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Temperamento inicial e desenvolvimento psicossocial

Mary K Rothbart, PhD.

University of Oregon, EUA

Julho 2005 (Inglês). Tradução: julho 2011

Introdução

O temperamento, definido como diferenças individuais em reatividade e auto-regulação baseadas na constituição do indivíduo e observadas na emotividade, na atividade e na atenção da criança, tem uma história antiga. Recentemente, tornou-se também uma área de pesquisa cada vez mais importante sobre o desenvolvimento infantil. Atualmente, a influência do temperamento sobre a trajetória e os resultados do desenvolvimento foi reconhecida, mesmo em áreas que são tradicionalmente consideradas quase exclusivamente como resultado de socialização – tais como, problemas de conduta, empatia e desenvolvimento da consciência.1 

Do que se trata

Temperamento designa as diferenças individuais no bebê e em crianças pequenas que existem antes mesmo do desenvolvimento de muitos dos aspectos mais cognitivos da personalidade. Compreende as variações na afetividade e aproximação positivas, medo, frustração, tristeza e desconforto, assim como reatividade de atenção e controle do comportamento, pensamento e emoção.1 As disposições de temperamento, que se refletem na aproximação ou afastamento de objetos, pessoas e eventos,2 são elementos críticos  para o desenvolvimento da competência e da motivação.3

Problemas

As pesquisas sobre temperamento na infância estão fundamentadas em múltiplos métodos que incluem questionários e observações, e cada abordagem apresenta vantagens e desvantagens.1 Do lado positivo, questionários de relatos dos cuidadores têm baixo custo administrativo e estão baseados em uma ampla gama de comportamentos observados por pais ou professores. As observações de laboratório permitem que os pesquisadores controlem e manipulem o ambiente para medir precisamente o tempo de reação, intensidade e duração do comportamento da criança, ao passo que observações naturalistas em casa ou na escola permitem codificação objetiva  e validade ecológica.1

Cada um destes métodos também apresenta alguns problemas. Os relatos dos cuidadores podem ser tendenciosos devido ao desejo  de retratar a criança de maneira agradável. As observações em laboratório sofrem  de limitações  quanto aos dados sobre variação e frequência de comportamentos que podem ser obtidos, e com frequência alguns efeitos são tranferidos de um episódio para  outro. Observações naturais  frequentemente são caras e consomem tempo, requerendo múltiplas visitas para que se possa obter uma amostra confiável do comportamento da criança. Embora nenhum método seja completamente isento de erros, cada um fornece ferramentas para melhorar a compreensão sobre temperamento e suas relações com os resultados do desenvolvimento.1

Contexto de Pesquisa

As pesquisas sobre o temperamento na infância têm sido amplamente influenciadas pelo New York Longitudinal Study (NYLS) – Estudo Longitudinal de Nova Iorque.4 Thomas, Chess e colegas entrevistaram os pais  de bebês entre 2 e 6 meses de idade sobre o comportamento de seus filhos e, por meio da análise do conteúdo, identificaram nove dimensões do temperamento: nível de atividade, ritmo, aproximação-retraimento, adaptabilidade, limiar de responsividade, intensidade, humor, nível de distração, e capacidade de atenção e persistência. Entretanto, mais recentemente, foram incorporadas revisões à relação de Thomas e Chess,1 que são enumeradas a seguir na seção Resultados de Pesquisas Recentes.

Perguntas-chave de Pesquisa

  1. Quais são as principais dimensões do temperamento durante a lactância e a infância?
  2. De que forma se desenvolve o temperamento?
  3. Quais resultados psicossociais estão associados com o temperamento?
  4. Quais são as contribuições neurais, genéticas e empíricas para o temperamento?

Resultados de Pesquisas Recentes

A análise de fatores do temperamento da criança levou a uma relação revisada das dimensões do temperamento no período de lactância e na primeira infância:1,5,6 1) afetividade positiva; 2) nível de atividade; 3) medo; 4) raiva/frustração; 5) orientação de atenção; e, mais tarde na primeira infância, 6) controle de atenção e persistência, ou seja, capacidade de inibir uma resposta dominante para apresentar uma resposta subdominante.  

Durante os primeiros anos de vida, três fatores têm sido consistentemente encontrados nos relatos dos pais sobre o temperamento: auto-confiança ou extroversão, relacionada a afetividade positiva e atividade; afetividade negativa, relacionada a emoções negativas; e controle de atenção e persistência, relacionado ao controle da atenção, da inibição e da  ativação. Estes fatores foram associados a sistemas cerebrais responsáveis pelas emoções e pela atenção em humanos e não-humanos.1

O temperamento também se desenvolve. Durante os primeiros meses de vida, podem ser observadas diferenças individuais em relação à orientação da atenção, propensão à angústia, afeto positivo e aproximação e frustração. Aos seis meses de idade, quando são apresentados a objetos, alguns bebês mostrarão uma aproximação rápida tentando alcançá-los e tocá-los, ao passo que outros se aproximarão mais lentamente.7 As tendências de aproximação dos bebês,  o sorriso e a risada em laboratório predizem extroversão aos sete anos de idade,8 relatada pelos pais.

