Voltar às publicações recentes

O papel dos pais na transição da criança para a escola

Philip A. Cowan, PhD, Carolyn Pape Cowan, PhD.

University of California, Berkeley, EUA

Março 2009 (Inglês). Tradução: dezembro 2011

Introdução

O modelo explicativo que predomina sobre o sucesso da transição das crianças da educação infantil para o ensino fundamental parte do princípio de que os principais riscos e fatores de proteção dependem basicamente da criança, no que diz respeito a sua «prontidão» cognitiva e emocional no momento do ingresso na educação infantil.1 De acordo com essa hipótese, a maioria dos esforços de intervenção envolve tentativas baseadas na escola para melhorar as habilidades cognitivas e de autorregulação das crianças. Apenas agora começam a ser produzidos estudos sobre o contexto social e os relacionamentos que afetam a transição das crianças para a escola. Surpreendentemente, apesar do reconhecimento geral de que os relacionamentos pais-filhos constituem um contexto central para o desenvolvimento da criança,2 pouca atenção tem sido dada ao papel que os pais desempenham na transição da criança para o ensino fundamental, e praticamente nenhuma atenção tem sido dada ao planejamento ou à avaliação das intervenções destinadas aos pais de crianças em idade pré-escolar. Nosso intuito é preencher essa lacuna. 

Do que se trata 

Na maioria dos estudos sobre o desenvolvimento da criança, «pais» significa a mãe, e as práticas parentais são estudadas fora dos demais contextos familiares e sociais nos quais o relacionamento pais-filhos se desenvolve. Apresentamos um modelo que envolve múltiplas áreas do desenvolvimento da criança e situa os relacionamentos mãe-filho e pai-filho em um sistema de relacionamentos dentro e fora da família, com atenção especial à qualidade do relacionamento entre os pais. Descrevemos em seguida os resultados das intervenções preventivas baseadas em nosso modelo conceitual, na forma de um grupo de casais conduzido por profissionais com capacitação em saúde mental. 

Problemas 

Têm sido bem documentados os desafios enfrentados pela criança que se prepara para ingressar na educação infantil.3,4,5 O que torna especialmente importante esse período de transição no desenvolvimento é a consistência das evidências para uma «hipótese de trajetória», tanto nas amostras de classe média como nas de baixa renda: o desempenho acadêmico e social da criança no ciclo inicial do ensino fundamental é um preditor importante de seus resultados escolares, sociais e de saúde mental ao longo do ensino fundamental e médio.6,7,8 Essas constatações significam que as intervenções voltadas para melhorar a situação da criança no momento de seu ingresso na escola podem trazer benefícios no longo prazo. 

Contexto e lacunas de pesquisa 

As pesquisas que pretendem demonstrar a importância dos relacionamentos pais-filhos na adaptação escolar da criança apresentam diversas lacunas importantes. Faltam estudos longitudinais que reconstituam as trajetórias familiares ao longo da transição para a escola. As informações sobre o papel potencial do pai na transição são extremamente raras. São muito poucos os estudos que examinam os demais aspectos do contexto do sistema familiar que podem afetar o desempenho da criança – por exemplo, a relação do casal. Por fim, excetuando-se as intervenções iniciais baseadas na escola que focalizam a prontidão da criança, dispomos de poucas evidências sobre as intervenções que focalizam a família no período pré-escolar, o que poderia ajudar as crianças a enfrentar os novos desafios para uma escolarização bem-sucedida. 

Questões-chave de pesquisa 

O que a pesquisa atual nos informa sobre o papel dos pais na definição da forma de transição da criança para a escola? O que nos dizem os resultados sobre intervenções que podem dar um impulso à criança no momento da transição para o ensino fundamental? 

