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Segundo idioma/bilinguismo nos primeiros anos de vida, com ênfase em seu impacto sobre o desenvolvimento sociocognitivo e socioemocional inicial

Elena Nicoladis, PhD Monique Charbonnier, PhD Anamaria Popescu, PhD Estudante

University of Alberta, Canadá University of Padova, Itália

Outubro 2016, Ed. rev. (Inglês). Tradução: outubro 2016

Introdução

Muitas crianças crescem ouvindo e utilizando mais de um idioma. Alguns pesquisadores estimaram que a maior parte da população mundial utiliza regularmente mais de um idioma.1 Pais, educadores e legisladores têm o mesmo interesse em resultados de pesquisas sobre bilinguismo na infância, em um esforço concentrado para garantir que o bilinguismo não coloque as crianças em risco em termos intelectuais ou emocionais.  

Uma das primeiras preocupações que os pesquisadores abordaram foi a ideia de que o bilinguismo confundiria as crianças.2 No entanto, as pesquisas mostraram que o bilinguismo não provoca confusão, não tem nenhum impacto negativo inerente sobre o desenvolvimento e, o que é mais importante, tem algumas vantagens sociocognitivas significativas.3 

Do que se trata

Focalizamos aqui o impacto do bilinguismo sobre o desenvolvimento sociocognitivo e socioemocional. O desenvolvimento sociocognitivo refere-se à forma pela qual as crianças mudam com a idade em termos de capacidade de pensar sobre questões sociais e de comunicação. O desenvolvimento socioemocional refere-se a como as crianças mudam com a idade em termos do processamento de emoções em um determinado contexto social e comunicativo.  

Fizemos uma revisão de pesquisas recentes e sua importância para crianças que ouvem e/ou utilizam dois idiomas em algum momento da infância. Em nossa revisão, não fazemos distinção entre crianças que aprendem dois idiomas simultaneamente versus sequencialmente, embora haja algumas evidências de que, quanto mais tarde uma pessoa começa a aprender um segundo idioma, mais baixo é o nível final de desempenho em pelo menos alguns dos domínios da linguagem.4  A maior parte de nossa revisão focaliza o desenvolvimento das crianças na educação infantil e nos primeiros anos de escola. Esta faixa etária está abaixo daquela usualmente considerada crítica para a aprendizagem de um segundo idioma.

Problemas

As crianças bilíngues compõem um grupo heterogêneo.5 Podem falar qualquer combinação de idiomas (ou dialetos), e o apoio da comunidade a esses idiomas pode variar de acordo com a localização geográfica e/ou o contexto sociopolítico.6 Os resultados de desenvolvimento de indivíduos bilíngues em francês-inglês, no Canadá, talvez não sejam preditores do desenvolvimento de bilíngues em híndi-suaíli, na Índia. Da mesma forma, os resultados de crianças bilíngues que aprendem dois idiomas na escola talvez não sejam os mesmos que os de crianças bilíngues que aprendem um idioma na escola e outro em casa.7 Além disso, o grau de proficiência em cada idioma pode mudar ao longo do tempo, geralmente em função de maior ou menor exposição ao idioma.8 

Contexto de pesquisa

Embora o bilinguismo não tenha efeitos negativos inerentes sobre o desenvolvimento, há diversas variáveis que podem afetar o resultado do desenvolvimento bilíngue, entre as quais o contexto em que os idiomas são aprendidos, as atitudes dos pais em relação ao bilinguismo, o status do(s) idioma(s) na comunidade, e o contexto sociocultural em que as crianças vivem.6 O respeito geral e o estímulo em relação aos idiomas que uma criança bilíngue está aprendendo desempenham um papel importante em seu desenvolvimento, promovendo resultados positivos.  

Questões-chave de pesquisa

  1. Existem diferenças entre monolíngues e bilíngues em termos de compreensão das necessidades de comunicação de seus parceiros de conversa?

  2. Existem diferenças entre monilíngues e bilíngues quanto ao desenvolvimento cognitivo?

  3. Quando existem diferenças entre monolíngues e bilíngues quanto ao desenvolvimento sociocognitivo, por que isso ocorre?

  4. Existem diferenças entre monolíngues e bilíngues quanto ao desenvolvimento da linguagem?

Resultados de pesquisas recentes

As pesquisas examinaram mais o desenvolvimento sociocognitivo do que o desenvolvimento socioemocional. O desenvolvimento sociocognitivo interessa aos pesquisadores porque o conhecimento de dois idiomas pode afetar as maneiras pelas quais pensamentos e palavras são processados e representados. Tem havido menos interesse dos pesquisadores sobre a forma pela qual o desenvolvimento socioemocional pode ser afetado, porque não existe um motivo claro para que isso ocorra. No entanto, há algumas pesquisas intrigantes sobre a utilização da linguagem e a compreensão de emoções em adultos bilíngues. Essas pesquisas sugerem que é necessário focalizar mais o desenvolvimento socioemocional em bilíngues. 

