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Transições escolares/prontidão escolar: um resultado do desenvolvimento na primeira infância. Comentários sobre Ladd e Stipek

Martha J. Cox, PhD.

Center for Developmental Science & University of North Carolina at Chapel Hill, EUA

Fevereiro 2004 (Inglês). Tradução: fevereiro 2012

Introdução

Na atual cultura ocidental, o período que vai dos 5 aos 7 anos de idadea representa um período culturalmente obrigatório, no qual a criança faz a transição de uma etapa vivida exclusivamente com a família, e talvez no ambiente restrito de uma creche/escola infantil, para passar parte significativa de seu tempo no contexto mais amplo e menos íntimo da escola pública.1 Essa transição coloca um desafio para a criança e para a família, no sentido de que esse novo contexto normalmente demanda novos comportamentos e novas habilidades. Algumas crianças são capazes de fazer essa transição com sucesso: comportam-se habilmente com colegas, interagem adequadamente com professores nesses novos contextos sociais, e dão a impressão de estar bem-ajustadas, o que prediz sucesso ao longo do ensino fundamental.2 Para outras, essa transição é mais difícil, e para compreendê-la, Ladd e Stipek discutem constatações de pesquisas relevantes. Ladd fornece informações detalhadas sobre pesquisas que realizou com seus colegas, e que são pertinentes para a compreensão dos processos que influenciam o processo de adaptação da criança ao ingressar na pré-escola, aos 5 anos de idade. Stipek resume pesquisas sobre idade de ingresso na escola como uma prática que apoia ou impede a adaptação da criança ao fazer a transição para a pré-escola.

Transições escolares/prontidão escolar: um resultado do desenvolvimento na primeira infância. Comentários sobre Ladd 

Pesquisas e conclusões

Ao examinar as conclusões apresentadas por Ladd e Stipek, é importante considerar, em primeiro lugar, a qualidade do trabalho. Necessariamente, as conclusões de pesquisas inconsistentes devem causar menor impacto sobre práticas e políticas educacionais do que os resultados obtidos por pesquisas marcadas pela excelência.

O trabalho de Ladd é marcado por excelência conceitual e metodológica. No nível conceitual, a consideração de múltiplos níveis de fatores que podem “ser negociados” na formação de diferentes trajetórias de progresso escolar para diferentes crianças leva nosso conhecimento para além dos modelos de “efeitos principais” de desenvolvimento que formam o conceito de cada influência como uma contribuição independente. O modelo limitado de efeitos principais caracteriza grande parte da pesquisa sobre adaptação inicial à escola. O modelo mais amplo utilizado por Ladd incorpora as perspectivas holísticas, contextuais, ecológicas e transacionais de desenvolvimentistas importantes como Magnusson, Bronfenbrenner e Sameroff. Fornece informações sobre os processos e as interações entre os fatores que levam a criança a apresentar dificuldades na escola ou, ao contrário, a ajustar-se suavemente ao novo contexto escolar.

Em termos metodológicos, o trabalho de Ladd também abre novos caminhos. A definição de sucesso na escola vai além de escores obtidos pela criança em testes que medem progressos escolares, e inclui uma conceituação mais abrangente de adaptação da criança. Portanto, uma criança é considerada bem-sucedida na escola quando desenvolve uma atitude positiva em relação à escola e à aprendizagem; quando estabelece vínculos sociais aprobatórios com professores e colegas; quando vivencia emoções confortáveis e positivas, e não ansiedade ou solidão; quando participa e se envolve positivamente em sala de aula; e quando obtém sucesso e progride em termos escolares. Essa perspectiva mais ampla de sucesso escolar reconhece a criança de maneira integral, assim como a importância dos relacionamentos, de fatores relativos a atitudes cognitivas e emocionais, além de seu progresso escolar.

Concordo com as conclusões formuladas por Ladd, mas considero útil discuti-las à luz do conceito de continuidade do comportamento ou do risco. Ao compreender as trajetórias através das quais a criança pode apresentar dificuldades na escola, aparentemente predisposições comportamentais precoces de agressividade, ansiedade ou retraimento, essas a tornam mais propensa a ter dificuldades em estabelecer relacionamentos positivos com seus colegas. É possível obter maior compreensão das dificuldades de adaptação à escola quando esses fatores são considerados em conjunto – ou seja, é quando predisposições comportamentais mais problemáticas levam a dificuldades crônicas com colegas que as crianças mostram aumentos significativos no desajustamento psicológico e escolar ao longo dos primeiros anos de escolarização. Quando o risco inicial não se mantém no ambiente escolar – ou seja, a criança consegue estabelecer relacionamentos positivos com seus colegas, apesar da predisposição comportamental inicial de agressividade ou de ansiedade-retraimento –, a criança não manifesta dificuldades de adaptação a longo prazo. Essa noção de continuidade de problemas no contexto escolar pode ser útil, uma vez que as escolas tendem a considerar a criança e a família como responsáveis pelo comportamento e pelo sucesso da criança, mas não levam em consideração de que forma esse contexto pode favorecer a manutenção do risco inicial ou em que medida consegue eliminá-lo.

