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Fontes, efeitos e mudanças possíveis em habilidades parentais: comentários sobre Belsky, Grusec e sobre Sanders e Morawska

Jacqueline J. Goodnow, PhD

Macquarie University, Sydney, Austrália

Março 2006 (Inglês). Tradução: dezembro 2011

Introdução

A pesquisa sobre habilidades parentais é um caminho para compreender o desenvolvimento e uma base potencial para ações clínicas, educacionais e sociais. Os autores trazem a essa pesquisa a hipótese de que a qualidade da prática parental é importante e aberta a mudanças. Também compartilham um registro de rupturas produtivas de algumas abordagens tradicionais, orientando a pesquisa em novas direções e oferecendo mudanças quanto às implicações para a ação. As diferenças aparecem quando os autores consideram a natureza dessas rupturas.

Grusec, por exemplo, parte de um interesse consagrado nos “estilos” gerais de pais (por exemplo, cordialidade, coercividade, consistência, senso de eficácia) e “esquemas” (por exemplo, sua visão quanto a métodos de controle adequados). Há um reconhecimento adicional de que os pais podem ter mais de uma visão sobre os filhos ou sobre as práticas parentais (por exemplo, prática parental como sendo fácil ou impossível). O que importa, portanto, são os pensamentos, sentimentos e ações particulares que afloram em situações específicas, especialmente em situações problemáticas.

Belsky parte do reconhecimento também consagrado de duas influências na prática parental: as características da criança e as dos pais. Com relação às características dos pais, o autor devota um interesse revitalizado no que diz respeito à própria história - nesse sentido, as práticas parentais podem ser “herdadas”. Para ambas, Belsky agrega ênfase no “contexto social mais amplo” (isso inclui o relacionamento entre os pais) e na acumulação de estresses, e sustenta a intervenção de múltiplas influências.

Sanders e Morawska partem de uma tradição de ação que muitas vezes ocorre em uma estrutura clínica. Defendem a ideia de ir além dos pais que já estão vivenciando problemas: todos os pais poderiam beneficiar-se de instrução ou aconselhamento relacionados à natureza do desenvolvimento e a estratégias úteis. A expectativa dos pais, por exemplo, pode tornar-se mais apropriada à idade do filho. Também poderão evitar estratégias coercivas, construindo sua prática parental com base no que já existe de positivo.

Pesquisa e conclusões

Não seria razoável esperar que três trabalhos curtos cobrissem todo o campo de estudo e esclarecessem todas as implicações e orientações. Entretanto, eu gostaria que mais espaço tivesse sido dado a quatro tendências.

A primeira tendência tem a ver com modos de especificar habilidades parentais, dentro e fora de casa. Dentro da família, a habilidade dos pais para interpretar os eventos e estabelecer algum grau de rotina ou padrão na vida familiar surgiu como importante, tanto para a vida diária (por exemplo, entender a televisão, estabelecer regras de segurança) como para momentos traumáticos ou de mudança radical.1-4 Fora da família, as habilidades tomam a forma de atenção ao que a vizinhança oferece e de capacidade de negociação com creches ou escolas para que seus objetivos sejam atingidos.5,6 Tomam a forma também de monitoramento eficaz. Nem sempre os pais estão vendo seus filhos. Precisam ser capazes de manter-se informados sobre o que as crianças fazem, seja verificando diretamente ou – desde cedo – promovendo na criança a disposição para “revelar”.7,8 Para a vida em geral, dentro e fora de casa, a habilidade também pode assumir a forma de preparação eficaz dos filhos para o que eles poderão enfrentar (especialmente enfrentamentos negativos).9,10

A segunda tendência tem a ver com modos de especificar os resultados esperados, para os filhos ou para os pais. É consenso geral que é preciso explicações mais objetivas para identificar quais aspectos da prática parental estão associados a quais resultados, e por intermédio de quais processos, especialmente ao longo do tempo. Precisamos também de uma identificação mais ampla dos resultados em termos relacionais: em termos da noção infantil de reciprocidade, de pertinência a um grupo (por exemplo, “somos uma família”) ou de identidade coletiva.11-14

A terceira tendência tem a ver com maneiras de incluir a criança no contexto de maneira mais plena. Hoje conhecemos melhor as visões dos pais sobre práticas parentais e sobre crianças do que a visão das crianças sobre o que é ser um bom pai ou uma boa mãe, ou o que representa uma prática parental apropriada.15 Esta constatação torna-se ainda mais surpreendente diante das ideias propostas, que mostram o papel central da interpretação da criança no processo de vir a adotar os valores dos pais e vê-los com seus.16,17

A quarta e última tendência que me parece ainda carecer de ênfase tem a ver com diferenças culturais no modo de pensar, sentir ou agir dos pais, tal como foi salientado brevemente por Grusec, e hoje esse aspecto está consistentemente documentado. Essas variações interessam não apenas como uma forma de registrar que as pessoas são diferentes: são também um lembrete vívido da necessidade de examinar os valores e pressupostos de dois grupos, e suas visões mútuas,21 quando um grupo social ou cultural decide que as habilidades de outro grupo precisam melhorar. 

