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Prevenção de comportamento agressivo no início da vida: Comentários sobre Webster-Stratton , Lochman, Domitrovich e Greenberg

Kenneth A. Dodge, PhD

Duke University, EUA

Abril 2003 (Inglês). Tradução: abril 2010

Introdução

Os trabalhos de Webster-Stratton, Lochman, Domitrovich e Greenberg fazem uma avaliação e uma síntese do estado dos conhecimentos sobre a prevenção de comportamentos agressivos em crianças pequenas. Nos modelos atuais sobre desenvolvimento de problemas crônicos de agressividade, a ciência do desenvolvimento focalizou o período entre 3 e 6 anos de idade, com base na alegação de ser este o momento na vida em que os padrões de comportamento se tornam relativamente estáveis, preditivos de problemas crônicos de conduta na adolescência, e receptivos a intervenções precoces. Na última década, tomou corpo uma massa crítica de estudos empíricos sobre a eficácia de novos programas de intervenção. Portanto, é adequado que essas revisões tenham sido realizadas neste momento.

Pesquisas e conclusões

Em suas resenhas, Webster-Stratton, Domitrovich e Greenberg, e Lochman resumem as intervenções em categorias que focalizam a criança, os pais ou professores e programas explicitamente multimodais. Suas avaliações sugerem que os resultados mais favoráveis provêm de intervenções focadas nos pais. Programas que ensinam os pais a implementar estratégias consistentes e não violentas para lidar com o mau comportamento da criança têm os efeitos mais positivos na redução da agressividade infantil. Outros programas fornecem algumas evidências de sucesso, mas seus resultados não são tão claros, persuasivos ou numerosos.

Várias conclusões genéricas são consensuais entre os autores. Em primeiro lugar, o número de estudos controlados ainda é considerado relativamente pequeno, e foi sugerido que esses estudos fossem ampliados exponencialmente ao longo da próxima década. Esta sugestão assume significado especial no contexto do atual debate político sobre a natureza da programação da primeira infância. Nos Estados Unidos, o objetivo de melhorar os resultados da educação para as crianças vem levando ao aumento do financiamento para programas de primeira infância que ajudam a preparar crianças de alto risco para o aprendizado na educação infantil.

A controvérsia é se tais esforços devem ser direcionados para o desenvolvimento cognitivo (através de instrução didática direta de fonética e de habilidades preparatórias para leitura) ou para um desenvolvimento socioemocional-comportamental mais abrangente (por meio do provimento de contextos estimuladores, como a creche, e da programação direta do desenvolvimento social da criança). A importância das intervenções na prevenção do comportamento agressivo em crianças de alto risco em idade pré-escolar assume uma importância ainda maior nesse contexto de políticas.

A segunda conclusão a que chegaram os autores foi que a próxima geração de intervenções deve refletir maior compreensão sobre o nível de desenvolvimento das crianças participantes. Programas para crianças de 2, 3 e 4 anos de idade podem ser bastante distintos. Além disso, para oferecer intervenções ótimas para cada criança, pode ser necessária uma avaliação individual dos níveis funcionais de desenvolvimento. Por exemplo, algumas intervenções focalizadas na criança podem ser baseadas em habilidades verbais, na ausência das quais a intervenção resultará ineficaz. Isto é relevante não apenas para crianças de diferentes níveis de desenvolvimento, mas também para crianças imigrantes que ingressam no contexto escolar provindo de contextos linguísticos e culturais diferentes.

A terceira conclusão a que chegaram os autores foi que são necessárias mais pesquisas básicas sobre desenvolvimento para subsidiar a criação de novos programas de intervenção (não é especificada a natureza exata dessas pesquisas na área de desenvolvimento). A maior parte das pesquisas sobre desenvolvimento não se baseia na necessidade de criar intervenções: ao contrário, consiste em testes de hipóteses de teorias básicas de desenvolvimento referentes às crianças individualmente. São necessárias pesquisas de desenvolvimento focadas em problemas, que possam subsidiar mais diretamente o planejamento de intervenções. Por exemplo, intervenções focalizadas com precisão e baseadas em sua adequação à criança poderiam melhorar a relação custo/benefício dos programas. Pesquisas anteriores sobre desenvolvimento são úteis apenas para esboçar categorias gerais de crianças agressivas. Precisamos de pesquisas que examinem critérios ótimos de seleção para inclusão em um programa, benefícios da seleção de crianças com base em avaliação de múltiplos domínios, e custos e benefícios de intervir mais cedo ou mais tarde no período pré-escolar.

Embora, de maneira geral, haja consenso entre os autores, em certa medida alguns dos pontos levantados são contraditórios. Webster-Stratton concluiu que sua intervenção foi o único programa que produziu resultados consistentemente favoráveis, ao passo que os outros autores referem-se a outros programas que também levaram a resultados positivos. Destacam-se: 1) a resenha de Domitrovich e Greenberg e sua avaliação positiva do programa de Shure,1,2,3 focalizado no aumento das habilidades sociais criança; e 2) a resenha de Lochman sobre os programas de Olds,4 que envolvem visitas domiciliares.