Implicações

Essas considerações levam diretamente a implicações para políticas educacionais e serviços. O trabalho de Ladd tem implicações importantes para a criação de contextos escolares que mantenham ou não predisposições iniciais de comportamentos problemáticos e padrões de comportamento das crianças. As recomendações de Ladd para o enfrentamento desses problemas são sensíveis, mas enfocam apenas a melhoria dos relacionamentos diádicos entre as crianças. É muito provável que o contexto geral e o ambiente de sala de aula influenciem o tipo de interações que ocorrem entre crianças. Salas de aula que enfocam respeito e apoios mútuos tendem a criar os tipos de contexto em que a vitimização e a rejeição de crianças são menos prováveis. Além dos esforços para melhorar os relacionamentos entre pares de crianças, a qualidade geral do contexto de sala de aula também deve ser levada em consideração. 

Idade de ingresso na escola. Comentário sobre Stipek

Pesquisas e conclusões

Quanto à revisão do artigo de Stipek, a autora leva em consideração os resultados de diversas pesquisas meticulosas sobre a idade da criança ao ingressar na escola. A revisão sugere que, considerada como variável isolada, a idade de ingresso não explica grande parte das diferenças no desempenho escolar da criança. Stipek sugere que pesquisas relacionadas à idade de ingresso não favorecem a formulação de políticas educacionais que tenham como foco a antecipação ou o retardamento do ingresso. Esta é mais uma demonstração da inconsistência de explicações baseadas em causa única para o processo de adaptação escolar. Segundo essas pesquisas fica evidente que crianças pequenas obtêm benefícios do contexto escolar e apresentam ganhos escolares, independentemente da idade de ingresso. Stipeck argumenta que a ênfase deve ser colocada sobre a construção de contextos de sala de aula que favoreçam ao máximo o desenvolvimento de habilidades escolares e sociais da criança, com o entendimento de que crianças de todas as idades estão “prontas para aprender.” Essa recomendação é consistente com o trabalho de Ladd, que sugere que os progressos da criança nos planos escolar e social são importantes para sua adaptação à escola e que, portanto, as escolas devem considerar a adequação das salas de aula ao desenvolvimento escolar e social das crianças. Esses dois aspectos estão intimamente associados ao desenvolvimento, conforme demonstra o trabalho de Ladd.

Implicações

Duas implicações-chave surgem com esse trabalho. Em primeiro lugar, devemos interpretar de forma mais ampla o “sucesso” da criança em sala de aula. Uma vez que alguns aspectos do desenvolvimento estão intimamente vinculados ao conceito de “criança como um todo,” é essencial à compreensão dos aspectos sociais, emocionais, atitudinais e escolares no processo de adaptação da criança à escola. O trabalho de Ladd demonstra o poder dos relacionamentos sociais para impor trajetórias diferentes a crianças com dificuldades iniciais. Essas trajetórias estão associadas ao envolvimento e à ligação da criança com o ambiente escolar, em contraposição à manutenção de dificuldades comportamentais e à alienação frente às atividades escolares. Um foco limitado sobre habilidades escolares não considera os importantes progressos que a criança deve fazer ao adaptar-se à sala de aula. Em segundo lugar, o contexto da sala de aula é importante porque pode manter ou impedir os riscos iniciais. Pouca atenção é dedicada à qualidade do ambiente de sala de aula. Fica a cargo dos professores a construção desses ambientes da forma que lhes parece adequada. Tais ambientes devem ser construídos para atender às necessidades da criança na sala de aula.

Références

  1. Barth JM, Parke RD. Parent-child relationship influences on children’s transition to school. Merril-Palmer Quarterly 1993;39(2):173-195.
  2. Pianta RC, Rimm-Kaufman SE, Cox MJ. An ecological approach to kindergarten transition. In: Pianta RC, Cox MJ, eds. The Transition to Kindergarten. Baltimore, MD: Paul H. Brookes Publishing; 1999:3-12.

Nota:

aNT: A organização dos programas que precedem o ensino fundamental varia nos diferentes países. No Brasil, é regida pela LDBEN, que determina que a educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até 5 anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. É oferecida em duas modalidades:

  1. creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até 3 anos de idade;
  2. pré-escolas, para crianças de 4 e 5 anos de idade.

Devido à discrepância entre as faixas etárias, e para facilitar a compreensão, neste artigo faremos referência a programas de educação infantil, ou programas para a primeira infância. Programas de “jardim de infância” correspondem à modalidade “pré-escola”.

Fontes: www.primeirainfância.org.br

Lei 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN)

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm

Para citar este artigo:

Cox MJ. Transições escolares/prontidão escolar: um resultado do desenvolvimento na primeira infância. Comentários sobre Ladd e Stipek. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line]. http://www.enciclopedia-crianca.com/transicao-escolar/segundo-especialistas/transicoes-escolaresprontidao-escolar-um-resultado-do-0. Publicado: Fevereiro 2004 (Inglês). Consultado: 17/08/2019.