Os estudos mostraram que crianças bilíngues têm vantagens em termos de compreensão das necessidades de comunicação de seus parceiros de conversa.8,9,10 Mais cedo do que crianças monolíngues, crianças pequenas bilíngues mostram-se sensíveis ao fato de que não conseguem entender alguém que fala outro idioma.11 Além disso, mais precocemente do que crianças monolíngues, crianças bilíngues evidenciam uma compreensão de que outras pessoas podem ter crenças falsas.12

Os estudos mostraram também que crianças bilíngues obtêm escores mais altos do que as monolíngues em diversos testes de habilidades cognitivas, tais como flexibilidade mental,13 tarefas não verbais de resolução de problemas,14 compreensão da origem convencional de designações,15,16 diferenciação entre semelhança semântica e semelhança fonética,17 e capacidade de avaliar a qualidade gramatical de frases.18

Uma possível razão da vantagem do bilinguismo é que as crianças bilíngues precisam aprender a reduzir as interferências entre seus dois idiomas para falar um deles.16-19 Outra possibilidade é que o bilinguismo treine as crianças em focalizar a atenção nas variáveis relevantes do contexto, particularmente em informações ambíguas ou contraditórias.14 Melhor capacidade cognitiva pode ajudar as crianças a desenvolver as capacidades de representação que se supõe estejam envolvidas na comunicação eficaz. Por exemplo, conhecer duas palavras que nomeiam o mesmo conceito pode ajudar a criança a desenvolver a compreensão de que um objeto ou evento pode ser representado de mais de uma forma, o que pode promover sua compreensão sobre as perspectivas de outras pessoas.  

As pesquisas que investigam de que maneira os bilíngues utilizam seus idiomas para expressar emoções em sua maioria foram realizadas com adultos – em sua maioria, estudos de lembranças autobiográficas20 –, e mostraram que um determinado idioma é uma pista de recuperação eficaz quando se ajusta ao idioma no qual um evento ou uma experiência foram codificados originalmente.21 Normalmente, lembranças codificadas no idioma materno são mais ricas em termos de significado emocional do que lembranças codificadas no segundo idioma.22 Bond e Lai23 argumentam que isso ocorre porque, normalmente, o segundo idioma é adquirido em um contexto emocionalmente mais neutro do que o idioma materno. 

Conclusão

Concluindo, as pesquisas mostraram que o bilinguismo não gera confusão, nem tem impacto negativo inerente sobre o desenvolvimento. Nos primeiros estágios da aquisição de um segundo idioma, crianças que ouvem dois idiomas podem apresentar algum atraso de desenvolvimento em comparação com crianças monolíngues.24 No entanto, de modo geral, crianças bilíngues não ficam atrás de monolíngues em nenhuma das áreas de aquisição da linguagem, e os atrasos observados normalmente são pequenos e pouco duradouros.

Crianças bilíngues apresentam algumas vantagens em desenvolvimento sociocognitivo quando comparadas com monolíngues, particularmente quanto à compreensão de crenças de outras pessoas, à seleção de variáveis relevantes para a resolução de um problema, e à consideração simultânea de duas interpretações possíveis do mesmo estímulo. 

Não existem pesquisas sobre a utilização de linguagem emocional por crianças bilíngues. No entanto, a pesquisa com adultos bilíngues sugere que o idioma no qual os eventos ocorrem pode estar fortemente associado ao tom emocional da lembrança desses eventos. É possível, portanto, que o contexto no qual um idioma é aprendido tenha impacto sobre a capacidade de crianças bilíngues de se expressar, e da precisão com que o fazem. 

Em resumo, não há desvantagens gerais do bilinguismo. Pelo contrário: para a criança, talvez haja desvantagens substanciais na perda de um idioma nativo/herdado, que com frequência está intimamente associado com a família, as emoções e a identidade.6

Implicações para perspectivas de políticas e serviços

As preocupações relevantes para formuladores de políticas e prestadores de serviços giram em torno de duas questões: (1) o idioma de instrução escolar; e (2) o idioma do serviço público. Uma vez que não há evidências de que o bilinguismo tenha impacto negativo sobre o desenvolvimento intelectual e socioemocional das crianças, os pais podem ser encorajados a falar sua língua materna em casa, e permitir que os filhos aprendam na escola o idioma majoritário. Na medida em que seja encorajado o bilinguismo e não a perda do idioma nativo/herdado, as crianças têm maior probabilidade de manter laços fortes com sua cultura e desenvolver laços fortes com a cultura majoritária. 

Uma vez que o idioma pode funcionar como uma pista para a recuperação de experiências pessoais que podem desempenhar um papel central no diagnóstico e/ou no tratamento de diversas condições de saúde mental, os provedores de serviços devem empenhar-se na promoção de políticas que encorajem a oferta de serviços de saúde bilíngues.    

