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Resiliência precoce e suas consequências para o desenvolvimento

Arnold Sameroff, PhD

University of Michigan, EUA

Dezembro 2005 (Inglês). Tradução: junho 2011

Introdução

A capacidade das crianças de apresentar um desenvolvimento saudável apesar de muitas dificuldades é frequentemente denominada resiliência. À medida que crescem, as crianças encontram muitos desafios que devem ser superados para alcançar marcadores comuns de sucesso de desenvolvimento, incluindo saúde mental, relacionamentos sociais satisfatórios e êxito no desempenho educacional. Embora a resiliência seja normalmente considerada uma adaptação bem-sucedida a eventos extremos, como maus tratos e pobreza, pode estar envolvida também em respostas a desafios cotidianos – sociais, físicos e intelectuais – que a criança enfrenta.2 No primeiro caso, a resiliência é uma característica evidente apenas em situações de maior adversidade, ao passo que no último, está evidente em todas as situações estressantes.

Crianças expostas a adversidades apresentam piores resultados de desenvolvimento. Crianças expostas a condições de pobreza estão mais propensas a apresentar problemas acadêmicos, incluindo escores mais baixos em testes de desempenho e maior número de repetências e fracassos escolares do que seus colegas mais favorecidos.3 Crianças cujos pais são diagnosticados com transtornos psiquiátricos têm alta probabilidade de também desenvolver problemas mentais.

Apesar dessas desvantagens, a maioria das crianças que vivem em contextos de muito alto risco é capaz de superar essas dificuldades e atingir níveis normais de sucesso no desenvolvimento. Vem aumentando o número de pesquisas que investigam a vida dessas crianças “resilientes” que têm registrado bons resultados de desenvolvimento. Ao invés de concentrar-se nas deficiências de crianças em alto risco, esses estudos têm dado mais atenção à identificação dos fatores que sustentam seu sucesso. Para crianças que conseguem ter sucesso mesmo em condições adversas, a presença de fatores de proteção ou de resiliência podem compensar os fatores de risco em sua vida.5

Do que se trata

É muito importante identificar as fontes de resiliência em crianças competentes, uma vez que é possível empreender esforços para aumentar a resiliência de crianças menos competentes, especialmente aquelas que vivem em condições altamente estressantes. No entanto, a identificação daquilo que constitui a resiliência continua pouco clara.1 É algo que só pode ser identificado posteriormente, ou pode ser previsto a partir de índices de competências desenvolvimentais anteriores? O estudo da resiliência começou com um foco sobre características da criança, mas tem sido ampliado para incluir também o ambiente social, econômico e político. Se a resiliência fosse uma característica contextual, como a situação de ter pais que dão apoio emocional, apenas as crianças cujos pais oferecem apoio demonstrariam resiliência. Se a resiliência fosse uma característica individual, crianças resilientes deveriam ter melhores resultados em todas as circunstâncias. Mas essas hipóteses levam à questão sobre a origem da resiliência individual. Essa resiliência pode estar baseada em alguma característica biológica da criança, como estabilidade emocional, ou pode estar baseada em fatores de desenvolvimento, nos quais um relacionamento seguro com os pais nos primeiros anos de vida gera estabilidade emocional posterior. As respostas a essas perguntas levariam a diferentes abordagens para aumentar a resiliência de crianças.

Problemas

Uma questão fundamental no estudo da resiliência é identificar seu fundamento. O estudo da resiliência tem evoluído em sintonia com uma compreensão mais abrangente das fontes de competência humana. À medida que a psicologia e a psicopatologia do desenvolvimento avançaram para alcançar uma compreensão cada vez mais complexa dos processos psicológicos, qualquer característica individual é considerada em relação à experiência em múltiplas áreas sociais – família, vizinhança, cultura, escola, grupos de pares e momento histórico. Abordagens contextuais veem a resiliência como uma função da capacidade da família e de outros aspectos do ambiente social para atenuar circunstâncias adversas. Tanto em um contexto histórico quanto no presente, experiências são importantes na vida da criança. Abordagens desenvolvimentistas veem as capacidades adaptativas no presente como resultado de adaptações bem-sucedidas a condições estressantes no passado do indivíduo.6 Sob alguns pontos de vista, enfrentar de forma bem-sucedida estressores moderados anteriores pode servir como uma vacina para preparar as crianças contra os efeitos de importantes estressores posteriormente.7

