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O impacto da nutrição nos períodos pré-natal e pós-natal inicial sobre o desenvolvimento da criança: Comentários sobre Lumey e Susser, Innis e Atkinson

Lise Dubois, RDt, PhD

University of Ottawa, Canadá

Abril 2004 (Inglês). Tradução: outubro 2011

Efeitos de longo prazo da nutrição pré-natal e no início da vida sobre repercussões psicossociais na vida adulta. Comentários sobre o artigo de Lumey e Susser.

Introdução

O artigo de Lumey e Susser discute a pesquisa sobre os impactos de longo prazo da nutrição pré-natal e pós-natal, com foco nas consequências psicossociais e comportamentais na vida adulta. Trata-se de uma questão importante de saúde e bem-estar para a população em geral. A nutrição inadequada nos primeiros meses de vida, durante a gravidez ou logo após o parto pode afetar o desenvolvimento do cérebro deixando marcas na vida adulta.1 Pesquisas sobre desigualdades sociais e de saúde da população evidenciam como as circunstâncias iniciais de vida são significativas no longo prazo.2,3 São pesquisas importantes, porque identificam fatores que provocam problemas de saúde e bem-estar, possibilitando intervenções tão cedo quanto possível para evitar o surgimento desses problemas. 

Pesquisas e conclusões

As interpretações dos autores baseiam-se na literatura que apresentam. A questão não foi extensivamente estudada, e a comparabilidade dos resultados é problemática. É sempre arriscado tentar tirar conclusões ao associar constatações de estudos com indivíduos que tiveram experiências de fome, de estudos em países em desenvolvimento onde a desnutrição é generalizada e de estudos mais recentes com famílias pobres em países desenvolvidos. Portanto, estou de acordo ser importante planejar estudos que controlem as variáveis em jogo nessas relações. Não concordo que os estudos realizados até o momento sugiram que a desnutrição ou o crescimento provavelmente não estão envolvidos na relação investigada. Por exemplo, estudos clínicos sobre anemia mostram que crianças anêmicas têm dificuldade de concentrar-se na escola e tendem a ser hiperativas.4,5,6  Da mesma  forma, não  podemos  desconsiderar os efeitos do  estresse em meio a famílias pobres que sofrem com a escassez de alimentos.7

Implicações para políticas e serviços    

Concordo com as conclusões dos autores. Crianças que vivem em condições precárias que podem afetar negativamente a nutrição de suas mães durante o período pré-natal e sua própria nutrição no período pós-natal têm também outras necessidades – físicas, emocionais e psicológicas. A simples suplementação nutricional para as crianças, sem levar em conta outros deficits do ambiente familiar, seria eticamente inaceitável. Sabemos, por exemplo, que famílias pobres carentes de alimentos vivenciam situações altamente estressantes que podem restringir a capacidade dos pais de responder às inúmeras outras necessidades de estimulação de seus filhos. Programas de apoio que têm como alvo mulheres grávidas pobres devem focalizar não apenas suas necessidades físicas e nutricionais, mas também questões de baixa autoestima, falta de autonomia e estresse – realidades cotidianas para indivíduos que têm que mendigar comida ou que vivem com medo de não ter o que comer.8 Ao mesmo tempo, crianças que recebem estimulação adequada mas que são mal nutridas também sofrem determinados deficits que afetam seu status nutricional, além dos efeitos da fome e da privação alimentar. Crianças negligenciadas que são alimentadas irregularmente adaptam-se a essa condição ignorando os sinais fisiológicos de fome e saciedade e, no longo prazo, acabam por desenvolver distúrbios de alimentação. É evidente que a suplementação nutricional para famílias necessitadas deve ser acompanhada por apoio psicossocial e econômico, e vice-versa. 

Nutrição e seu impacto sobre o desenvolvimento psicossocial da criança: bebês prematuros. Comentários sobre o artigo de Innis.