Por fim, é importante notar que talvez seja difícil identificar crianças bilíngues em risco de dificuldades de aprendizagem e de patologias da fala e de linguagem.  Em alguns casos, crianças bilíngues com desenvolvimento normal produzem o mesmo tipo de linguagem que crianças com distúrbios de linguagem.25 Embora os pesquisadores esperem vir finalmente a identificar diferenças entre bilíngues com desenvolvimento típico e crianças com distúrbios de linguagem, neste momento a inexistência de diferenças reconhecidas cria um desafio para os provedores de serviços. Será melhor esperar e desejar que as crianças superem dificuldades aparentes, ou  intervir o mais cedo possível? Um elemento que pode contribuir para essa decisão são informações sobre a maneira pela qual a criança se comporta em seu idioma materno. Os distúrbios de linguagem normalmente afetam os dois idiomas. 

Referências

  1. Edwards J. Foundations of bilingualism. In: Bhatia TK, Ritchie WC, eds. The handbook of bilingualism. Malden, Mass: Blackwell Publishing; 2004:7-31.
  2. Genesee F. Early bilingual development: One language or two? Journal of Child Language 1989;16(1):161-179.
  3. Genesee F. Bilingual first language acquisition: Exploring the limits of the language faculty. Annual Review of Applied Linguistics 2001;21:153-168.
  4. Montrul S. Age of onset of bilingualism effects and availability of input in first language acquisition. In Bilingualism across the lifespan. Washington, DC: De Gruyter Mouton & APA; 2016: 141-161.Hamers JF, Blanc MHA. Bilinguality and bilingualism. 2nd ed. Cambridge, England: Cambridge University Press; 2000.
  5. Genesee F. Shifting perspectives on bilingualism. In bilingualism across the lifespan. Washington, DC: De Gruyter Mouton & APA; 2016:9-19.
  6. Hamers JF, Blanc MHA. Bilinguality and bilingualism. 2nd ed. Cambridge, England: Cambridge University Press; 2000.
  7. Cummins J. The role of primary language development in promoting educational success for language minority students. In: California Department of Education. Schooling and language minority students: A theoretical framework. Los Angeles, Calif: Evaluation, Dissemination and Assessment Center, California State University; 1981:3-49.
  8. Nicoladis E, Genesee F. A longitudinal study of pragmatic differentiation in young bilingual children. Language Learning 1996;46(3):439-464.
  9. Yow WQ, Markman EM. Young bilingual children's heightened sensitivity to referencial cues. Journal of Cognition and Development 2011; 12(1), 12-31.
  10. Lanza E. Can bilingual two-year-olds code-switch? Journal of Child Language 1992;19(3):633-658.
  11. Nicoladis E, Kwong See S, Rhemtulla M. Are mutual exclusivity violations guided by children's assumptions about people's word knowledge? Communication présentée au: 35th Annual Meeting of the Jean Piaget Society; 2005; Vancouver, Colombie-Britannique.
  12. Goetz PJ. The effects of bilingualism on theory of mind development. Bilingualism: Language and Cognition 2003;6(1):1-15.
  13. Marinova-Todd SH. "Corplum is a core from a plum": The advantage of bilingual children in the analysis of word meaning. Bilingualism: Language and Cognition 2012; 15: 117-127.
  14. Bialystok E, Majumder S. The relationship between bilingualism and the development of cognitive processes in problem solving. Applied Psycholinguistics 1998;19(1):69-85.
  15. Benelli B, Gandolfi M. Bilinguismo e convenzionalita’ del linguaggio. Quaderni per la promozione del bilinguismo 1979;25/26:1-24.
  16. Ben-Zeev S. The influence of bilingualism on cognitive strategy and cognitive development. Child Development 1977;48(3):1009-1018.
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  20. Javier RA, Barroso F, Muñoz MA. Autobiographical memory in bilinguals. Journal of Psycholinguistic Research 1993;22(3):319-338.
  21. Marian V, Neisser U. Language-dependent recall of autobiographical memories. Journal of Experimental Psychology: General 2000;129(3):361-368.
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  23. Bond MH, Lai TM. Embarrassment and code-switching into a second language. Journal of Social Psychology 1986;126(2):179-186.
  24. Nicoladis E. Why does bilingualism affect language and cognitive development? In: Altarriba C, Heredia R, eds. An introduction to bilingualism: Principles and practices. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates. À paraître.
  25. Genesee F, Paradis J, Crago MB. Dual language development and disorders: a handbook on bilingualism and second language learning. Baltimore, Md: Paul H. Brookes Publishing; 2004.

Para citar este artigo:

Nicoladis E, Charbonnier M, Popescu A. Segundo idioma/bilinguismo nos primeiros anos de vida, com ênfase em seu impacto sobre o desenvolvimento sociocognitivo e socioemocional inicial. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/segundo-idioma/segundo-especialistas/segundo-idiomabilinguismo-nos-primeiros-anos-de-vida-com-enfase. Atualizada: Outubro 2016 (Inglês). Consultado: 23/08/2019.