Implicações para políticas

As pesquisas podem contribuir para a ação em duas vias amplas.22 Uma delas é fornecer modelos gerais que orientem as decisões: modelos, por exemplo, de por que os pais agem da maneira como agem ou – menos evidente nestes trabalhos – de como as crianças mudam (por exemplo, modelos que mostrem se a criança se torna mais ou menos agressiva23). A outra via é fornecer questões mais específicas ligadas a políticas: questões sobre por que, quando, quem e como.

As questões sobre “quem” oferecem um ponto de partida para comparação com os trabalhos atuais. Uma abordagem (geralmente descrita como “direcionada”) situa a ênfase em grupos particulares de pais. Grusec, por exemplo, enfatiza os pais que já estão experimentando problemas. A questão crítica diz respeito, nesse caso, a isolar onde o problema está e como se pode lidar com ele. Grusec aponta para o valor de considerar situações problemáticas específicas – em relação à vida diária, isso pode significar localizar exatamente quais são “os piores momentos do dia”, ou os momentos em que os pais estão começando a perder a paciência. A ação pode ser então dirigida a maneiras de lidar com os sentimentos, ideias ou estratégias particulares que são “ativados” nesses momentos e que representam obstáculos no caminho da ação eficaz.

Sanders e Morawska aproximam-se mais de abordagens que foram denominadas “universais”. Para eles, em muitos aspectos, a habilidade para criar os filhos é comparável à habilidade de dirigir um carro. É muito raro que ela venha naturalmente, e é sempre favorecida por algum grau de instrução. Os pais que mais interessam são os de «primeira viagem» (primeiro bebê ou primeira vez que ocorre um problema). Seria possível, entretanto – e Sanders e Morawska sugerem essa expansão – fornecer um combinado de estratégias úteis e informações que serviriam para todos os aspectos comportamentais e todos os grupos de pais, antes ou depois do aparecimento de dificuldades. Isso também poderia ser feito recorrendo-se a outras abordagens, não limitadas à modalidade presencial individual.

Entretanto, nenhum dos trabalhos aponta de maneira enfática para mudanças nos ambientes físico e social. É possível visar a mudanças na forma como funcionam as creches e escolas, para tentar melhorar os contextos sociais (por exemplo, promovendo práticas de trabalho amigáveis aos pais) ou aumentar os recursos financeiros dos pais, de maneira a permitir que sejam direcionados para o que os pais fazem e o modo como as crianças se desenvolvem.24 Belsky, com a ênfase que dá às influências múltiplas na prática parental, é quem mais se aproxima dessa abordagem. Esse autor sustenta que não há uma via única para avançar: pelo contrário, uma variedade de passos pode alterar a acumulação de estresses e apoios que conformam a natureza da prática parental.

De fato, as implicações para a ação são variadas. No entanto, os três trabalhos compartilham a ênfase no fato de que o objetivo maior são as mudanças nas crianças e na interação pais-filhos. Essas mudanças também continuam sendo os indicadores básicos de efeitos para qualquer ação que seja empreendida. Os três oferecem também uma ideia clara das preocupações mais importantes, e uma advertência quanto à necessidade de avançar nas pesquisas e na análise das implicações de seus resultados e de seus conceitos subjacentes para a prática parental.  

Referências

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  22. Goodnow JJ. Parents’ knowledge and expectations: Using what we know. In:  Bornstein MH, ed. Being and becoming a parent. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates; 2002:439-460. Handbook of parenting. 2nd ed; vol 3.
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  24. Huston AC, Duncan GJ, Granger R, Bos J, McLoyd V, Mistry R, Crosby D, Gibson C, Magnuson K, Romich J, Ventura A. Work-based antipoverty programs for parents can enhance the school performance and social behavior of children. Child Development 2001;72(1):318-336.

Para citar este artigo:

Goodnow J. Fontes, efeitos e mudanças possíveis em habilidades parentais: comentários sobre Belsky, Grusec e sobre Sanders e Morawska. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Tremblay RE, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/habilidades-parentais/segundo-especialistas/fontes-efeitos-e-mudancas-possiveis-em-habilidades. Publicado: Março 2006 (Inglês). Consultado: 08/04/2020.