Contexto de pesquisa

A pesquisa sobre resiliência começou com o estudo de crianças que vivem em contextos de alto risco, quer em termos de relações parentais desorganizadas, quer em termos de privação econômica. Embora a maioria das crianças nestes estudos tenha apresentado deficits de desenvolvimento nas áreas de saúde mental e do funcionamento intelectual, havia um grupo de crianças que parecia indiferente a esse tipo de circunstâncias estressantes.8 Inicialmente, as pesquisas sobre resiliência utilizaram amostras formadas por crianças em risco para identificar aquelas que escapavam dos seus efeitos. Contudo, tem sido cada vez mais frequente a utilização de amostras mais representativas para determinar se os mesmos fatores que possibilitam às crianças escapar dos efeitos da adversidade produzem competência em circunstâncias mais favoráveis. Embora inicialmente a origem da resiliência tenha sido apontada como uma característica da criança, as pesquisas apontam cada vez mais a família e os fatores sociais como os elementos que auxiliam a criança a compensar o estresse ambiental.

Questões-chave de pesquisa

  1. A resiliência é diferente da competência? 
  2. A resiliência é resultante de fatores individuais, de contexto ou da combinação dos dois? 
  3. A resiliência é uma capacidade comum, ou existem tipos de resiliência exclusivos para circunstâncias     adversas específicas que não podem ser generalizados?

Resultados de pesquisas recentes 

Resiliência é diferente de competência?

Entre os pesquisadores da resiliência, aqueles mais preocupados com a compreensão de como os indivíduos superam a adversidade enfatizam a diferença entre as definições de resiliência e competência.9 Outros, contudo, descrevem competência e resiliência como subconstructos estreitamente relacionados dentro do construto de adaptação mais amplo.2 Os estudos da competência e da resiliência estão inextricavelmente vinculados, sendo o estudo da resiliência focado mais acentuadamente na adaptação sob circunstâncias de privação, trauma, acidentes ou outras adversidades agudas e crônicas.

A resiliência resulta de fatores individuais, do contexto ou da combinação desses dois fatores?

Crianças com níveis mais altos de competência têm melhores resultados de desenvolvimento sob condições de alto estresse, mas também quando enfrentam desafios mais amenos.10 Entretanto, fatores contextuais desempenham um papel igualmente importante na produção de resultados positivos. O apoio das famílias,6 a aceitação por grupos de pares,11 escolas competentes12 e a eficácia coletiva da comunidade13 – e obviamente, mais recursos financeiros14 – contribuem para resultados positivos de desenvolvimento da criança. O argumento de que a resiliência é resultante de desenvoltura individual fica ainda mais enfraquecido quando são comparadas crianças competentes – sejam elas muito ou pouco competentes – que crescem em ambientes de alto e baixo risco. Crianças altamente competentes que são criadas em ambientes de alto risco têm piores resultados do que crianças de baixa competência que são criadas em ambientes de baixo risco.

A resiliência é uma capacidade geral, ou existem tipos de resiliência específicos para circunstâncias adversas específicas que não podem ser generalizados?

A resiliência passou a ser vista como um constructo multidimensional.1 Por ser normalmente estudada com uma determinada população de risco – por exemplo, crianças que sofrem maus-tratos, crianças criadas por pais psicóticos ou crianças que vivem em condições de pobreza – verificou-se que diferentes processos levam a resultados positivos. Além disso, quando a criança apresenta resiliência em uma área de desenvolvimento, pode ser à custa de mais problemas em outras áreas. Por exemplo, Luthar16 constatou que crianças cuja adaptação foi bem-sucedida, enfrentavam problemas emocionais, como a depressão.

Conclusões  

Em vez de concentrar-se na melhoria de um constructo de resiliência ainda não identificado em indivíduos, os pesquisadores deveriam dedicar mais energia ao estudo dos contextos sociais que promovem resultados positivos. A melhoria da competência individual é uma estratégia importante quando as circunstâncias sociais não podem ser alteradas, mas seria possível alcançar maior proporção de resultados competentes se fossem empreendidos esforços para alterar fatores contextuais, e não fatores individuais.