Resultados de pesquisas recentes 

Correlações concorrentes. Inúmeros estudos estabeleceram que filhos de pais que se mostram afetuosos, que são receptivos às questões e às emoções da criança, que fornecem uma estrutura, fixam limites e exigem competência (pais autoritativos, segundo os termos de Baumrind) têm maior probabilidade do que outras crianças de serem bem-sucedidos nos primeiros anos de escolarização e de terem um bom relacionamento com seus colegas.9,10,11 O problema com esses estudos é que eles não estabelecem uma relação antecedente-consequente. 

Estudos longitudinais. Somente alguns estudos – inclusive dois de nossa autoria – fazem uma avaliação das famílias durante o período pré-escolar e novamente após o ingresso da criança no ensino fundamental.8,12,13 O resultado básico é razoavelmente consistente ao longo da transição no que diz respeito às características das mães, dos pais e das crianças; as práticas parentais autoritativas das mães e dos pais no período pré-escolar explicam a variação significativa no desempenho escolar da criança e no seu comportamento de externalização ou internalização com seus colegas, dois ou três anos mais tarde. 

O contexto de múltiplos domínios das práticas parentais. Nossos resultados apoiam um modelo de risco dos sistemas familiares,14 que explica o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças com a utilização de informações sobre cinco tipos de fatores de risco ou de proteção para a família: 1) o nível de adaptação, a autopercepção, a saúde mental e o sofrimento psicológico de cada membro da família; 2) a qualidade dos relacionamentos mãe-filho e pai-filho; 3) a qualidade do relacionamento entre os pais, incluindo estilos de comunicação, resolução de conflitos, tipos de resolução de problemas e regulação emocional; 4) os padrões dos relacionamentos de casal e dos relacionamentos pais-filhos transmitidos de geração em geração; e 5) o equilíbrio entre os fatores de estresse e o apoio social fora da família imediata. A maioria dos estudos sobre o desenvolvimento das crianças concentra-se em um ou no máximo dois dos cinco fatores de risco ou de proteção familiar. Demonstramos que cada um desses domínios, principalmente a qualidade do relacionamento do casal, contribui de maneira única para o prognóstico das competências escolares e sociais das crianças e de seu comportamento de internalização e externalização de problemas no início do ensino fundamental.15 Em conformidade com os estudos de prevenção, identificamos uma série de fatores a serem considerados nas intervenções, para diminuir a probabilidade de que a criança encontre dificuldades e para aumentar a probabilidade de que evidencie competências intelectuais e sociais no início do ensino fundamental. 

Intervenções sobre práticas parentais baseadas na família. Ao longo dos últimos 35 anos, conduzimos dois experimentos clínicos randomizados, nos quais alguns casais foram designados aleatoriamente para participar de grupos de casais dirigidos por profissionais capacitados em saúde mental, enquanto outros não o foram. Os coordenadores (homem-mulher) realizaram encontros semanais com os casais durante pelo menos quatro meses. 

No projeto Becoming a Family Project (Tornar-se uma Família), 12 acompanhamos 96 casais, com entrevistas, questionários e observações, durante cinco anos, do meio da gestação até a conclusão da educação infantil do primeiro filho. Foi proposto a alguns casais que esperavam um bebê, designados aleatoriamente, que participassem de grupos de casais que se reuniam com seus coordenadores por 24 semanas durante seis meses. Cada sessão do grupo compreendia um momento aberto ao diálogo sobre os eventos pessoais e as preocupações e sobre um assunto relativo a um dos aspectos da vida familiar, de acordo com nosso modelo conceitual. Entre os casais de “pais de primeira viagem”, constatamos que houve uma queda da satisfação do casal entre àqueles que não tiveram a intervenção, enquanto que aqueles que participavam dos grupos mantiveram o seu nível de satisfação pelos cinco anos seguintes, até a conclusão da educação infantil de seus filhos. Cinco anos após a dispersão dos grupos, a qualidade do relacionamento do casal e do relacionamento pais-filhos avaliada quando a criança tinha 3 anos e meio de idade foi significativamente correlacionada à adaptação da criança à educação infantil (autorrelato da criança, avaliação dos professores e resultados de testes). 