A partir do final do primeiro ano de vida, podem ser observadas diferenças individuais na inibição por medo a estímulos novos ou intensos. A inibição por medo opõe-se a tendências de aproximação, de modo que alguns bebês, que anteriormente haviam respondido rapidamente a novos objetos ou pessoas, podem agora aproximar-se de forma mais lenta, ou simplesmente não se aproximar. A inibição por medo mostra uma estabilidade considerável e está relacionada ao desenvolvimento posterior de empatia, culpa e vergonha na infância.2,9 Crianças temerosas tendem a desenvolver consciência precoce10 mais acentuada e a obter mais benefícios de uma disciplina parental flexível que propicie uma consciência internalizada. Aparentemente, crianças menos medrosas obtêm mais benefícios da responsividade materna e de sua própria segurança de apego para desenvolver sua consciência.

Ao final do primeiro ano de vida, o esforço de controle começa a se desenvolver, fornecendo meios adicionais para regular as tendências das reações. O sistema cerebral que é responsável pelo esforço de controle é chamado de sistema de atenção executiva.11,12 Com o desenvolvimento da atenção executiva, aumenta também a capacidade de manter a atenção focalizada por períodos mais longos. A atenção sustentada e a capacidade para evitar tocar em um brinquedo proibido na infância são preditores significativos do esforço de controle aos 22 meses de idade.13 Verifica-se também uma estabilidade no longo prazo em relação à capacidade das crianças de postergar a recompensa: no caso de crianças em idade pré-escolar, essa capacidade é preditiva da capacidade de atenção, de concentração e de controle em relação aos afetos negativos  na adolescência, segundo relato dos pais.14 O esforço de controle está fortemente relacionado à obediência da criança e ao desenvolvimento de empatia, culpa ou vergonha.

Estudos baseados em neuroimagens permitem aos pesquisadores identificar tarefas que ativam as redes cerebrais responsáveis pelo temperamento, e estas tarefas foram adaptadas a crianças de diferentes idades para estudar o desenvolvimento dos sistemas de temperamento.15 Tais tarefas foram utilizadas no estudo do desenvolvimento da orientação de atenção e do esforço de controle, mas é provável que outras dimensões possam ser medidas de forma semelhante. O desempenho nestas tarefas em laboratório está positivamente relacionado aos relatos dos pais sobre a capacidade das crianças de controlar a atenção e a emoção.15,16 Nos adultos, o desempenho dessas tarefas está associado à ação de genes específicos, e evidências significativas confirmam a tese de que  o temperamento é herdado.

Foi constatada também uma associação entre o temperamento e o desenvolvimento de psicopatologias.1,11 O temperamento pode intensificar as reações a eventos estressantes ou amortecer os riscos, e foram encontradas relações entre inibição temerosa ligada ao  temperamento e ansiedade posterior, afeto negativo e depressão. A extroversão/autoconfiança e baixo nível de esforço de controle também foram associados ao desenvolvimento de problemas comportamentais.

Conclusões

A relação das nove dimensões do temperamento identificadas por Thomas e Chess4 foi revista a partir dos resultados de novas pesquisas: as dimensões básicas mais amplas incluem Extroversão/auto-confiança (afeto positivo, maior nível de atividade, impulsividade, assumir riscos); Afetividade negativa (medo, raiva, tristeza, desconforto); e Esforço de Controle (deslocamento de atenção e foco, sensibilidade perceptual, controle através da inibição  e da ativação). Recentemente, também passou-se a avaliar o comportamento afiliativo.17 Constatou-se que há  ligação entre afetividade negativa e extroversão e problemas comportamentais,  ao passo que o esforço de controle se  relaciona à adaptação e a menos problemas comportamentais. Tanto o medo como o esforço de controle são preditivos do desenvolvimento da consciência. Verificou-se também um número cada vez maior de associações entre o temperamento e os processos genéticos e cerebrais.

Implicações

As pesquisas sobre temperamento mostram a importância de capacitar cuidadores, professores e pais, para que percebam que o comportamento e as emoções das crianças não resultam unicamente da aprendizagem social. Pelo contrário, as crianças diferenciam-se desde a mais tenra idade quanto ao modo como reagem aos acontecimentos e quanto à sua auto-regulação, e podem seguir trajetórias diferentes de desenvolvimento. O temperamento também faz com que intervenções específicas estejam indicadas – tais como melhorar a capacidade do controle de atenção, utilizado com sucesso em meio a crianças de quatro anos de idade,12  podendo ser adaptado ao ambiente pré-escolar. Tal habilitação mostrou-se útil também para crianças com TDAH,18 e parece ter efeitos de ordem geral no processo cognitivo das crianças.  

Referências

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  18. Klingberg T, Forssberg H, Westerberg H. Training of working memory in children with ADHD. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology 2002;24(6):781-791.

Para citar este artigo:

Rothbart MK. Temperamento inicial e desenvolvimento psicossocial. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Rothbart MK, ed. tema. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/temperamento/segundo-especialistas/temperamento-inicial-e-desenvolvimento-psicossocial. Publicado: Julho 2005 (Inglês). Consultado: 13/12/2019.