Introdução

A autora aborda a relação entre nutrição e desenvolvimento infantil em meio a crianças prematuras. Trata-se de um tema importante uma vez que crianças prematuras apresentam problemas alimentares e perfis de crescimento diferentes dos de outros bebês. Para compensar deficiências de crescimento que podem ter sequelas mais ou menos permanentes para essas crianças, é preciso compreender o papel desempenhado pela nutrição. A proporção de bebês prematuros que sobrevivem vem aumentando regularmente graças aos avanços tecnológicos e médicos no atendimento à infância. É imperativo que encontremos formas melhores de lidar com os problemas que serão enfrentados pelo número crescente de prematuros ou bebês de baixo peso que sobrevivem. 

Pesquisas e conclusões

As interpretações da autora referem-se principalmente ao aspecto fisiológico do desenvolvimento infantil em suas relações com a nutrição. Os estudos mencionados não abordam outros aspectos interferentes de nutrição, parto prematuro e baixo peso ao nascer. Por exemplo, outros fatores – como tabagismo da mãe durante a gravidez, que está positivamente e progressivamente associado com pobreza – podem influenciar as deficiências de desenvolvimento cognitivo e até mesmo deficiências de crescimento.9,12 Em ambientes menos favorecidos, onde a comida é escassa e de má qualidade, a carência de alimentos também pode influenciar o baixo desempenho das crianças quando chegam à idade escolar em comparação com o desempenho de crianças nascidas a termo. Além disso, em meio à determinada população, crianças que apresentaram baixo peso ao nascer tendem a ganhar mais peso no primeiro ano de vida em comparação com crianças com maior peso ao nascer.13,14 Essa “recuperação” de peso por meio da qual crianças BPN acabam por apresentar maior peso do que as demais com um ano de idade é inconsistente com os resultados apresentados pela autora.

Implicações para políticas e serviços

A autora não apresenta sustentação suficiente para suas implicações. Considera apenas o aspecto econômico – ou seja, os custos das intervenções para essas crianças. Há implicações individuais e sociais que deveriam ter sido mencionadas. Por exemplo, crianças que sofrem deficits cognitivos são menos propensas a ter sucesso na escola e a alcançar posições sociais mais elevadas na vida adulta, com implicações previsíveis para a saúde, uma vez que posição social está positivamente e progressivamente associada ao status de saúde e à expectativa de vida.2 Há também questões éticas que precisam ser colocadas neste tipo de abordagem. Não é necessário dizer que pais que estão esperando um bebê querem todo o atendimento possível para manter seu filho ou sua filha vivos, caso nasçam prematuramente; portanto, independentemente do custo, é preciso enfrentar as implicações mais amplas da utilização de tecnologias que possibilitam a sobrevivência de crianças que virão a vivenciar uma variedade de problemas.

Nutrição e seu impacto no desenvolvimento psicossocial da criança: perspectivas para bebês prematuros. Comentários sobre o artigo de Atkinson.

Introdução

Este artigo examina a relação entre nutrição nos primeiros meses de vida e desenvolvimento infantil. Alguns estudos realmente constataram uma relação entre aleitamento materno e desenvolvimento subsequente das crianças. Não está claro se os componentes do leite materno fazem ou não diferença em si e por si mesmos (como elementos essenciais para o desenvolvimento) ou se a diferença resulta de outras características não nutricionais associadas ao aleitamento materno. Essa discussão é importante para a promoção do aleitamento materno e para o desenvolvimento de produtos de melhor qualidade (leite em pó para bebês) para crianças que não são amamentadas ao seio.

Pesquisas e conclusões

Concordo com as interpretações da autora. O leite materno efetivamente contém substâncias que podem desempenhar um papel no desenvolvimento de crianças prematuras, e precisamos continuar a defender o aleitamento materno como um comportamento maternal que apresenta também outros benefícios. No entanto, as constatações dos estudos são contraditórias, uma vez que estão baseados em diferentes protocolos de pesquisa que não fornecem um quadro contínuo.  É necessária uma descrição melhor da relação entre leite materno e desenvolvimento de crianças prematuras, baseada em estudos mais padronizados que isolem o efeito do leite materno do efeito de aspectos psicossociais e econômicos relacionados. 