Um segundo estudo de intervenção – o School Children and their Families Project (Projeto Crianças Escolarizadas e suas Famílias)16 acompanhou outros cem casais desde o ano anterior ao ingresso de seu primeiro filho na educação infantil até a criança chegar ao 11o ano. Havia três condições atribuídas aleatoriamente: uma oportunidade de utilizar nosso pessoal como consultor uma vez por ano (o grupo de controle); um grupo de casais que enfatizava os relacionamentos pais-filhos (abordagem mais tradicional); ou um grupo de casais mais focalizado no relacionamento entre os próprios pais. Quando as famílias foram avaliadas durante a educação infantil e o primeiro ano do ensino fundamental, os pais que participavam do grupo com ênfase nos relacionamentos pais-filhos haviam melhorado aspectos de suas práticas parentais que havíamos trabalhado em nossas reuniões; nenhuma melhoria foi constatada no grupo de controle. Por outro lado, os pais que participavam do grupo em que os coordenadores focalizavam principalmente questões ligadas ao casal apresentaram uma redução dos conflitos do casal durante a observação, e suas práticas parentais tornaram-se mais eficazes

As duas variantes de intervenção tiveram impacto sobre as crianças. Aquelas cujos pais participaram dos grupos que focalizavam práticas parentais melhoraram a autoimagem e mostraram menor propensão a apresentar comportamentos tímidos, reservados ou depressivos na escola; aquelas cujos pais participaram de grupos focalizados no casal obtiveram melhores resultados nos testes individuais do que as demais, e manifestaram menos comportamentos agressivos na escola. As intervenções (autoavaliadas e observadas) continuaram a ter impacto significativo sobre as famílias durante os dez anos seguintes, no que diz respeito à qualidade do relacionamento do casal e aos problemas de comportamento dos alunos. O impacto dos grupos focalizados no casal foi sempre igual ou superior ao impacto dos grupos focalizados nas práticas parentais.17 

Conclusões 

Em resumo, demonstramos por meio de estudos correlacionais que a qualidade dos relacionamentos pais-filhos e do casal está associada à adaptação escolar das crianças. Com os estudos de intervenção, constatamos que a mudança do “tom” do relacionamento do casal e do relacionamento pais-filhos tem impacto causal de longo prazo sobre a adaptação escolar das crianças. 

Implicações

Nossa ênfase sobre relacionamentos familiares como contextos importantes para a capacidade das crianças de lidar com as exigências do ensino fundamental representa um desafio real para os formuladores de políticas de educação e para equipes escolares. Sugerimos entrar em contato com os pais antes que as crianças ingressem na escola, e entendemos que um melhor relacionamento entre os pais beneficiará seus filhos. Durante anos de consulta com equipes da educação infantil e do ensino fundamental, constatamos que poucos profissionais têm capacitação para comunicar-se com os pais, e nenhum deles recebeu formação para atuar em intervenções que poderiam melhorar a parentalidade ou o relacionamento dos casais. 

A alternativa evidente seria empregar educadores familiares capacitados, trabalhadores sociais, enfermeiros ou psicólogos clínicos para organizar e coordenar os grupos de casais. Obviamente, há custos. O que ainda desconhecemos é a relação custo-benefício. Se os custos para a escola e para a sociedade forem mais elevados para cuidar de crianças com comportamentos problemáticos do que os custos das intervenções focalizadas na família, talvez seja o momento de considerar essa abordagem.

