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O temperamento e seu impacto no desenvolvimento infantil: comentários sobre Rothbart, Kagan e Eisenberg

Susan D. Calkins, PhD.

University of North Carolina, EUA

Setembro 2005 (Inglês). Tradução: julho 2011

Introdução

De acordo com observações de Rothbart, Kagan, e Eisenberg, o conceito de temperamento tem sido o foco de um número considerável de pesquisas sobre a psicologia do desenvolvimento e clínica, pois tem o potencial de captar a contribuição da criança para os processos  iniciais do desenvolvimento. O temperamento refere-se a características individuais que, presumivelmente, têm uma base biológica ou genética, que determinam as respostas motoras e de atenção dos indivíduos em diversas situações,  e que têm um papel importante nas interações sociais e no funcionamento social subsequentes. As pesquisas sobre o temperamento inicial concentraram-se na classificação das dimensões do temperamento, abordando questões de mensuração e estabilidade do mesmo ao longo do tempo. Os três autores conduziram uma pesquisa longitudinal importante que visa determinar em que medida o temperamento afeta o desenvolvimento normativo, o ajustamento positivo e o desenvolvimento de psicopatologias. Este trabalho tem um potencial considerável de aplicação, uma vez que pode facilitar o desenvolvimento de intervenções apropriadas, focadas em crianças com tendências temperamentais diferentes que podem estar vulneráveis a dificuldade sociais e de aprendizagem.

Pesquisas e Conclusões

As teorias e pesquisas atuais sobre o temperamento de bebês e crianças e seu papel no funcionamento emocional e no ajustamento comportamental, têm suas raízes no trabalho de Thomas e Chess.1,2,3 Seu trabalho estimulou inúmeros pesquisadores interessados no desenvolvimento sócio-emocional precoce para explorar a noção de que características natas da criança contribuem substancialmente para o comportamento posterior, e para tentar desenvolver estratégias de medição para captar estas características. Teorias subsequentes sobre o temperamento têm variado no número de dimensões de temperamento propostas, na ênfase sobre emoção versus comportamento e na medida emque o ambiente influencia estas tendências iniciais.4,5,6

Rothbart e colaboradores6,7,8,9 articularam uma das teorias de maior influência e grande abrangência sobre o temperamento precoce, que gerou, na última década, uma grande quantidade de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil.10,11,12,13,14 Essa teoria define temperamento de acordo com duas amplas dimensões – reatividade e auto-regulação –, que incluem múltiplas subescalas que dão maior ênfase aos processos básicos da motricidade, das emoções e da atenção.

A respeito da dimensão de reatividade do temperamento, Rothbart observa que os pesquisadores podem classificar as respostas iniciais de um bebê em função de suas reações fisiológicas e comportamentais a estímulos sensoriais de qualidade e intensidade diferentes. Acredita-se que essa reatividade está presente no momento do nascimento e reflete uma característica relativamente estável do bebê.9 A segunda dimensão proposta por Rothbart, a auto-regulação, tem sido amplamente descrita em termos de mecanismos de controle motor e de atenção, que surgem ao longo do desenvolvimento infantil. Por exemplo, o desenvolvimento da atenção e sua utilização no controle da reatividade emocional começam a surgir no primeiro ano de vida e continuam ao longo dos anos pré-escolares e escolares.6,15,16 Diferenças individuais na capacidade de manter voluntariamente o foco ou de mudar a atenção são componentes essenciais do autocontrole da atenção. Em particular, as habilidades orientadas para a atenção foram identificadas como componentes essenciais do processo regulatório, uma vez que a orientação tem efeito direto de ampliar, no nível neural, o estímulo ao qual a atenção é direcionada, mudando a experiência afetiva do indivíduo.17 Portanto, habilidades de orientação auxiliam o gerenciamento de emoções positivas e negativas e, consequentemente. o desenvolvimento do controle adaptativo de emoção e comportamento. Rothbart considera o bebê, em seus primeiros tempos de vida, como um organismo altamente reativo cujo comportamento torna-se, com o desenvolvimento, gradativamente controlado por processos regulatórios. São estes processo regulatórios que podem finalmente determinar o grau de sucesso da criança em dominar suas conquistas de desenvolvimento.18,19

