se desenvolvam em seu próprio ritmo, propuseram pedagogias e currículos que possibilitam que as crianças dirijam sua própria aprendizagem. As teorias construtivistas de desenvolvimento infantil propuseram uma pedagogia em que as crianças são parceiros ativos de seu ambiente sociocultural, que inclui educadores e pares de idade. Por fim, currículo não se confunde com habilidades e comportamentos das crianças, mas oferece apoio a essas habilidades e a esses comportamentos. O objetivo do currículo é encorajar os processos de aprendizagem – por exemplo, atenção, observação, memória –, as habilidades cognitivas – por exemplo, raciocínio, comparação e contraste, classificação – e a aquisição de informações específicas – por exemplo, nomes dos números e das letras do alfabeto. Neste sentido, o currículo às vezes é confundido com padrões ou expectativas sobre o que as crianças deveriam saber e fazer. 

Portanto, o currículo deve ser claramente compreendido pelo que é e por sua contribuição singular para os programas de educação e cuidado na primeira infância. O currículo é o conteúdo do que é ensinado e do que é aprendido. 

Problemas

Há três problemas principais para a compreensão da eficácia dos currículos nos programas para a primeira infância. Em primeiro lugar, existe uma persistente falta de clareza sobre as diferenças entre currículo e pedagogia. Em segundo lugar, não há evidências claras sobre a eficácia comparativa de currículos específicos: esforços anteriores de comparação entre modelos curriculares não identificaram superioridade evidente de um deles sobre os outros. Em terceiro lugar, é difícil avaliar a eficácia de um currículo diante de sua interação com outros fatores sociais e educacionais. Os resultados da criança não dependem apenas do currículo, mas também de seu temperamento, do ambiente familiar, da classe social, de tradições culturais e das qualificações e qualidades do professor de educação infantil. 3-5

Contexto de pesquisa

Em meio à busca atual por conseguir melhores resultados para crianças pequenas, existe um momentum crescente no sentido de uma mudança do foco no conjunto das áreas do desenvolvimento para aqueles que promovem uma ênfase maior em alfabetização, linguagem e operações com números. Educadores que trabalham com a primeira infância relatam que sofrem pressões por parte de professores de pré-escola (“jardim da infância”) para que atribuam mais peso a áreas curriculares acadêmicas; esses professores, por sua vez, relatam que sofrem pressões dos professores do ensino fundamental para que se concentrem em um número mais limitado de disciplinas.6 Essa mudança de foco focalizar essas áreas temáticas de maneira mais intensa.7

Questões-chave de pesquisa

A busca por currículos eficazes continua: o governo dos Estados Unidos financia atualmente experimentos randomizados e clínicos com o objetivo de comparar diversos modelos de currículo, para determinar se um ou mais currículos produzem efeitos significativos do ponto de vista educacional em termos de habilidades de linguagem, habilidades preparatórias para a leitura e a matemática, cognição, conhecimento geral e competência social ao término do período da educação infantil e até o final do primeiro ano do ensino fundamental. 

Resultados de pesquisas recentes

Embora os dados ainda não tenham sugerido que algum modelo de currículo em particular seja mais eficaz do que outros, acadêmicos e organizações internacionais importantes que atuam nessa área recomendaram indicadores de eficácia que combinam currículo e pedagogia, entre os quais:3,5,8-10

  • As crianças são ativas e estão envolvidas. As crianças aprendem melhor explorando e pensando sobre todos os tipos de fenômenos. Assim sendo, as crianças precisam ser ativas na aprendizagem, não apenas cognitivamente, mas também fisicamente, socialmente e artisticamente. Um currículo eficaz garante que conceitos importantes sejam ensinados por meio de projetos, experiências do dia a dia, atividades em colaboração e um currículo ativo.

  • As metas são claras e compartilhadas por todos. As metas curriculares devem ser claramente definidas, compartilhadas e compreendidas por todos os adultos envolvidos na aprendizagem da criança – por exemplo, a família, os educadores, os administradores dos programas. O currículo e as estratégias de ensino relacionadas a ele devem ser planejados para ajudar a atingir as metas de forma unificada e coerente. 

  • Os professores têm interações frequentes e significativas com as crianças. Como já foi apontado, o currículo e o conteúdo daquilo que as crianças pequenas precisam aprender, saber e ser capazes de fazer estão estreitamente ligados com a pedagogia e com a forma pela qual esse conteúdo é apresentado. Em consequência disso, a implementação do currículo depende primariamente dos educadores e da natureza de suas interações com as crianças. O envolvimento dos professores com as crianças também lhes permite avaliar regularmente os progressos de cada criança e fazer adaptações na sala de aula, na medida do necessário. Estratégias pedagógicas e de avaliação eficazes dependem, em grande parte, do nível de experiência e do histórico educacional do professor. Para que possa dar apoio a um ensino eficaz, o currículo deve estar vinculado ao desenvolvimento profissional contínuo dos professores. 

  • O currículo está baseado em evidências. O currículo deve ser baseado em evidências relevantes para as crianças que vão vivenciá-lo em termos culturais, linguísticos e de desenvolvimento. Deve ser organizado em torno de princípios de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Caso sejam adotados currículos com temas específicos, estes devem atender também aos padrões de organizações profissionais relevantes – por exemplo, o Conselho Nacional de Professores de Inglês ou o Conselho Nacional de Professores de Matemática. 

  • O currículo é construído a partir de aprendizagens e experiências prévias das crianças. O conteúdo e a implementação do currículo devem estar baseados na aprendizagem individual e específica para a idade das crianças, e devem ser inclusivos em relação a crianças com deficiência. Além disso, para a construção de uma base sólida para a aprendizagem futura, o currículo deve apoiar o conhecimento que as crianças adquirem com suas famílias e suas comunidades, e deve apoiar as crianças cujo idioma materno não é o inglês. Currículos eficazes oferecem orientação, adaptações e estratégias específicas para diversificar as atividades nos diferentes ambientes de aprendizagem e de ensino de acordo com as características, desenvolvimento e o conhecimento prévio das crianças. 