Implicações para políticas e serviços

As implicações para políticas descritas pela autora apresentam uma perspectiva ampla que inclui saúde e bem-estar das crianças no longo prazo. As implicações para o desenvolvimento de políticas e de programas de nutrição também são importantes. Por exemplo, as recomendações sobre aleitamento materno são importantes para crianças prematuras e com baixo peso ao nascer. Se desenvolver produtos que compensem as deficiências apresentadas por crianças prematuras é importante, trabalhar para evitar o nascimento de crianças prematuras e/ou com baixo peso na população é igualmente essencial, principalmente considerando que tais nascimentos continuam a ser mais frequentes em meio a famílias socioeconomicamente menos favorecidas, que atribuem menor importância ao aleitamento materno.13

Referências

  1. Barker DJP. Fetal origins of coronary heart disease. British Medical Journal 1995;311(6998):171-174.
  2. Evans RG, Barer ML, Marmor TR, eds. Why are some people healthy and others not? The determinants of health of populations. New York, NY: Aldine De Gruyter; 1994.
  3. Keating DP, Hertzman C, eds. Developmental Health and the Wealth of Nations. Social, biological, and educational dynamics. New York/London: The Guilford Press; 1999.
  4. Johnson SR, Winkleby MA, Boyce WT, McLaughlin R, Broaswin R, Goldman L. The association between hemoglobin and behavior problems in a sample of low-income Hispanic preschool children. Journal of Development and Behavioral Pediatrics 1992;13(3):209-214.
  5. Liu J, Raine A, Venables PH, Dalais C, Mednick SA. Malnutrition at age 3 and lower cognitive ability at age 11 years: independence from psychosocial adversity. Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine 2003;157(6):593-600.
  6. Sungthong R, Mo-suwan L, Chongsuvivatwong V. Effects of haemoglobin and serum ferritin on cognitive function in school children. Asia Pacific Journal of Clinical Nutrition 2002;11(2):117-122.
  7. Dubois L, Bédard B, Girard G, Bertrand L, Hamelin AM. Alimentation: perceptions, pratiques et insécurité alimentaire. Dans : Enquête sociale et de santé 1998. Québec, Québec: Institut de la statistique du Québec; 2000.
  8. Rouffignat J, Dubois L, Panet-Raymond J, Lamontagne P, Cameron S, Girard M. De la sécurité alimentaire au développement social. Les effets des pratiques alternatives dans les régions du Québec. 1999-2000. Québec, Québec: CQRS et Ministère de la Santé et des services sociaux; 2001.
  9. England LJ, Kendrick JS, Gargiullo PM, Zahniser SC, Hannon WH. Measures of maternal tobacco exposure and infant birth weight at term. American Journal of Epidemiology 2001;153(10):954-960.
  10. Richards M, Hardy R, Kuh D, Wadsworth EJ. Birth weight and cognitive function in the British 1946 birth cohort: longitudinal population based study. British Medical Journal 2001;322(7280):199-203.
  11. Rondo PHC, Ferreira RF, Nogueira F, Ribeiro MCN, Lobert H, Artes R. Maternal psychological stress and distress as predictors of low birth weight, prematurity and intrauterine growth retardation. European Journal of Clinical Nutrition 2003;57(2):266-272.
  12. Spencer N. Social, economic, and political determinants of child health. Pediatrics 2003;112(3):704-706.
  13. Dubois L, Bédard B, Girard M, Beauchesne É. L’alimentation. Étude longitudinale du développement des enfants du Québec (ÉLDEQ 1998-2002). Les nourrissons de 5 mois. Québec, Québec: Institut de la statistique du Québec; 2000.
  14. Ong KLK, Ahmed ML, Emmett P, Preece MA, Dunger DB. Association between postnatal catch-up growth and obesity in childhood: prospective cohort study. British Medical Journal 2000;320(7240):967-971.

Para citar este artigo:

Dubois L. O impacto da nutrição nos períodos pré-natal e pós-natal inicial sobre o desenvolvimento da criança: Comentários sobre Lumey e Susser, Innis e Atkinson. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/nutricao-na-gravidez/segundo-especialistas/o-impacto-da-nutricao-nos-periodos-pre-natal-e-pos-natal. Publicado: Abril 2004 (Inglês). Consultado: 17/08/2019.