Eisenberg observa a importância de estudar diferenças individuais, assim como o desenvolvimento normativo de uma dimensão-chave do temperamento, o esforço de controle. Essa expressão refere-se a uma classe especial do processo auto-regulatório que se desenvolve com a maturação de mecanismos de atenção, principalmente o sistema de atenção anterior.16 Embora acredite-se que o esforço de controle começa a surgir ao final do primeiro ano de vida, seu desenvolvimento continua no mínimo ao longo dos anos pré-escolares sendo um processo provavelmente envolvido no desenvolvimento de psicopatologias da infância. Eisenberg defende a importancia dos estudos sobre esses processos de esforço de controle ao longo dos primeiros anos de vida, uma vez que possivelmente exercem um papel importante no comportamento adaptativo, assim como sobre os fatores que afetam o desenvolvimento desse controle, incluindo cuidados que podem exercer seus efeitos antes do aparecimento de habilidades reais. 

Kagan20,21 concentra sua teoria do temperamento em dois tipos extremos de crianças – inibidas e desinibidas –  representando perfis biocomportamentais distintos, que levam a padrões de tendências de aproximação versus tendências de retraimento ao longo da infância. Sob seu ponto de vista, a disposição biológica  para a inibição funciona como fundamento, e não como limitação obrigatória. Nem todas as criança inibidas, observa o autor, tornam-se adultos tímidos e ansiosos. Presumivelmente, algumas crianças que demonstram tendências precoces de inibição em seu desenvolvimento devido a sua disposição biológica podem desenvolver estratégias para lidar com essa tendência precoce, para que com o passar do tempo, se envolvam em um comportamento adaptativo e adequado.

A pesquisa citada pelos três autores destaca o valor da compreensão de como e porquê o temperamento inicial afeta o desenvolvimento da criança. Embora reconhecidas, a importância das interações criança-ambiente é minimizada em grande parte desse trabalho. É necessário dar maior ênfase no papel desempenhado por pais, professores e colegas para alterar as tendências iniciais e facilitar o desenvolvimento de auto-regulação apropriada.

Implicações para as políticas e perspectivas de serviços

Rothbart, Kagan e Eisenberg destacam diversas formas por meio das quais o temperamento inicial pode influenciar o desenvolvimento infantil. Uma hipótese, que segue diretamente a teoria de temperamento de Rothbart, é que o temperamento exerce seus efeitos sobre o comportamento da criança por meio do desenvolvimento do sistema auto-regulatório. Trabalhos recentes da neurociência do desenvolvimento sugerem que, em função de sua dependência da maturação das conexões límbicas pré-frontais, o desenvolvimento dos processos auto-regulatórios é relativamente prolongado:22  inicia-se pelo desenvolvimento da regulação básica e automática da fisiologia na infância à regulação mais autoconsciente e intencional da cognição que surge na pré-adolescência.23 Portanto, sob uma perspectiva desenvolvimentista, as oportunidades de sucesso e fracasso da auto-regulação são numerosas ao longo da infância, principalmente tendo em vista o potencial de fatores ambientais – como as práticas parentais – que facilitam ou prejudicam o desenvolvimento nessas áreas.24

Conquistas normativas na auto-regulação constituem a marca de uma adaptação positiva, e fracassos na auto-regulação caracterizam problemas de ajustamento na infância. De fato, muitos consideram o desenvolvimento da auto-regulação emocional, em particular, um dos processos-chave de problemas comportamentais da infância.25,26,27,28 Por exemplo, ao caracterizar o comportamento da criança com problemas de externalização precoce de comportamentos, muitas vezes há referência  à falta de controle, pouco controle ou regulação insuficiente.29,30 Frequentemente, ao caracterizar o comportamento da criança com distúrbios de internalização, surge uma discussão sobre excesso de controle.12 A compreensão do papel do temperamento no desenvolvimento infantil pode ser facilitada pela análise dos possíveis efeitos mediadores da auto-regulação e regulação emocional emergentes, e pode oferecer um mecanismo mais proximal para o desenvolvimento de diferentes formas de  dificuldades de adaptação comportamental que são características da infância.  

Referências

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Para citar este artigo:

Calkins SD. O temperamento e seu impacto no desenvolvimento infantil: comentários sobre Rothbart, Kagan e Eisenberg. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Rothbart MK, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/temperamento/segundo-especialistas/o-temperamento-e-seu-impacto-no-desenvolvimento-infantil. Publicado: Setembro 2005 (Inglês). Consultado: 21/07/2019.