  • O currículo é abrangente. A despeito das pressões pela ênfase em linguagem, alfabetização e matemática, o currículo deve incluir todas as áreas de desenvolvimento, inclusive a saúde física da criança, seu bem-estar, seu desenvolvimento motor, seu desenvolvimento socioemocional, as abordagens à aprendizagem, o desenvolvimento da linguagem e da cognição e os conhecimentos gerais.  Ao invés de adotar uma abordagem escolar, didática, na qual cada assunto é ensinado separadamente e em momentos diferentes, o currículo de programas de educação e cuidado na primeira infância deve integrar a aprendizagem das diferentes áreas de maneira explícita. 

  • O currículo está em sintonia com padrões de aprendizagem e avaliações adequadas. Cada vez mais, os formuladores de políticas e os profissionais preocupam-se com a melhora da qualidade das experiências de aprendizagem da criança. Essa preocupação manifesta-se na atenção crescente a uma abordagem sistêmica e sistemática à responsabilização, que estabelece resultados específicos de aprendizagem – isto é, padrões de aprendizagem inicial –, orientação sobre os conteúdos a serem apresentados a crianças pequenas – isto é, o currículo – e procedimentos de avaliação que documentem os progressos das crianças. No entanto, é insuficiente atender a cada um desses pontos independentemente: o currículo eficaz está em sintonia com padrões e avaliações. 

Conclusões

O currículo, ou o conteúdo que a criança aprende, é fundamental para o apoio e o fortalecimento da aprendizagem e do desenvolvimento de crianças pequenas, porque é a “linha de frente” das experiências infantis. Currículo é um elemento diferente de crenças sobre crianças, pedagogia, padrões de aprendizagem e habilidades das crianças. No entanto, o currículo é fundamental não apenas para os conhecimentos e as habilidades que as crianças adquirem, mas também para a aplicação de abordagens pedagógicas particulares e para a natureza das interações do professor/cuidador com a criança. Tendo em vista o aumento contínuo do número de crianças em programas de educação e cuidado na primeira infância, associado ao foco crescente na preparação para a escola, um currículo eficaz é crucial. Além disso, à medida que aumenta a pressão por responsabilização, as crianças precisam ser expostas aos conteúdos em relação aos quais elas e os professores serão responsabilizados. 

Implicações

Dada a diversidade de crianças que frequentam programas de educação e cuidado na primeira infância é improvável que o campo chegue ou deva chegar a um consenso sobre a superioridade de um único modelo curricular. Currículos eficazes dependem de um equilíbrio entre uma estrutura claramente definida, que gere impacto sobre todas as crianças, e uma flexibilidade que permita a individualização de crianças, famílias e estabelecimentos de educação infantil. Assim, a pesquisa sobre currículos deve identificar as condições sob as quais certos currículos funcionam melhor para certas crianças. Especificamente, a próxima geração de pesquisas deve examinar quais abordagens produzem efeitos significativos em termos educacionais, em quais áreas do desenvolvimento, para quais crianças, sob quais condições sociais, e com que tipos de formação profissional dos professores. Indo além, mas ainda dentro da agenda da pesquisa, é crucial também que os currículos sejam entendidos como conceitualmente distintos da pedagogia, muito embora na prática seus elos sejam inseparáveis. 

Referências

  1. National Institute of Child Health and Human Development Early Child Care Research Network. Child-care structure -> process -> outcome: Direct and indirect effects of child-care quality on young children’s development. Psychological Science 2002;13(3):199–206.
  2. Vandell DL, Wolfe B. Child care quality: Does it matter and does it need to be improved? Madison, Wis: Institute for Research on Poverty; 2000. Recuperado em junho 07, 2006 de http://ecti.hbg.psu.edu/docs/publication/vandell.pdf..
  3. National Research Council. Eager to learn: Educating our preschoolers. Washington, DC: National Academy Press; 2001. 
  4. Kagan SL, Moore E, Bredekamp S, eds. Reconsidering children’s early development and learning: Toward shared beliefs and vocabulary. Washington, DC: National Education Goals Panel; 1995.
  5. Ramey SL, Ramey CT. Early childhood experiences and developmental competence. In: Danziger S, Waldfogel J, eds. Securing the future: Investing in children from birth to college. New York, NY: Russell Sage Foundation; 2000:122–150.
  6. Wesley PW, Buysee V. Making meaning of school readiness in schools and communities. Early Childhood Research Quarterly 2003; 18(3):351-375.
  7. Olfman S, ed. All work and no play: How educational reforms are harming our preschoolers. Westport, Conn: Praeger; 2003.
  8. 8. Espinosa LM. High-quality preschool: Why we need it and what it looks like. New Brunswick, NJ: National Institute for Early Education Research; 2002.
  9. National Association for the Education of Young Children and The National Association of Early Childhood Specialists in State Departments of Education. Early childhood curriculum, assessment, and program evaluation: Building an effective, accountable system in programs for children birth through age 8. Washington, DC: National Association for the Education of Young Children; 2003.
  10. Frede E, Ackerman DJ. Curriculum decision-making: Dimensions to consider. New Brunswick, NJ: National Institute for Early Education Research; 2006.

Para citar este artigo:

Kagan SL, Kauerz K. Programas de educação infantil: Currículos eficazes. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Melhuish E, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/programas-de-educacao-infantil/segundo-especialistas/programas-de-educacao-infantil-curriculos. Publicado: Junho 2007 (Inglês). Consultado: 05/06/2020.