Referências 

  1. Rimm-Kaufman S., School transition and school readiness: An outcome of early childhood development. In: Tremblay RE, Barr RG, Peters RdeV, eds. Encyclopedia on Early Childhood Development [online]. Montreal, Quebec: Centre of Excellence for Early Childhood Development; 2004:1-7. Available at: http://www.child-encyclopedia.com/pages/PDF/Rimm-KaufmanANGxp.pdf. Accessed March 4, 2009.
  2. Bornstein MH, ed. Handbook of Parenting. 2nd ed.  Mahwah, N.J.: Erlbaum; 2002.
  3. Pianta RC, Cox MJ, National Center for Early Development & Learning (U.S.), eds. The transition to Kindergarten. Baltimore, MD: P.H. Brookes Pub;1999.
  4. Cowan PA, Heming G. How children and parents fare during the transition to school. In: Cowan PA, Cowan CP, Ablow JC, Johnson VK, Measelle JR, eds. The Family Context of Parenting in Children's Adaptation to Elementary School. Mahwah, NJ: L. Erlbaum Associates; 2005. Monographs in parenting series.
  5. Sameroff AJ, Haith MM, eds. The Five to Seven Year Shift: The Age of Reason and Responsibility. Chicago, IL: The University of Chicago Press; 1996. The John D. and Catherine T. MacArthur Foundation series on mental heath and development.
  6. Entwisle DR, Alexander KL. Facilitating the transition to first grade: The nature of transition and research on factors affecting it. The Elementary School Journal 1998;98(4):351-364.
  7. Kellam SG, Simon MB, Ensminger ME. Antecedents in first grade of teenage drug use and psychological well-being: A ten-year community-wide prospective study. In: Ricks DF, Dohrenwend BS, eds. Origins of psychopathology: Research and public policy. Cambridge, NY: Cambridge University Press; 1983.
  8. Cowan PA, Cowan CP, Ablow JC, Johnson VK, Measelle JR, eds. The Family Context of Parenting in Children's Adaptation to Elementary School. Mahwah, NJ: L. Erlbaum Associates; 2005. Monographs in parenting series.
  9. Baumrind D. New directions in socialization research. American Psychologist 1980;35(7):639-652.
  10. Steinberg L. We know some things: Parent-adolescent relationships in retrospect and prospect. Journal of Research on Adolescence 2001;11(1):1-19.
  11. Parke RD, Buriel R. Socialization in the family: Ethnic and ecological perspectives. In: Damon W, ed. Handbook of Child Psychology. 5th ed. New York : J. Wiley; 1998: 463-552. Eisenberg N, ed. Social, Emotional, and Personality Development; vol 3.
  12. Cowan CP, Cowan PA. When Partners Become Parents : the Big Life Change for Couples. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates; 1999.
  13. Barth JM, Parke RD. The impact of the family on children's early school social adjustment. In: Sameroff AJ, Haith MM, eds. The Five to Seven Year Shift: The Age of Reason and Responsibility. Chicago, IL: The University of Chicago Press; 1996: 329-361 The John D. and Catherine T. MacArthur Foundation series on mental heath and development.
  14. Cowan PA, Cowan CP. Interventions as tests of family systems theories: Marital and family relationships in children's development, and psychopathology. Development and Psychopatholology 2002;14:731-760.
  15. Cowan PA, Cowan CP. Five-domain models: Putting it all together. In: Cowan PA, Cowan CP, Ablow JC, Johnson VK, Measelle JR, eds. The Family Context of Parenting in Children's Adaptation to Elementary School. Mahwah, NJ: L. Erlbaum Associates; 2005. Monographs in parenting series.
  16. Cowan CP, Cowan PA, Heming G. Two variations of a preventive intervention for couples: effects on parents and children during the transition to elementary school. In: Cowan PA, Cowan CP, Ablow JC, Johnson VK, Measelle JR, eds. The Family Context of Parenting in Children's Adaptation to Elementary School. Mahwah, NJ: L. Erlbaum Associates; 2005. Monographs in parenting series.
  17. Cowan PA, Cowan CP. Group Interventions for parents of preschoolers: 10-year impact on family functioning and teen’s adaptation. Paper presented at: SRA Biennal Meeting; March 23-26, 2006; San Francisco, California.

Para citar este artigo:

Cowan PA, Cowan CP. O papel dos pais na transição da criança para a escola. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/transicao-escolar/segundo-especialistas/o-papel-dos-pais-na-transicao-da-crianca-para-escola. Publicado: Março 2009 (Inglês). Consultado: 21/08/2017.