Estudos dos efeitos de múltiplos riscos ambientais em uma ampla diversidade de condições constataram que o acúmulo de riscos sociais na família, nos grupos de pares, na escola e na comunidade tem um efeito negativo consistente. Quanto mais riscos, piores são os resultados.

Consideradas isoladamente, variáveis como nível de renda e estado civil no contexto familiar e, no contexto pessoal, questões relativas a gênero, raça, eficácia, saúde mental e realizações podem ter efeitos estatisticamente significativos sobre o comportamento das crianças, porém modestos em comparação com o acúmulo de múltiplas influências negativas que caracterizam grupos de alto risco. A sobreposição de resultados das crianças é considerável em casos de famílias de baixa renda versus famílias de alta renda, famílias uniparentais ou biparentais, meninos versus meninas, negros versus brancos, e jovens desenvoltos versus jovens com pouca desenvoltura. No entanto, a sobreposição é muito menor em comparações entre grupos de crianças criadas em condições de altos níveis versus baixos níveis de múltiplos riscos, quando se acumulam os efeitos de gênero, raça, desenvoltura, renda e número de pais em casa.

É preciso ressaltar que a resiliência não é o mesmo que comportamento positivo. Em circunstâncias estressantes com recursos limitados, um ganho individual dá-se à custa da perda de outra pessoa, um resultado anulando o outro. Em tais situações, a resiliência pode assumir a forma de comportamento antissocial, como os recursos obtidos pela criminalidade em ambientes urbanos.

É improvável que exista um fator de proteção universal para todas as crianças. Os fatores positivos que promovem a competência podem variar de acordo com a idade específica da criança e com o resultado de desenvolvimento a ser atingido. Para avaliar corretamente os fatores determinantes da resiliência é preciso dar atenção ao amplo conjunto de fatores ecológicos nos quais os indivíduos e as famílias estão inseridos.

Implicações para políticas e perspectivas de serviços

A compreensão das origens da resiliência é um importante precursor para qualquer intervenção bem-sucedida. Sempre que a resiliência se origina de fatores como família, escola, grupos de pares ou comunidade, as intervenções devem ocorrer nesses cenários. Infelizmente, a maioria das intervenções em um domínio único não gerou resistência significativa a resultados problemáticos. Crianças normalmente enfrentam múltiplos riscos em vários contextos sociais, e, consequentemente, é improvável que seja encontrada uma "pílula mágica" para a prevenção ou para a intervenção.17 Esforços de prevenção e de intervenção que surgem dessas percepções utilizam combinações de estratégias para promover fontes de resiliência múltiplas, e não únicas.18 O Projeto Trilha Rápida, que visa a redução dos problemas de conduta é uma dessas intervenções multifacetadas.19 É preciso atentar cada vez mais para os diversos subsistemas sociais que desempenham papéis importantes na produção ou na redução da competência social e acadêmica.

Referências

  1. Luthar SS, Cicchetti D, Becker B. The construct of resilience: A critical evaluation and guidelines for future work. Child Development 2000;71(3):543-562.
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  10. Garmezy N, Masten AS, Tellegen A. The study of stress and competence in children: A building block for developmental psychopathology. Child Development 1984;55(1):97-111.
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  12. Pianta RC, Harbers KL. Observing mother and child behavior in a problem-solving situation at school entry: Relations with academic achievement. Journal of School Psychology 1996;34(3):307-322.
  13. Sampson RJ, Raudenbush SW, Earls F. Neighborhoods and violent crime: A multilevel study of collective efficacy. Science 1997;277(5328):918-924. 
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  19. Bierman KL, Coie JD, Dodge KA, Greenberg MT, Lochman JE, McMahon RJ, Pinderhughes E, Conduct Problems Prevention Research Group. The implementation of the Fast Track Program: An example of large-scale prevention science efficacy trial. Journal of Abnormal Child Psychology 2002;30(1):1-17.

Para citar este artigo:

Sameroff A. Resiliência precoce e suas consequências para o desenvolvimento. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Masten AS, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/resiliencia/segundo-especialistas/resiliencia-precoce-e-suas-consequencias-para-o-desenvolvimento. Publicado: Dezembro 2005 (Inglês). Consultado: 08/12/2019.