Domitrovich e Greenberg concluíram que programas multimodais produzem os resultados mais favoráveis. Esta conclusão tem uma sólida base teórica na pesquisa desenvolvimentista, que associa o desenvolvimento do comportamento agressivo a uma complexa miríade de fatores que envolvem a criança, a família, os colegas, a vizinhança e a escola. No entanto, Domitrovich e Greenberg não apresentaram exemplos de estudos que tenham comparado abordagens unimodais e multimodais. Esses estudos certamente estão garantidos, e seriam necessários para a formulação de qualquer conclusão final.

Uma comparação entre os programas comentados nessas três resenhas sugere que a conceituação de intervenções requer considerações mais amplas e mais inclusivas. Por exemplo, Domitrovich e Greenberg analisaram programas focalizados em pais, e incluíram apenas iniciativas de capacitação de pais em habilidades de gestão do comportamento. Não levaram em consideração os aspectos promissores da abordagem de visitas domiciliares por profissionais de enfermagem, elogiados por Lochman. Isto posto, todo o conjunto de programas considerado por esses autores ainda produziria uma diversidade de serviços decididamente limitada. Talvez a crítica mais importante a essas resenhas seja o fato de excluírem uma conceituação mais ampla de intervenções para a prevenção de comportamento agressivo em crianças pequenas. Efetivamente, pelo menos dois tipos de intervenções poderiam ser acrescentados à lista a ser considerada nesta área. 

Uma intervenção importante que pode ser adotada pelos pais é colocar uma criança em um tipo específico de contexto, em um momento específico de seu desenvolvimento. Os pais podem optar por viver em determinada vizinhança, por trabalhar fora de casa, por ter mais filhos (ou não) em determinado período de tempo. Podem optar também por colocar a criança na creche em determinada idade, e por escolher o tipo de atendimento que a criança receberá (baseado no lar, baseado na escola, etc.). Há um consenso crescente na literatura do desenvolvimento de que colocar a criança muito cedo em um contexto de cuidados coletivos pode ser prejudicial, como também pode ser prejudicial postergar demasiadamente a exposição a crianças não conhecidas. Essas intervenções podem ter efeitos dramáticos no desenvolvimento do comportamento agressivo, e deve-se considerar  sua implementação simultaneamente a intervenções psicológicas estruturadas.

Outra intervenção que talvez tenha o efeito de maior alcance sobre o desenvolvimento agressivo da criança é a oferta de um ambiente familiar seguro, afetuoso, estimulante e estável. A literatura do desenvolvimento sugere que crianças que vivem em famílias sujeitas a estresse, crianças que sofrem abusos físicos ou crianças pobres estão sujeitas a um desenvolvimento agressivo. Intervenções que minimizem o estresse dos pais, que evitem que abusem de seus filhos ou que ajudem as famílias a sair da situação de pobreza podem evitar que as crianças se tornem agressivas. Assim sendo, ações como programas de bem-estar social, subsídios para o atendimento infantil e visitas domiciliares podem ser promissores como intervenções preventivas contra resultados adversos para as crianças. Talvez a próxima geração de resenhas nesta área geral venha a incluir essas intervenções, e talvez a próxima geração de programas de intervenção focalizados em pais venha a incluir considerações desse tipo ao lado de capacitação em gestão do comportamento.

Referências

  1. Shure MB. Preschool. Champaign, Ill: Research Press; 1992. I Can Problem Solve (ICPS): an Interpersonal Cognitive Problem-Solving Program.
  2. Shure MB. Kindergarten and primary grades. Champaign, Ill: Research Press; 1992. I Can Problem Solve (ICPS): an Interpersonal Cognitive Problem-Solving Program.
  3. Shure MB. Intermediate elementary grades. Champaign, Ill: Research Press; 1992. I Can Problem Solve (ICPS): an Interpersonal Cognitive Problem-Solving Program.
  4. Olds D, Henderson CR Jr, Cole R, Eckenrode J, Kitzman H, Luckey D, Pettit L, Sidora K, Morris P, Powers J. Long-term effects of nurse home visitation on children’s criminal and antisocial behavior: 15-year follow-up of a randomized controlled trial. JAMA-Journal of the American Medical Association 1998;280(14):1238-1244.

Para citar este artigo:

Dodge KA. Prevenção de comportamento agressivo no início da vida: Comentários sobre Webster-Stratton , Lochman, Domitrovich e Greenberg. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Tremblay RE, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/agressividade-agressao/segundo-especialistas/prevencao-de-comportamento-agressivo-no-inicio-da-vida. Publicado: Abril 2003 (Inglês). Consultado: 10/04/2020.